A geração condomínio não tem a menor chance em Bolsa

Eu sinceramente não acho que possa dar conselhos a ninguém. Quando penso na grade dos professores e nas referências intelectuais que, por muita sorte, pude ter ao longo da vida, me sinto totalmente incapaz.

A geração condomínio não tem a menor chance em Bolsa

Não se amarra mais cachorro com linguiça. Portanto, deve-se ter muito cuidado com o que se diz. Quando as pessoas são contratadas aqui na Empiricus, elas chegam cheias de opiniões. Sabem tudo de cada ticker, opinam sobre o value investing como doutores. Aos poucos, vai lhes sendo imposta uma cultura da desconstrução, em que sabemos que não sabemos de muita coisa e há ainda as coisas que sequer não sabemos que não sabemos – aliás, as piores.

Difícil encontrar o que falar de útil sabendo das próprias limitações. Sei de quantas vezes já errei no passado e o quanto ainda vou errar no futuro. Hoje mesmo, é capaz que cometa um bocado de equívocos.

Mas aqui estou eu nesta posição, redigindo pobremente este texto, como faço todas as manhãs. É o que eu faço da vida, com amor e muita dedicação. Então, se eu tivesse de dar um único conselho ao investidor, ao analista ou ao jornalista que cobre finanças seria: jogue bola na rua, descalço, preferencialmente sem camisa. Sim, as mulheres também, claro. Os homossexuais, travestis, transexuais, pansexuais, extraterrestres. Todos eles deveriam jogar futebol na rua.

Aquilo forma caráter. Perdem-se a tampa do dedão do pé, as camadas mais superficiais da epiderme e também a arrogância. Ganham-se lições muito valiosas. A primeira delas é a perder e apanhar com hombridade, que vale para homens e mulheres. O esporte, principalmente quando autorregulado (uma das recomendações é de que não tenha juiz; os próprios jogadores se acertam), mostra como lidar com fracassos, frustrações e pluralidade.

Ali, há o zagueiro que sabe de sua necessidade de continuar apenas na marcação, porque é péssimo para driblar e chutar de trivela. E existe o atacante, incapaz de marcar – o Kaká toma cartão amarelo em todas as vezes que tenta ajudar a defesa, é impressionante. Aquilo é uma lição de diversificação.

Ali, você vai perceber que, se os dois laterais sobem ao menos tempo, a possibilidade de contra-ataque fulminante é enorme. Precisa haver um equilíbrio no portfólio. Não há como subir todo mundo ao mesmo tempo. A alavancagem de atacantes pode até aumentar suas chances de marcar um gol, mas multiplica a probabilidade de uma bola nas costas – eu estou fora.

Aprende-se a competir com lealdade. Perde-se e ganha-se, estoicamente.

Se teve um prejuízo, não culpe ninguém pelos próprios fracassos. Reconheça, o mais rápido possível, seu erro, ajuste a rota e parta para outra. “Bolsa tem todo dia”, dizia o velho Ramiro, que já teve de ir muitas vezes de chinelo na mão buscar o filho futebolista atrasado na rua de baixo.

Se teve um lucro, lembre-se de que amanhã há um novo campeonato e, desta vez, aquela bola na trave do outro time pode, em vez de ir para fora, desviar-se para dentro. Ou seu goleiro pode não repetir os mesmos milagres.

O mercado financeiro é uma lição de humildade, que, infelizmente, aqueles que estão momentaneamente bem sucedidos se esquecem. “Vamos de pano de chão para toalha felpuda num piscar de olhos”, definiu brilhantemente o Zeca, da Tarpon.

Há pessoas no prédio em que eu trabalho com a certeza individual de que, se essa janela aqui atrás de mim se abrir, poderão sair voando, sem risco algum. A arrogância dos investidores é marcada a mercado. Nesse ponto, sinto muito por projetar um bull market à frente em Bolsa. Ganho clientes mais felizes, perco a capacidade de tolerância em jantares de pares profissionais.

Se você não gosta de futebol, tudo bem, pode ser qualquer outra coisa. É só uma metáfora, mais simples para o imaginário brasileiro. Basquete, vôlei, participar de cavalgada, jogar taco (alguns chamam de bets) valem também.

O esporte coletivo vai lhe mostrar que você não é um super-herói. Num ambiente competitivo real, longe dos escritórios com tapete de tigre branco, dos palacetes acarpetados e das salas com ar condicionado, não se tem opinião. Ninguém faz um modelo de como deve chutar a bola. Sujeito vai e chuta, com precisão.

Sua opinião sobre um determinado investimento só pode valer se você está exposto àquilo. Se acha que uma ação vai subir, vai lá e compra. Se acha que vai cair, abra o short. Se não, é muito nutella.

A inteligência está na rua. Ela não emana do condomínio.

Quem está na rua está produzindo. Há cerca de uma semana, fiz prognóstico positivo sobre a temporada de resultados que se iniciava. Com efeito, ao menos até aqui (e essa é sempre uma ressalva importante), os números têm sido muito bons no geral. Hoje tivemos surpresas positivas com Fleury, Estácio, Ecorodovias e Embraer. Reitero a afirmação recente: pessoal vai se surpreender com a alavancagem operacional à frente, bem como com o impulso aos lucros dado pela melhora do resu financeiro. Margens estão muito baixas e sair de 2 para 4 por cento implica dobrar o lucro. P/L de 16x por virar 8x rapidinho.

Sim, ainda há gordura no juro, principalmente se confirmarem-se prognósticos mais otimistas de Selic a 7 por cento ainda neste ano. Quem sabe até menos… O próximo trade óbvio, porém, será a Bolsa. Brasil pode ficar overfunded e os valuations iriam para níveis que ninguém pode conceber a priori.

Para essa temporada de resultados em particular, aposto minhas ficas principalmente em Magazine Luiza e Rumo – a primeira por um tri realmente impressionante, a segunda pela virada no resultado, que na verdade deve marcar apenas o início de uma sequência de ao menos três trimestres bem fortes; se juro vier mesmo a 7 por cento, Rumo pode dobrar ainda (claro que quando eu falei isso a 5 reais fui taxado de louco, com a bancada da chupeta indo na Apimec passar de defensores do comedimento e do politicamente correto – como a realidade insiste em ser incorreta, a alta desde então não foi nada comedida; é curioso como a imprensa brasileira comemora tentativas de cerceamento da liberdade de expressão).

Essas são as minhas apostas. Sergio Oba também tem as dele no Serious Trader – nesta semana, ele voltou muito animado de uma reunião, enviando email para mim com título “Screaming Buy”; vale a pena conferir.

Além do ritmo intenso da temporada de resultados corporativos, sexta-feira reserva deflação de 0,72 por cento medida por prévia do IGP-M, em mais um reforço em prol de juros cada vez mais baixos. Dados fiscais apontam déficit consolidado do setor público, enquanto PNAD apurou desemprego de 13 por cento.

Lá fora, PIB dos EUA chama atenção, além de confiança do consumidor norte-americano e relatório Baker Hughes sobre setor petróleo. Dia é negativo no exterior, com mineradoras sentindo recuo de commodities e techs sofrendo após resultado percebido como ruim da Amazon.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,4 por cento, dólar cede ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

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