Maiô e tutu

É possível aplicar reserva de emergência em fundos multimercados? A volatilidade veio para ficar. Logo, estejamos preparados para ela.

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Maiô e tutu

Meus pais foram morar em Diamantina quando eu tinha um mês de vida. Se você já ouviu falar da cidade mineira, deve imaginar que cresci em meio ao Carnaval. Na tão aguardada terça-feira, minha mãe nos vestia de maiô e tutu – o da minha irmã rosa, o meu amarelo – e estava dada a largada para o dia da liberdade.

E assim a cidade em que havia mais igrejas do que padarias mergulhava em uma esbórnia sem fim. E eu assistia admirada ao meu pacato vizinho transformar-se em uma mulher da vida, como se dizia por aquelas bandas.

Menos de 24 horas depois, o tutu secava no varal enquanto nós sentávamos nos bancos da catedral, cantávamos “tende piedade” e lembrávamos que do pó viemos e ao pó voltaremos. A cada fevereiro, a história se repetia, como se não houvesse qualquer resquício em nossas mentes dos olhares constrangidos na fila por uma cruz de cinzas traçada na testa.

Dia desses eu me exasperei com a Elaine, membro ilustre da caravana mineira que trabalha na Empiricus, que, na onda dos confetes e serpentinas da Bolsa, só faltava vender as calcinhas para aumentar sua fatia no fundo de ações mais arrojado da minha lista de favoritos, aquele que eu repito sempre ser a pimenta do portfólio.

Vou manter o decoro que pede a quarta-feira de cinzas e evitar descrever aqui o efeito no dia seguinte de pimenta em excesso.

Quando a Elaine me pediu a sugestão de um fundo multimercados para investir a reserva de emergência, há duas semanas, eu disse que o guichê estava fechado até que ela ajustasse o portfólio – muito dinheiro em pouco risco, pouco dinheiro em muito risco, ensina o mestre Nassim Taleb.

Emendei que estava fazendo isso em interesse próprio: se ela ficasse pobre eu teria que acolhê-la em casa e odeio dividir a pipoca (nossa paixão em comum).

A Elaine tem me evitado nos corredores desde a semana passada. Está na ressaca da queda de 3,74% no Ibovespa em uma semana, a maior desde o bate-papo de Joesley e Temer, que obviamente machucou o fundo de ações arrojado em que ela investiu a alma.

O retorno do fundo nos últimos 12 meses segue lindo, 48%, assim como o do Ibovespa, 26%, contra míseros 9% do CDI. O problema é que boa parte do patrimônio da Elaine chegou à festa na véspera da quarta-feira de cinzas. E a ressaca ficou mais pesada do que o carnaval. Desconfio que ao próximo som de pandeiro – e ele vai voltar – minha conterrânea vai se esconder embaixo da mesa.

A Elaine não está só. Enquanto a vida corre em ciclos, nosso cérebro, dizem os teóricos das finanças comportamentais, acha que a festa nunca vai acabar, da mesma forma que, na hora ruim, acredita que a quarta de cinzas não terá fim.

Nada contra pular Carnaval. Pelo contrário. Tudo a favor de fazê-lo – fui eu que sugeri o fundo de ações arrojado para a Elaine, bom lembrar – desde que com proteção.

Estou falando de reserva de emergência em fundo DI barato, pouco dinheiro em produtos mais arrojados e sempre um pouquinho de dólar. Enquanto a Bolsa caía na semana passada, um fundo cambial andava no sentido contrário, com intensidade equivalente.

A volatilidade veio para ficar: foi o que mais ouvi de bons gestores de fundos com quem conversei em meio ao estresse recente. A festa segue com música alta e bebida à vontade – nem eu nem você vamos ficar de fora – mas as quartas-feiras serão mais comuns. Logo, estejamos preparados também para elas. Ninguém quer morrer antes do próximo Carnaval!

