S02E09 – Live and Let Die

S02E09 – Live and Let Die

Trilha da semana
Guns N’ Roses – Use Your Ilusion I

But if this ever changin’ world
In which we live in
Makes you give in and cry
Say live and let die
Live and let die

Reza a lenda que o pequeno Amartya Sen, com uns 10 anos de idade, brincava no jardim de sua casa em Dhaka quando um homem apareceu à sua frente, sangrando e gritando de dor.
Kader Mia, um muçulmano que trabalhava em uma casa da vizinhança, havia sido esfaqueado pelas costas em uma área hindu da cidade.

Diariamente, Kader Mia passava pelo território hindu e arriscava a vida porque não tinha outra alternativa – ou era isso, ou sua família não teria o que comer.

Como não podia escolher onde trabalhar, Kader Mia acabou morrendo e, ao mesmo tempo, moldou o caráter do jovem indiano que jamais esqueceu a história.

Em 1998, décadas depois, Amartya escreveu o livro “Desenvolvimento Como Liberdade” e foi premiado com o Nobel de Economia. Dentre outras coisas, o cara é responsável pela criação do IDH e é referência mundial na luta contra a pobreza.

A ideia central de sua obra é que não se pode medir a riqueza puramente através de quanto as pessoas têm de dinheiro – seu conceito de riqueza é bem mais amplo: você é rico se pode escolher o que fazer (simplificando).

Da mesma forma, um país rico é aquele em que seus cidadãos podem fazer o que bem entenderem de suas vidas.

Para ele, enquanto muçulmanos se virem forçados a arriscar a vida atravessando bairros hindus (e vice-versa), não há desenvolvimento e não há riqueza.

Filosoficamente, quão rico é você se tem todo dinheiro do mundo mas não pode fazer nada? De que adianta ter um Van Gogh trancado em um cofre?

Sempre achei a visão de mundo de Amartya completamente antagônica à teoria marxista: “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

A frase, popularizada por Marx e mantra de seus seguidores, é a explicação cabal de por que o comunismo não funciona: os pensadores de esquerda se preocupam muito com a capacidade e a necessidade das pessoas, mas pouco lhes importam suas vontades.

Yao Ming, pivô de 2,29 metros altura, é filho de um casal de jogadores de basquete. Seu pai, com 2 metros, e sua mãe, com 1,9 metro, foram “incentivados” pelo governo chinês a terem um filho que viria a ser um astro dos esportes e fenômeno na NBA.

Em uma economia planejada, não interessa se você quer ser advogado ou pintor – se a sociedade precisa de engenheiros, é isso que você vai ser.

O problema é: para “segurar as vontades” e controlar todo mundo, começam as censuras, o controle de mídia e a repressão política. Invariavelmente, há que se caminhar para alguma forma de ditadura, ou o sistema colapsa.

Oras, se não há riqueza sem liberdade, o controle só pode trazer pobreza – os venezuelanos que o digam!

Não à toa, pensadores à esquerda costumam acusar Amartya de ser um neoliberal safado. E olha que estamos falando de um cara que prega que só dinheiro não te traz mais riqueza!

Pensando sob a ótica do indiano, poucas coisas me parecem mais libertadoras e, portanto, enriquecedoras, do que as novas tecnologias, as invenções disruptivas.

Tome o UberEATS, por exemplo. São centenas de restaurantes que aparecem para milhares de pessoas sem gastar com propaganda (os dois lados saem ganhando!).

Quer ser músico? Grave um álbum e distribua no Spotify.

Sabe o filme “Perdido em Marte”? É baseado em um livro que foi escrito num blog gratuito, capítulo por capítulo; depois de fazer enorme sucesso online, começou a ser vendido pela Amazon no Kindle.

Falo com meu primo em Santa Catarina diariamente sobre futebol, cinema, música e política sem gastar um centavo. Tenho amiga em Londres e amigo em Miami. Uma outra se mudou ontem para o Panamá. Dá para falar com os três a qualquer hora do dia e da noite.

Lembro que sonhava com o dia em que entraria no carro e poderia, a qualquer momento, escolher a música que ia ouvir. Tá tudo ali: bluetooth conectado com o carro. Celular com 4G. Pronto. Qualquer música, a qualquer hora!

Eu já escrevi uma newsletter em Nova York e outra em Ribeirão. Já terminei relatório em Minas e vira e mexe estou fazendo alguma coisa na minha casa.

Para algumas profissões, já é possível morar onde quiser e trabalhar de casa. Sem necessidade de ir ao escritório todo dia. A médio prazo, pode ser o fim dos grandes centros urbanos, do trânsito, etc.

Atualmente, pouca coisa tem o potencial para mudar o mundo como esse tal de bitcoin. Na verdade, pensando de forma mais ampla, as tais das criptomoedas.

Quão libertador é poder mandar dinheiro para alguém sem o intermédio de um banco? Quão livres são as pessoas se suas moedas não são emitidas nem controladas por um Banco Central?

Tem venezuelanos e chineses comprando bitcoin para fugir do controle de capitais – já que não podem mandar dinheiro para fora, as pessoas estão dolarizando suas economias e surfando a onda das criptomoedas.

A Amazon já está começando a aceitar os bitcoins como forma de pagamento – e com desconto, já que não há intermediários a se remunerar. Já tem empresa japonesa emitindo bonds denominados em bitcoins, e por aí vai.

Da mesma forma que não se vai mais à loja de discos e praticamente não se passa mais cheques, em pouco tempo você vai mandar dinheiro para alguém sem precisar fazer TED ou DOC.

Transferência pro filhote intercambista? Pra que fechar câmbio, pagar taxas e o spread da corretora? Simplesmente pegue o código da wallet dele e mande uns bitcoins.

Sinceramente, é impossível saber qual dessas moedas vai virar – lá atrás a gente tinha Orkut, Myspace e Hi5. Quem acabou levando a brincadeira foi o tal do Facebook.

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Por isso mesmo, se alguém lhe disser que sabe COM CERTEZA se alguma dessas moedas vai subir ou cair, pode fugir que é mentira. Agora, o que não dá para negar é que tem alguma coisa acontecendo.

Enquanto você está aí, achando que é tudo um grande esquema ou “ouro de tolo”, o mundo está mudando diante de seus olhos.

Se a desbancarização é tendência, as criptomoedas são a ferramenta definitiva.

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