Adeus, Max!

Depois de anos de insistência e discursos sobre a responsabilidade envolvida em cuidar de um ser vivo, minha mãe gritou: “Tá bom, faça o que […]

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Adeus, Max!

Depois de anos de insistência e discursos sobre a responsabilidade envolvida em cuidar de um ser vivo, minha mãe gritou: “Tá bom, faça o que você quiser!”. E meu irmão entendeu: “Claro, meu filho querido, pode comprar o cachorro”.

Rapidamente, ele passou o chapéu e levou a minha mesada e a da minha irmã. Em poucos dias, aterrissava lá em casa uma desajeitada bola de pelo, cabeça arrastando o corpo, olhos pedintes: Max (não foi uma homenagem; infelizmente ainda não conhecíamos o Bohm).

Era 4 de junho de 2004. Não demorou para a ficha cair: tínhamos aberto as portas para o diabo-da-tasmânia, o terror dos brinquedos do pet shop e dos pássaros que ousavam pousar na varanda – todos aniquilados em menos de cinco minutos.

“Olha, mãe, uma vaca” – foi o comentário mais sensato que ouvimos enquanto ele e seus músculos nos levavam para passear. “Não, não é um pit bull, é um bull terrier”, nos acostumamos a responder. “Sim, pode passar a mão.”

Em poucas horas, a bola de pelo encheu nossa vida de volatilidade. E assim foi até a última segunda-feira, quando Max partiu para o céu dos cachorros. Como se 14 anos fossem suficientes para alguma coisa.

Não vou negar que tive meus dias de estranhamento com aquele serzinho caótico – que me fez cair em lágrimas sobre o teclado quando recebi a notícia por WhatsApp (e agora de novo).

Na minha mente louca e melancólica, o Max e a vida de investidor se misturaram (eu precisava trabalhar). Fiquei pensando em como, no fim das contas, temos uma relação dúbia com a volatilidade. Ela amedronta, porém, é indiscutivelmente atraente. E é bem difícil viver sem ela depois que a conhecemos.

Meus devaneios foram parar no primeiro contato com um fundo de ações, o Bogari. Tinha conhecido a história de Flavio Sznajder, que montou uma empresa no Rio focada em selecionar ações para um único fundo: 10 a 20 empresas selecionadas a dedo e acompanhadas com lupa. Tão simples e tão incrível quanto isso (infelizmente fechado para aplicações).

Acessei com mil reais. Que encolheram, aumentaram, encolheram, aumentaram… E assim me apaixonei por observar, sofrer, comemorar… E só muitos meses depois por ganhar dinheiro com a Bolsa.

Foi só o começo da minha coleção de fundos de ações.

Para você que nunca colocou o pé lá, preparei um manual de primeira viagem abaixo, em uma ode à volatilidade que o Max me ensinou a admirar:

1. O primeiro passo é abrir uma conta em uma corretora. Não tem mistério: é como fazer um cadastro na Amazon para comprar um livro. Não paga nada nem precisa enviar cópias de documentos – é tudo digital. Se a corretora que você escolher não for, troque.

2. Investir diretamente em ações é muito legal (o Max pode te ajudar ) e evita os custos do fundo (2% de taxa de administração mais 20% sobre o que exceder o Ibovespa, de forma geral). Mas, se você não está seguro, um fundo é um ótimo primeiro passo. Você põe o dinheiro lá e o gestor decide por você a hora de entrar e de sair das ações. Você vai sentindo o sobe e desce, lendo as cartas da equipe, aprendendo com os erros e acertos deles. O próximo passo pode ser comprar uma ação sozinho ou sozinha – comece por uma mais óbvia, tipo Itaú.

3. Se decidir pelo fundo, não escolha pelo retorno. Provavelmente o fundo mais rentável da lista é o que corre mais risco. Pode ser que se empolgue demais na alavancagem e te dê uma primeira experiência ruim. Encontre um gestor que se preocupa com a qualidade da gestão da companhia. Há ótimas opções. Dois que me vêm à mente de bate-pronto: IP e Brasil Capital.

4. Falta de dinheiro e aversão a risco não são boas desculpas. Você encontra boas opções de fundos de ações para investir mil reais. E, com menos do que isso, você compra sua primeira ação. Dá para colocar uma parcela pequena do seu patrimônio.

