S02E10 – Amo muito tudo isso

Nada bate o Big Mac

S02E10 – Amo muito tudo isso

Trilha da semana
Echo & The Bunnymen – Songs to Learn & Sing

 

Dortmund.

Kaká avança pelo meio de campo, ergue a cabeça, vê o “9″ partindo e dá um tapa na bola. Ronaldo ajeita, espera um pouco e dá aquela leve pedalada típica.

O goleiro cai e o gol se abre.

15 gols em quatro Copas e o recorde, que desde 74 era de Gerd Müller, vem para os braços do Fenômeno.

É tetra! É tetra! É tetra!

Não, péra. Copa errada.

Pouco mais de 8 anos se passaram e os alemães se vingam da final de 2002 com requintes – em Belo Horizonte, Klose faz seu 16º gol em Copas diante de um Ronaldo atônito e um país incrédulo. Depois desse, viriam mais cinco.

Prefiro nem lembrar dos três da Holanda.

20 de maio de 2008.

São Paulo.

Bate o sino na Bovespa e o índice fecha a 73.516,81 pontos.

Maior da história.

Por uma série de fatores internos e externos, demorou quase dez anos, mas recorde bom é recorde morto.

Segunda: 74.319,22 pontos.

Terça: 74.538,55 pontos.

Quarta: 74.787,57 pontos.

Hoje: ????

Enquanto Tite e Neymar reconstroem a dignidade da camisa amarela, o Ibovespa vai pintando de verde as telas dos investidores pelo mundo.

Junto com as novas marcas, claro, vêm as perguntas: “Depois de bater o recorde, é para comprar ou vender?”.

Amigão, na boa…

Pouco importa se subiu muito, se tá no topo ou no piso.

Se não interessa quanto você pagou por um ativo, tampouco importa a trajetória dele até ali.

O que interessa, SEMPRE, é se vai subir ou não AMANHÃ.

“Se for subir, compre. Se for cair, venda.”

Todo o resto, assim como o gol para o Parreira, é só um detalhe.

Pensando um pouco mais filosoficamente – se você é um investidor de Bolsa, tem que acreditar que as ações, como classe de ativo, subam. Ou seja: espera-se que, constantemente, a Bolsa renove suas máximas.

Claro que há momentos de baixa, ciclos para baixo, etc. e tal.

Mas o movimento de longo prazo tem que ser para cima!

Agora, se você teima em se preocupar com o recorde, que tal colocar as coisas em perspectiva?

De 2008 para cá, o IPCA acumulou 74 por cento; o dólar subiu 87 por cento; o PIB (nominal) andou 102 por cento; e o CDI rendeu a bagatela de 162 por cento.

Faz sentido comparar as coisas em termos nominais?

Ajustando por qualquer um desses índices, o Ibovespa ainda tem que comer muito arroz com feijão para sequer olhar no olho da marca de dez anos atrás.

A Economist (aquela mesma do Cristo decolando) tem o índice Big Mac – uma ideia criativa para avaliar o poder de compra em diferentes países ao longo do tempo.

Funciona bem porque o Big Mac é igual no mundo todo e, desde que me entendo por gente, não mudou nada – “dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim” valia em 1980, valia em 2008 e deve continuar valendo em 2020.

Pois bem, com os 73,8 mil pontos de 2008, você comprava 9.800 Big Macs – 2,5 milhões de calorias, mais ou menos. Com os 75 mil pontos de hoje, você leva para casa uns 3.800 lanches, o que não dá nem 1 milhão de calorias.

Tá light demais essa Bolsa!

Daqui a pouco a Pugliesi vai recomendar: “Compre Bolsa e faça dez abdominais antes do almoço”.

Isso porque não estou nem entrando no mérito da Selic abaixo dos 7 por cento e do “Fantástico Mundo de Draghi” – juros zero para todo o sempre.

“Ah, mas a composição do índice era outra em 2008.”

Fato.

Mesmo se levarmos a composição do índice hoje para 2008 e ajustarmos para compensar as ações que à época não eram listadas, ainda tem muito espaço pela frente – fazendo uma conta rápida, em 2008 o “Ibovespa de hoje” valeria uns 58,9 mil pontos, ou 7.900 Big Macs.


Fontes: Empiricus, Banco Central, Bloomberg, The Economist e McDonald`s

E o que isso quer dizer?

De cara, dá para dizer que o CDI e o Big Mac foram imbatíveis nos últimos anos.

Mas, olhando para frente, esse gráfico não quer dizer muita coisa, não.

Essa tal de Bolsa pode continuar subindo e parar só lá nos 100 mil pontos, ou amanhã o Meirelles pode cair (bate na madeira!) e o Ibovespa pode ir buscar os 37 mil de janeiro de 2016.

Ninguém sabe e quem diz o contrário mente – para você ou para si mesmo.

Só que… pense comigo.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

E se passar a Previdência? E se o PIB crescer 3 por cento no ano que vem? E se elegermos uma agenda liberal, reformista e privatizante?

Eu não sei para onde vamos, só sei que tem um monte de gente que torceu o nariz para a Bolsa por anos e que, enquanto a Selic estiver lá embaixo, não poderá mais se dar ao luxo de ficar de fora (bem-vindos, fundos de pensão!).

Por outro lado, concordo que as ações boas, de qualidade e que todo mundo adora já andaram bastante (Itaú a quase 43 reais não me deixa mentir), mas tem aquelas menorzinhas, low profile, que ainda mal entraram na brincadeira.

O fato é que se você ficar se preocupando com os 73 mil pontos de 2008, talvez você não tenha nem como comprar a batatinha em 2020.

(NOT SO) EXTREME INVESTMENT IDEAS

Além das microcaps, uma boa ideia para o médio prazo é Rumo (RAIL3).

A empresa é alavancada, tem um plano de investimento agressivo para o os próximos anos e acabou de cair depois de anunciar um aumento de capital.

Se realmente acreditamos que os juros podem ficar em níveis baixos por um período longo de tempo, é o tipo de empresa que deve pegar os efeitos “na veia”.

Além disso, o investimento em material rodante (locomotivas e vagões), o excelente momento da safra brasileira e a melhora operacional devem trazer bons resultados – o terceiro trimestre deve vir com bom Ebitda – imagine se (quando?!) sair a extensão da concessão da Malha Paulista!

Confesso, os riscos não são poucos: a oferta pode sair lá para baixo, a safra pode piorar e o crédito pode secar – os movimentos recentes indicam que o relacionamento com o BNDES não está em seus melhores dias.

Isso sem contar os riscos inerentes à Bolsa e à macroeconomia – nada garante que os juros vão ficar para baixo por aqui, por exemplo. E a China (Ah, a China!) sempre pode trazer alguma surpresa.

Mas se é para sair da mesmice de Itaú, Vale e Petrobras, eu sinceramente acho que vale fazer uma fezinha.

Conteúdo relacionado