Fogo e fúria, ou apenas som e fúria?

A tese do bull market estrutural encontra hoje um novo desafio, entre vários outros que certamente virão. Acostume-se. Começa assim e depois piora.

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Fogo e fúria, ou apenas som e fúria?

Apenas como hipótese, mero exercício, imagine que estejamos, de fato, diante de um bull market estrutural. Não precisa ser muito criativo. Basta pensarmos no último grande ciclo. Quando a gente não sabe nada, apela para o viés de disponibilidade, em que usamos o exemplo mais fácil de ser lembrado para responder à pergunta original mais complexa.

Se for assim, poderemos ver multiplicações de 5, 10, até 20x num horizonte de cinco anos. Sempre parece exagero quando dito ex-ante. Eu sei disso, mas confesso ser a coisa que efetivamente está na minha cabeça neste momento. As outras são meras distrações diante dessa avassaladora força estrutural, absolutamente dominante e especial.

Lembro com clareza de trecho do Carta ao Pai, de Kafka: “Para mim, as aulas – e não só elas, mas tudo em volta, nessa idade decisiva – interessavam mais ou menos como interessam a um funcionário de banco que deu um desfalque, mas que ainda está no emprego e treme de medo de ser descoberto, as pequenas operações correntes do negócio bancário que ele ainda precisa realizar como funcionário. Tudo tão pequeno, tão distante em relação ao essencial.”

Aí, assumindo a validade da hipótese, pergunto: o que você acha que vai realmente se multiplicar nesse ambiente? Itaú? AmBev? B3? Hypermarcas?

Só se forem representar mais de 100 por cento do PIB brasileiro….

As firmas muito grandes podem – e confesso que devem – ficar ainda maiores, principalmente num País talhado para criar monopólios e afins. Está aí uma habilidade em que somos insuperáveis. Mas a verdadeira porrada estará nas small caps, tão castigadas no bear market 2010-2015, largadas por problemas de liquidez e pela destruição de fundos destinados a isso, além, claro das próprias mazelas idiossincráticas.

Não sou dos maiores fãs de Durkheim e da crença de que a sociedade sempre prevalece sobre o indivíduo. Aliás, ao contrário. Mas devo reconhecer o fato de sermos filhos do nosso tempo.

Hoje, há ainda uma grande resistência às small caps. Entendo e respeito o fato. Quem se dedicou a essa classe de ativos durante o último ciclo basicamente quebrou ou, ao menos, flertou com essa possibilidade. Isso deixa sequelas, algumas delas insuperáveis. Muitos se viram realmente obrigados a mudar seus mandatos, outros estiveram muito castigados psicologicamente pelo segmento e, mesmo sem perceber, passaram a ver com preconceito a categoria.

Fato é que, hoje, existem infelizmente poucos fundos verdadeiramente dedicados a isso. Algumas poucas casas têm conseguido fazer um bom mix entre large e small caps – talvez aqui mereça uma menção especial ao pessoal da HIX Capital, brilhantemente misturando essas duas coisas.

Mas não tem ninguém, ou quase ninguém, dedicado a isso exclusivamente, sendo que, se estivermos realmente num bull market, essa será a classe de ativos que oferecerá os melhores retornos nos próximos anos.

Em outras palavras, se isso for mesmo um bull market (e eu acho que é), a maior multiplicação tradicionalmente já viria das small caps. Para reforçar, elas podem estar especialmente atrativas agora, em que as distorções entre preço e valor se mostram muito grande, porque não há ninguém efetivamente focado em se apropriar disso.

Decorre daí um corolário óbvio: acho essencial que o investidor monte uma carteira diversificada de small caps neste momento, com foco num horizonte de três a cinco anos – nunca e, também, nunca compre small caps com janelas temporais menores do que essa. O Max tem excelentes alternativas para você dentro de seu Microcap Alert, algumas delas realmente quentes no momento.

E devo abandonar as large caps?

De forma bastante simples e direta: não.

Aqui apelo para a famigerada regra 80/20 (ela vale para um monte de coisa) para sugerir-lhe uma carteira de ações. Deixe 80 por cento (até 90 por cento) em blue chips de qualidade e o restante destine às pequenas.

