O ETF de renda fixa chegou! E agora, José?

Era maio de 2016 quando noticiei, ainda como repórter de jornal, que o mercado já tinha começado a se movimentar e os ETFs de renda […]

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O ETF de renda fixa chegou! E agora, José?

Era maio de 2016 quando noticiei, ainda como repórter de jornal, que o mercado já tinha começado a se movimentar e os ETFs de renda fixa em breve estariam nos portfólios dos brasileiros.

Naquela ocasião, ainda registrei um protesto pela demora do mercado: fazia mais de três anos que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tinha regulamentado o produto.

Errei feio. Desde então, acompanhei frustrada a burocracia se alongar ainda mais, especialmente em debates tributários: precisei esperar mais de dois anos para ver um ETF de renda fixa de carne e osso começar a ser negociado no Brasil.

Agora é oficial: o primeiro ETF dessa categoria, da Mirae Asset, começou a ser negociado na Bolsa na última segunda-feira. E o Itaú já ganhou uma licitação do Tesouro Nacional para lançar outro, previsto para 2019.

Ao contrário de minha confortável vida pregressa, de jornalista em cima do muro, agora me sinto na obrigação de contar a você se este parece ou não ser um instrumento interessante para compor seu portfólio. Tenho observado os lançamentos de perto e conversado com muita gente. E a resposta que tenho para você até agora é: não estou muito certa disso.

Já vou dividir os prós e contras do produto para a pessoa física com você. Antes disso, deixe-me garantir que estamos na mesma página. O que é um ETF (Exchange Traded Fund, na sigla em inglês)? Um fundo listado em Bolsa. Ou seja, você investe nele como se estivesse comprando uma ação, via home broker.

Além disso, o ETF tem uma regra clara de investimento, ao replicar um índice. No mercado brasileiro, já existem os produtos de renda variável, como os que investem em todas as ações do Ibovespa, de acordo com os pesos no índice.

No caso dos ETFs de renda fixa, o que eles vão replicar? O do Itaú, o IMA-B – um índice criado pela Anbima, associação que representa o mercado, que replica o comportamento de uma cesta com diferentes vencimentos de NTN-Bs (Tesouro IPCA+), títulos que pagam uma taxa prefixada mais a variação da inflação.

Já o da Mirae vai replicar um novo índice, o S&P/B3. Ele mede o desempenho de contratos futuros DI de três anos. Investir nele é similar a se expor hoje à variação de títulos prefixados com vencimento por volta de 2021.

Logo, ao decidir sobre investir ou não em um ETF de renda fixa, você precisa comparar as condições com as aplicações em fundos de renda fixa ou nos títulos públicos via Tesouro Direto.

O principal ponto a favor do ETF é, sem dúvida, a tributação. O imposto não depende do tempo que você fica investido, como nos demais produtos de renda fixa, e sim do vencimento médio dos títulos em carteira.

Os dois ETFs já criados foram desenhados para que a alíquota seja sempre a mínima, de 15 por cento. Essa certeza é possível pelo prazo médio dos índices que eles replicam, de três anos no caso do S&P/B3 e por volta de sete anos para o IMA-B.

Desta forma, ainda que você fique poucos dias investido em um desses ETFs, vai pagar somente 15 por cento de imposto – em qualquer outro produto de renda fixa, seria preciso ficar investido por pelo menos dois anos para chegar a essa mamata. Nos primeiros seis meses, a alíquota seria bem maior: de 22,5 por cento.

Assim como nos fundos de investimento e no Tesouro Direto, a tributação é feita de forma automática, ou seja, retida diretamente na fonte.

Além disso, o ETF não sofre nem IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), como os demais produtos de renda fixa, nem come-cotas (aquela antecipação de imposto semestral), como os fundos.

E vai ser possível acessá-lo com somente 10 reais.

Parece lindo, não?

A soberania dos ETFs seria clara não fosse uma característica: a taxa de administração.

Em termos de custos, os dois produtos apresentados até aqui praticamente empataram com fundos passivos acessíveis em plataformas de varejo e também com o Tesouro Direto. O ETF do Itaú tem taxa de 0,25 por cento ao ano. E o da Mirae, 0,3 por cento. E ainda vai ser preciso pagar os custos da operação na corretora.

Bom lembrar que investir no Tesouro Direto por meio de uma corretora sem taxa (benesse que agora você consegue até mesmo no Itaú) vai te custar 0,3 por cento ao ano. E, se você procurar bem, encontra fundo de renda fixa indexado à inflação com taxa de 0,2 por cento – no BTG Pactual Digital, por exemplo.

Confesso minha decepção. Como cabe ao gestor apenas replicar um índice, era razoável esperar um custo inferior. No meu sonho dourado, eu esperava algo ao bom estilo Vanguard – ou pelo menos perto disso. Os ETFs da gestora global, referência em baixo custo, cobram em média 0,08 por cento ao ano.

Qual é o saldo entre prós e contras? Eu e o Luiz Rogé, nosso especialista em renda fixa, estamos preparando uma análise mais completa para a próxima terça-feira, que você poderá acessar aqui e aqui.

Cota cheia

Um destaque positivo para a Mirae Asset, que puxou a fila dos ETFs de renda fixa brasileiros depois de dois anos de trabalho duro.

A coreana, pouco conhecida por aqui, gere 315 fundos de índice em todo o mundo, sendo assim a 17ª maior gestora global de ETFs, com 31 bilhões de dólares.

Cota murcha

Uma das grandes vantagens do ETF de renda fixa será a possibilidade de ficar vendido nele, ou seja, apostando na queda, assim como já é possível para ações.

Isso permitiria às pessoas físicas ganhar não somente nos ciclos de cortes de juros – como o que ocorreu nos últimos anos – como também nos de alta. Historicamente, o investidor brasileiro (até mesmo o institucional) ganha bastante dinheiro no primeiro tipo e perde no segundo. Aconteceu, por exemplo, na virada de 2012 para 2013.

Nesse quesito, entretanto, esse mercado nasceu capenga no Brasil. Por indefinições tributárias sobre a operação, ainda não é possível se posicionar vendido no ETF de renda fixa. Tal fato reduz o potencial do produto e também a liquidez do mercado. Pelo menos por enquanto.

E, para fechar o Cota Murcha, por meio das regras tributárias, o Tesouro buscou promover o alongamento da dívida e desestimular os ETFs pós-fixados, de forma que o instrumento dificilmente será um concorrente de peso para os fundos DI. Não vem daí, portanto, uma solução para o fato de boa parte do dinheiro dos brasileiros – em especial a reserva de emergência – repousar em produtos de taxas elevadas.

Empiricus está preparada para ajudar você a aproveitar as melhores oportunidades desse novo mercado. Continue acompanhando nossas avaliações sobre os ETFs de renda fixa aqui e aqui.