5. Fique atento à carência dos fundos. Em geral, ela é de 30 a 60 dias, o que significa que, depois do pedido de saque, o dinheiro demora esse tempo para cair na sua conta. O tempo é importante para o gestor vender as ações sem prejudicar os preços. Carências muito curtas são um sinal amarelo: pode ser difícil vender uma carteira, mesmo que muito líquida, em meio a uma crise.

6. Não se apegue à carência para definir seu horizonte: invista em ações o dinheiro que pode ficar parado por pelo menos três anos. De preferência, cinco. Se precisar sacar logo em seguida ao investimento, pode ser que você pegue um momento ruim de Bolsa e tenha prejuízo.

7. Saiba se está comprando um fundo passivo ou ativo. Se ele é passivo – replica a carteira do Ibovespa ou de outro índice –, deve ser barato, com taxa menor do que 1% ao ano. Se ele for ativo, ou seja, o gestor escolhe as ações em que investir, aí o preço de 2% ao ano mais 20% de performance é mais aceitável.

Seu fundo

“Olá, o que vocês acham do fundo Moat Capital FIA? Obrigado.” – Mauricio D.

Ainda fora do radar da maior parte dos investidores de varejo, a gestora dedicada às ações Moat Capital já caiu nas graças de investidores de alto patrimônio, atraídos pela natureza “agnóstica” da gestão.

Explico: enquanto a maior parte dos gestores de ações ativos não acompanhou a alta do Ibovespa de dois anos para cá, a Moat superou-a. E fez isso por manter no radar empresas para as quais muitos gestores torcem o nariz, como Petrobras e Banco do Brasil, pelo risco político; como JBS e CCR, pelo prejuízo à reputação pelas investigações da Lava Jato; e até mesmo Gol – o setor de aviação é palavrão para muito investidor profissional.

“Nosso filtro qualitativo vem no preço”, disse para mim o Luiz Paulo Aranha, sócio-gestor do fundo. Ou seja, dá até para comprar ação de baixa qualidade, mas desde que esteja muito barata. “Se você faz um filtro qualitativo muito pesado na Bolsa, sobram cinco empresas”, completou ele.

Para ganhar dinheiro assim, a gestora avalia a assimetria. A pergunta é: se estivermos certos, quanto ganhamos? E, se estivermos errados, quanto perdemos? Se a primeira resposta for “muito” e a segunda, “pouco”, então a resposta é que vale o risco.

Para Luiz, o peso negativo do risco eleitoral sobre os preços está exagerado. “Tem que vir um resultado muito ruim para que o ciclo econômico mude por causa da política”, diz. Ele aponta que a economia está bem abaixo de seu potencial e que as empresas estão melhores, com custos reduzidos e participação de mercado maior (dada a redução da concorrência nos últimos anos).

A gestora também não se sente obrigada a se casar com o papel: vende e compra uma ação de acordo com o sobe e desce dos preços e o momento da empresa, como já fez muitas vezes com Magazine Luiza. O portfólio, entretanto, também tem cadeira cativa, como a do Banco do Brasil, lá há dois anos.

Diversificação setorial é uma preocupação importante. Se uma ação atrai a atenção da equipe, antes de comprá-la o gestor avalia se ela não faz parte de um segmento da economia já presente demais no portfólio.

Além do Luiz, que geriu no passado o fundo de ações da Capitânia, dividem a sociedade outros três gestores seniores: Cassio Bruno, ex-Canvas; Marcelo Romeiro, ex-Rio Bravo; e Subhojit Daripa, com passagem, entre outros, por Credit Suisse, Santander e Morgan Stanley.

O retorno do fundo nos últimos dois anos de fato surpreende: 70% contra 39% do Ibovespa em 2016; 46% contra 27% no ano passado. E, também em 2018, a gestora está bem à frente do índice: 5,63% contra -0,1% do Ibovespa.

Quatro anos de vida parece ser pouco tempo para contar uma história, mas é bom manter no radar: no mínimo, a Moat acrescenta um ingrediente diferente no portfólio.

Quer saber quais são os fundos de ações que já foram aprovados em nossas avaliações qualitativas e quantitativas? Então siga por aqui .

Abra a porta

Max, leve muita volatilidade ao céu dos cachorros.