A recomendação vale para quase todos os momentos, mas há um elemento técnico importante para a janela atual.

Em geral, os fundos Macro hoje basicamente não tem Bolsa – ou tem em percentuais pouco relevantes. Tentando ao máximo adotar uma linguagem distinta e civilizada, a verdade mesmo é que, com algumas exceções, de que talvez a SPX seja o maior expoente, não tem posição nem equipe focada em Bolsa.

Com efeito, aqui se impõem um grande desafio a essa indústria. Se eu estiver certo sobre a interpretação do ciclo – e obviamente reconheço que talvez seja uma premissa bastante restritiva, dado meu histórico de acúmulo de erros na vida -, essa turma vai precisar adentrar com maior peso na renda variável.

A probabilidade mais alta parece ser de que comece o fazendo via índice, e não com avaliações de questões microeconômicas, procurando cases muito abaixo do radar e com pontos idiossincráticos de difícil interpretação. Você começa a exploração de um terreno desconhecido tateando as coisas, iniciando pelas beiradas, buscando o que é mais simples e óbvio.

Qual a implicação prática imediata disso? Não parece muito razoável estar subrepresentado em ações com grande peso no índice, pois esse tende a ser um destino importante de fluxo de recursos de investidores institucionais hoje ainda underweight (pouco posicionados) em Bolsa. Há um risco grande de ficar para trás caso contrário, pois a probabilidade de vermos uma espécie de overfunding do índice me parece alta.

Entre a qualidade das blue chips e o charme das small caps, fique com as duas.

A tese do bull market estrutural encontra hoje um novo desafio, entre vários outros que certamente virão. Acostume-se. Começa assim e depois piora.

A tensão geopolítica internacional espraia aversão a risco pelo globo e dispara realização de lucros após uma sequência recente de ganhos bastante impressionante – foram nove recordes consecutivos para Wall Street; nada mais natural do que uma pausa para respirar. O motivo a gente sempre arruma, depois cria uma bela narrativa na cabeça capaz de explicar perfeitamente e em detalhes as causas para o movimento negativo.

Donald Trump prometeu fúria e fogo contra a Coreia do Norte. Vejo muito som, pouco fogo. Fala muito, diria o analista Tite. Até Valeska Popozuda promete tiro, porrada e bomba para aqueles que batem de frente. Não descarto evidentemente recrudescimento adicional das tensões – aliás, já venho aumentando o nível de seguros na Carteira Empiricus -, mas nutro certo desprezo pelos heróis e machões das redes sociais.

Mercados reagem negativamente à preocupação com possível guerra na Coreia do Norte, mas, principalmente quando olhado em perspectiva, o movimento é razoavelmente contido, por enquanto – sempre “por enquanto”; a gente escreve essas coisas e costuma ser traído 15 minutos depois.

Internamente, destaque para discussão infindável sobre meta fiscal, nova rodada de aumento de impostos e reforma da Previdência. De novo, muita conversa e pouco efeito prático, por enquanto. A little less conversation and more action, pediria Elvis.

Na agenda econômica estrita, IPCA apontou inflação um pouco acima do esperado, ao subir 0,24 por cento em julho, contra prognóstico de 0,19. Embora maior do que as projeções, não entendo que deva demover o Copom da ideia de um novo corte de um ponto percentual na taxa Selic (mais sobre isso abaixo, na nota da brilhante Marília, com foco nos desdobramentos para a Renda Fixa)

IPC-Fipe, por sua vez, marcou alta de 0,04 por cento em prévia mensal, um pouco abaixo do esperado. Fluxo cambial semanal completa as referências do dia.

Nos EUA, temos estoques de petróleo e estoques no atacado, além de produtividade da mão de obra. Inflação ao produtor na China veio marginalmente abaixo das projeções ao subir 1,4 por cento; preços ao produtor atenderam às expectativas ao marcar alta de 5,5 por cento.

Ibovespa Futuro cai 0,54 por cento, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam em dia de maior aversão a risco.

PS.: Se você quer conhecer mais sobre proteções e seguros, vale a pena entrar em contato com o Gamma Trader, que trata das estratégias mais simples e precisas no tema.

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