 

“Estava estudando a possibilidade de abrir uma conta no exterior, para além de ter a proteção de uma moeda forte, investir em outros mercados. No entanto me deparei com um fundo disponível na Rico, o Western Asset US Index 500 FIM, que segue o S&P500. Segundo a Rico, não há a necessidade de enviar dinheiro ao exterior para investir neste fundo. Não encontrei no site da Western como eles aplicam no S&P sem mandar o dinheiro para os EUA. Você poderia comentar sobre este fundo, que tem um ótimo histórico, em um dos relatórios ou em A Hora dos Fundos?” José Henrique T.

Seu desejo é uma ordem, José Henrique. De fato, o fundo da Western investe no principal índice de ações americano sem mandar dinheiro para fora do Brasil. Isso porque qualquer um pode comprar o S&P 500 na Bolsa brasileira, por meio de um contrato futuro.

É por fazer a operação localmente que este produto está imune à regra segundo a qual fundos que investem todo o patrimônio no exterior não podem ser oferecidos a clientes de varejo. E essa porta para fora tem atraído muitos para o produto, que já tem 1,3 bilhão de reais, de 13.795 investidores.

Além da facilidade de acesso, o retorno tem sido um chamariz – 169,3% desde maio de 2013, quando foi criado, muito acima do CDI e do Ibovespa. Preocupa-me apenas que você esteja ciente da estratégia que segue. E, pelo tom de vários e-mails que tenho recebido, muitos não estão.

Investir no fundo da Western envolve ter uma visão para a Bolsa americana: de que o índice vai continuar subindo. Bom dizer que essa tese não é trivial. O próprio Márcio Appel, renomado gestor da Adam Capital, posicionado no S&P 500 há anos, acaba de trocar a aposta por uma seleção de ações compradas e vendidas.

Problema algum você manter a tese para S&P 500 – Appel mesmo carregou-a por muito tempo contra boa parte do mercado e fez bastante dinheiro com ela – mas se estiver ciente de que é uma aposta e de que pode haver prejuízo no meio do caminho.

Ao contrário do que você pode ter pensado dado o comportamento do fundo até aqui e a possibilidade de ter o resgate efetivado em um dia, este é um produto para a parcela do seu patrimônio que pode correr risco e que não está focada no curto prazo.

Se você acompanha o noticiário de investimentos internacional, sabe que a volatilidade global anda bem baixa e que muitos questionam a viabilidade de ela seguir assim por muito tempo. O estresse da semana passada foi um sinal disso.

Se ainda assim você segue convicto sobre o fundo, outro ponto a avaliar é seu preço. Como informa a própria lâmina, o produto aplica em títulos públicos atrelados à Selic e compra futuros do índice S&P 500 negociados na Bolsa local.

Você pode comparar os custos com aqueles envolvidos em operar a estratégia sozinho. Se aplicar 25 mil reais – o mínimo pedido para o fundo – você vai pagar em taxa de administração algo perto de 250 reais ao ano (dada a taxa de 1% e supondo patrimônio constante). Verifique junto à sua corretora o custo de investir no futuro do S&P 500.

Talvez seja mais complexo e custoso para você fazer o hedge para a moeda: o fundo da Western Asset troca a valorização do dólar pela do CDI. É uma prática comum dentre gestores globais que oferecem produtos no Brasil, a fim de reduzir a volatilidade do produto.

Eu, entretanto, até prefiro manter a exposição cambial para proteger o portfólio como um todo – quando é quarta-feira de cinzas nos outros ativos, com frequência é Carnaval no dólar.

Seja qual for a sua escolha, José Henrique, o que importa para mim é que você esteja bem informado sobre ela.

 

TUDO VOLTA
À propósito, se você vai participar do pós-Carnaval, a combinação maiô e tutu voltou à moda. O que vi de menina adulta vestida assim pelas ruas da cidade não foi brincadeira – ou pelo menos o que julguei ser adulta, pela garrafa de vodka na mão.