S02E04 – Cash is King, The King is Dead

S02E04 – Cash is King, The King is Dead

Trilha da semana
The National – High Violet

 

“Moço, não pode pagar com cartão?”, me perguntou a vendedora, olhando feio para aquelas notas sujas e amassadas com as quais, em vão, tentei pagar o chocolate.

Se “cash is king”, the king is dead.

“Vai pagar no débito ou no crédito?”

Se barras de ouro valem mais do que dinheiro, o cartãozinho de plástico não fica muito atrás.

A história me fez lembrar das idas ao supermercado com meus pais, depois da aula, nos idos do Plano Cruzado.

Tinha hiperinflação, congelamento de preços e fiscais do Sarney pra todo lado – a compra do mês era um martírio para uma criança de seis anos.

Todo mundo ia ao mercado no mesmo dia – as filas do caixa se estendiam por metros e mais metros e as horas perdidas no Carrefour poderiam ter sido muito melhor gastas lendo o “Grande Almanque de Férias” da Disney.

Lembro de minha mãe preenchendo o cheque com aquela letra de quem fez caligrafia por anos, e de meu pai passando o cartão em uma máquina que parecia um mimeógrafo (a geração Snapchat não deve ter a mínima ideia do que seja isso).

O velho tinha que colocar o cartão virado para baixo, o rapaz do caixa esfregava a alça de cima da máquina sobre o cartão e, pronto, estava gerado um borderô com o valor da compra, assinatura do meu pai, nome do estabelecimento e tudo mais. Depois disso, era só rezar e torcer para que nenhum papel se perdesse no meio do processo.

Um dia, enquanto esperávamos a fila do caixa andar e comíamos uma Ruffles aberta durante as compras (para total desaprovação da Dona Cleusa), comentei com meu pai que deviam inventar um jeito de pagar as contas assim como se tirava dinheiro do caixa eletrônico – vai lá, passa o cartão, digita uma senha e pronto! Ninguém mais ia precisar andar com dinheiro no bolso – o fim das filas e da violência urbana.

Meu pai me olhou com uma cara de desaprovação, como se eu tivesse passado muito tempo assistindo aos Jetsons – “daqui a pouco esse menino vai começar a falar em robôs que aspiram pó”.

Demorou um bom tempo, mas uma hora veio o tal do Visa Electron e a maior ideia que tive na vida não me rendeu nem um centavo. Nem encher o saco do meu pai eu pude – claro que ele nem lembrava mais da história.

Seja como for, ninguém mais quer saber de dinheiro (tirando aqueles que recebem seus “pagamentos” em malas) e, mais do que isso, a indústria financeira tem passado por mais transformações nas últimas décadas do que passou ao longo dos últimos séculos.

Não à toa, “fintech” tá mais na moda do que cobrar lateral direto na área (ah, o Cucabol).

Explico: fintech é uma empresa que utiliza novas tecnologias para criar produtos e/ou soluções financeiras. São as queridinhas de quem não suporta filas em agências (todo mundo) e arquirrivais dos bancários, que, a cada ano, perdem poder de barganha com greves cada vez mais inócuas.

O termo é relativamente novo, mas o conceito é antigo: home brokers estão aí há anos, faz tempo que se paga conta pela internet e por aí vai.

Não à toa, a Nubank, startup financeira, foi avaliada em 500 milhões de reais no fim de 2016 e já tem gente no mercado falando que vale mais de 1,5 bilhão.

O Itaú comprou 49,9 por cento da XP em maio por algo em torno de 6 bilhões de reais – engana-se quem acha que o fez só para barrar o crescimento da maior corretora independente do país.

Setúbal e seus amigos devem enxergar muito valor no negócio para comprar um stake minoritário e garantir que a XP continue a operar de forma independente (condição essencial para a realização do negócio).

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Pouco depois, a Globo comprou um pedaço da Órama, distribuidora de valores mobiliários, alegando que vê com bons olhos a participação em “um setor dinâmico, que experimenta altas taxas de crescimento nos mercados brasileiro e mundial”.

As possibilidades de crescimento de um negócio do tipo, impulsionado pela plataforma online da Globo, são praticamente infinitas – a desbancaraização chegou para ficar.

Se a XP for engolida pelo Itaú, alguém vai aparecer e tomar o lugar.

É por isso que, mesmo que muitas fintechs ainda queimem mais caixa do que uma criança solta pelos parques da Disney, todo mundo virou os olhos para o setor e tem muito banker enfeitando noivas para o “casamento do ano”.

O mercado mudou – não se usa mais cheques, não se vai mais às agências e, espero eu, em breve ninguém mais vai pegar “dicas” de investimentos com o gerente do banco.

Poupança, títulos de capitalização e fundos de investimento com taxas pornográficas serão artigos de museu e, se alguém der conta de arrumar essa armadilha fiscal do orçamento da União, pode até ser que as LFTs saiam de moda e o brasileiro comece a tomar gosto por esse tal de risco.

Assim como os bancos, ou você se reinventa ou vai ficar para trás. Como garantir o merecido conforto na velhice com taxas de juro tão baixas?

Se quiser pagar pra ver, tudo bem.

Fique à vontade.

Só lembre: não aceitamos cheques.

Nem dinheiro.

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