S02E05 – Vamos Pra Onde?

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Para se recuperar da crise de 2008, a vasta maioria das economias desenvolvidas cortou juros sem dó – em 2014, o Banco Central Europeu chegou a instituir taxas negativas para os depósitos bancários, fazendo com que, na prática, o europeu pagasse para deixar dinheiro no banco, evitando que as pessoas deixassem grana parada na conta.

A ideia é simples: se não vale a pena poupar, é melhor sair gastando – os bancos emprestam mais dinheiro, as empresas investem em novos projetos, e as famílias optam por comprar uma casa e/ou trocar de carro.

É uma forma de tentar fazer a economia pegar no tranco.

No Brasil, não.

Por aqui, pintou crise, logo vem a famosa ata do Copom com aumento de juros. Em paralelo, o governo começa a cortar gastos e aumentar receitas (os “bons” e velhos impostos). Ao invés de ajudar a economia, o remédio brasileiro para a crise é uma série de medidas que mais alijam do que ajudam o mercado.

Justamente quando o mercado está precisando daquela forcinha, a economia travada precisando de um empurrão, o BC vai lá e “pá!”, começa a aumentar os juros como se não houvesse amanhã.

Por que isso?

Há uma série de teorias e explicações.

Quando penso sobre isso, sempre me lembro de como foram os anos 80: os preços subiam mais rápido do que o ego do analista que acertou o call. Era coisa de 40 por cento ao mês, amigo. E, quem passou por isso, tem um medo danado de sentir a tal da inflação na pele novamente.

Nunca me esqueço de um quadro do Jô Soares – a mulher chega no açougue: “Meio quilo de carne, por favor”. O açougueiro: “140 cruzados”. A mulher, indignada, exclama: “Mas hoje pela manhã era só 120!”. E o açougueiro rebate: “Bons tempos…”.

Olha como funciona na crise: se a atividade cai e o governo arrecada menos, faltam recursos para operar e manter a máquina. A saída é aumentar a base monetária (“imprimir moeda”), o que em nada altera o total de bens e serviços na economia. Oras, se você tem a mesma quantidade de produtos e mais moeda em circulação, os preços sobem para “fechar a conta”.

Ou seja, a inflação no Brasil tem menos a ver com demanda do que com a situação fiscal. Se não tapar o rombo com ajustes, a inflação vem e faz o serviço.

Além disso, o Brasil já deu o calote na dívida algumas vezes – a cada soluço que ocorre por aqui, os investidores estrangeiros correm para tirar seus recursos do país e pressionam o câmbio. Não tem como escapar: câmbio depreciado e alta de preços andam lado a lado.

Por favor, não me venha com bobagens do tipo: “Só quem é rico compra produtos importados ou viagem para a Disney”. Dólar para cima implica em diversos insumos mais caros – sobe o preço do trigo e o pãozinho fica mais caro. Até a conta de luz fica mais cara quando o dólar sobe.

Para piorar, quem mais sente o peso da inflação são as camadas mais pobres: se você não é bancarizado, a inflação “come” o seu salário ao longo do mês. Em uma crise, imagine só a combinação: inflação e desemprego. Não à toa, os dois juntos formam o tal “índice da miséria”.

Assim, a cada crise, o governo brasileiro se enxerga com um cobertor curto nas mãos: se abaixar os juros, não consegue rolar sua própria dívida, o câmbio explode e a inflação vai às alturas. Se aumentar os juros, segura o câmbio e a inflação, mas trava ainda mais a economia, gera desemprego e aumenta o custo do estoque da dívida pública.

É por isso que a grande sacada do Plano Real não foi o corte de zeros, o travamento do câmbio ou o aumento dos juros. Durante os meses que antecederam (e que sucederam) o fatídico junho de 1994, o governo brasileiro promoveu um maciço enxugamento de custos.

Fecharam-se torneiras, levantaram-se esqueletos e privatizaram-se ralos.

Enquanto a seleção do Parreira treinava nos EUA, a equipe de FHC corria contra o tempo para colocar a casa em ordem e, muito depois que Roberto Baggio mandou a Questra pelos ares de Pasadena, veio o que deveria ser o ponto final de toda a bagunça.

FHC, o ministro que virou presidente, sancionou a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) em 4 de maio de 2000. A partir dali, nenhum governo poderia gastar de forma irresponsável. As contas públicas teriam fiscalização e os tempos do cobertor curto ficariam para trás.

A coisa funcionou bem até que, lá para 2010, veio o Mantega e essa tal de “Nova Matriz”, que de nova só tem mesmo o nome – gastar demais e agradar os amigos do rei. É um jogo antigo e não tem marqueteiro que transforme a ideia em nova. Fato é que, 20 anos depois da criação do Real e uma semana após a reeleição de Dilma, o Banco Central teve que correr novamente para subir os juros.

Mas, se a LRF não bastou para segurar o ímpeto populista do PT, pelo menos deu embasamento para que impedíssemos a continuidade da festa. Dilma caiu, veio Temer e, com ele, a PEC do teto, que é mais uma tentativa de segurar os gastos e controlar a dívida.

Mas só ela não basta, e se faz presente a encruzilhada.

Aqui não há ideologia que resolva – a matemática é teimosa e não costuma ceder aos anseios de ninguém. Seja progressista ou liberal, ao gastar mais do que arrecada, no fim vai ficar com uma dívida a pagar.

Independentemente de quais nomes aparecerem na cédula em 2018 – pode ser Temer, Maia, Bolsonaro, Lula, Ciro ou Doria – há só uma pergunta a responder.

Qual Brasil a gente quer?

Queremos o velho Brasil, do populismo, das “pedaladas” e dos amigos do rei? O “Brasil da meia-entrada”? (Peço licença ao Marcos Lisboa.)

Ou queremos o Brasil novo, com propósito e propostas? Com equilíbrio das contas públicas, investimento responsável e accountability pela coisa pública?

A gente quer seguir o caminho do Brasil de juros baixos e inflação decente ou viver pra sempre com o cobertor curto e o fantasma da inflação?

Pra mim, não é uma decisão difícil: Venezuela ou Chile?

Há pouco tempo ou espaço para pensar – já empurramos com a barriga o tanto que deu. A conta chegou – os amigos cariocas que o digam.

“¿Nosotros vamos a Santiago o a Caracas?”

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Noise Reduction

O Noise Reduction de hoje é bem curtinho, mas muito importante.

Tem bastante gente me perguntando se, com a taxa de juros lá embaixo, não vale mais a pena deixar o dinheiro na poupança.

Não!

Nunca!!

Jamais!!!

As regras da poupança mudaram faz um tempinho: para depósitos feitos a partir de 4 de maio de 2012, a poupança passa a render 70 por cento da Selic sempre que a taxa básica da economia for igual ou menor a 8,5 por cento.

Ou seja, mesmo pagando o imposto sobre suas aplicações em LFTs, ainda vale mais a pena deixar o dinheiro no Tesouro Direto do que depositar na poupança.

Vale, também, investir em fundo DI de baixo custo. A Luciana tem alguns para indicar, mas, já que ela não está por aqui hoje, vou te falar um que ela gosta bastante e que tem taxinha de administração de 0,2 por cento ao ano – quase nada.

XP Tesouro LFT FI Renda Fixa Simples é o nome da criança.

Por favor, não caia na conversa do gerente do seu banco.

Poupança só ajuda o banqueiro, que já tem dinheiro demais.

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