S02E14 – Boston (Not So) Strong

Num piscar de olhos, depois de séculos afirmando que todos os cisnes do mundo são brancos, você se depara com penas negras em um lago australiano.

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S02E14 – Boston (Not So) Strong

Trilha da semana
Harvest Moon – Neil Young

 

Depois de um fim de semana de pouco descanso e com o Monday Night Football já no novo horário de verão, o plano para terça-feira era dormir cedo.

Chego em casa e um amigo me lembra da abertura da NBA: Celtics @ Cavs.

“Dormir é para os fracos”, não é mesmo, Everaldo Marques?

Depois de decidirem a Conferência ano passado, os dois times fizeram uma das trocas mais comentadas da pré-temporada e já pintavam como favoritos na disputa pelo Leste novamente.

Sobre os Cavs: LeBron esteve em todas as finais da NBA desde 2011. É argumento suficiente, não?

Os Celtics, que não levam o título desde 2008 e chegaram às finais da NBA pela última vez no distante 2010, montaram um supertime. Além de trazer Kyrie Irving na troca com os Cavs, fecharam com Gordon Hayward, ala de 2,03 m vindo dos Jazz – 128 milhões de dólares por quatro anos.

O povo de Boston, mal-acostumado com as vitórias recorrentes de algumas das principais franquias dos esportes americanos, já se animava com uma nova temporada de vitórias e conquistas.

Com menos de seis minutos do primeiro quarto do primeiro jogo, Kyrie levanta a bola, Gordon pula. Um movimento que deve ter feito, literalmente, milhares de vezes na vida.

Um pisão em falso na aterrissagem.

A imagem na TV me remete à clássica cena d’O Exorcista: Linda Blair girando a cabeça 180 graus – foram meses sem dormir direito, confesso.

Mando uma foto para um primo: “Cacete, mas o pé dele ainda está dentro do tênis?”.

Por sua conta e risco, dê um Google: “Gordon Hayward injury”.

Um tornozelo deslocado, tíbia fraturada. Fim de temporada.

Junto, provavelmente se foram as esperanças dos bostonianos de mais um título – do jeito que vão os Bruins, e com o fim da temporada para os Red Sox, só resta torcer por uma reconstrução da defesa dos Pats.

Ainda restam 80 jogos para os Celtics, mas todas as previsões, prognósticos e análises; todas as especulações sobre escalação, “matchups” com os outros times da divisão e teorias de como parar LeBron se tornaram absolutamente irrelevantes e ultrapassadas.

Num piscar de olhos, depois de séculos afirmando que todos os cisnes do mundo são brancos, você se depara com penas negras em um lago australiano.

Há exatos 30 anos, o mercado acordou de mau humor – uma segunda-feira qualquer, perdida no meio de outubro de 1987. Mercados na Ásia caíram. Londres abriu mais para baixo depois de uma sexta sem pregão. As ordens de venda se acumularam.

Um pouco mais de tensão entre Irã e EUA, uns navios para cá, algumas bravatas para lá.

Até hoje, ninguém sabe direito o que aconteceu.

Simplesmente alguém gritou “fogo!”.

Porta pequena, multidão grande.

Hong Kong: -45,5%; Austrália: -41,8%; Reino Unido: -26,5 %.

O Dow Jones caiu nada menos do que 22,61% em um único dia.

Até hoje, é a maior queda diária da história do índice.

Nenhum modelo de risco previu nem poderia prever.

A realidade não cabe nas telas de computadores. O mundo é muito mais complexo do que as planilhas de Excel.

O “mercado” não é uma entidade racional, que segue mínimas, máximas, valuations e teorias. É uma imensa feira, com pessoas de todo tipo comprando e vendendo ativos pelos mais diversos motivos.

Tem o trader que não usa o sapato que ganhou da esposa porque dá azar.

Tem o analista que acredita em sinais do além.

Tem também o investidor que compra a ação só porque ela custa um real e, por isso, está barata.

Nas mesas dos maiores bancos de investimento estão sentados jovens de 20 anos, virados da balada com muita vodca na cabeça e vai saber mais o que no nariz.

Tem aquele que só acredita no poder dos dividendos e o outro que tem certeza de que descobriu o valor exato de uma empresa – está só esperando a tal da margem de segurança para comprar tudo!

No mundo real não tem homo economicus, é só o sapiens, que não sabe de nada, tem medo de gato preto e nunca ouviu falar em utilidade!

Os modelos de VaR, as teorias de eficiência do mercado e as matrizes de variância e covariância estão muito mais distantes do dia a dia do mercado do que as quadras da NBA ou os campos do Brasileirão.

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“Ah, isso aí é anedota, tem que descartar esses dados”.

Se o cobertor é curto, por que não cortar fora meus pés?

Sinceramente, há mais utilidade prática nos ensinamentos de LeBron James e Lionel Messi do que na literatura de Harry Markowitz e Eugene Fama.

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