Por mais pinheiros de plástico

A culpa franciscana me impediu de tomar um avião no último fim de semana de 2018. O Getúlio ainda nos espiava cabisbaixo, o rabo balançando […]

Por mais pinheiros de plástico

A culpa franciscana me impediu de tomar um avião no último fim de semana de 2018. O Getúlio ainda nos espiava cabisbaixo, o rabo balançando em câmera lenta: o Natal no hotelzinho lhe rendera uma infecção intestinal e uma mordida no focinho. Em busca de uma pousada próxima ainda vaga que aceitasse cachorros, acabamos nas montanhas de Santo Antônio do Pinhal. Nós e os recém-casados.

O Instagram exibia mar, biquínis, lagosta e camarão; nossos olhos viam araucárias, casacos, fondue de queijo, carne e chocolate.

Eu tentava jogar o jogo do contente – minha mãe desistiu, graças ao bom Deus, de dar a mim o nome de Pollyanna, mas até que eu sei brincar disso. O humor durou até acordarmos com uma rachadura digna de “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” no para-brisa do carro.

Ainda não sei o que foi – acho que fui uma boa menina em 2018 –, mas preferi culpar as enormes pinhas pontudas espalhadas pela última tempestade.

Teria catado algumas delas não fosse o transtorno do momento (minha mãe sempre nos apavorou dizendo que vidro de carro quebrado vira em pouco tempo um mosaico de milhares de cacos, mas, segundo o Yahoo Respostas e agora também minha experiência prática, isso só vale para carros antigos e filmes de terror).

Olhei para as pinhas e me lembrei daquelas adquiridas no shopping por 19,90 reais a unidade para a decoração natalina. Parece papo de movimento antropofágico e grêmio estudantil, mas você não acha no mínimo engraçado como nossas festas – especialmente as cristãs – são descoladas de nossa realidade tupiniquim?

Pinhas e pinheiros de plástico, Papai-Noel escorrendo suor sob a barba branca e o pijamão vermelho… Na virada do ano, comemos frutas vermelhas azedas e arroz com lentilhas, costume italiano (por que não pizza?).

Os moradores de países desenvolvidos, e também os de Campos do Jordão e arredores (logo eles), não precisam gastar dinheiro com pinheiro, neve artificial – já viu o preço de 100 gramas de cereja? – nem guardar aquele entulho o ano inteiro.

Para não falar da Páscoa, minha favorita: a tradição cristã determina que sexta-feira da Paixão é dia de reclusão e jejum, por isso evitar a carne – aí reunimos a família para uma bela bacalhoada.

Todo o preâmbulo acima se deu para dizer que eu estou ao seu lado quando você se recusa a importar ensinamentos de investidores que vêm de fora sem qualquer espírito crítico.

Mas o fato é que, ainda que os pinheiros sigam exóticos para boa parte dos brasileiros, parece que ao menos momentaneamente estamos nos aproximando dos países desenvolvidos no que se refere a investimentos.

Aliás, estamos nos aproximando da lógica: da mesma forma que somos castigados agora pelas rabanadas que comemos no Natal e recompensados pelas ameixas azedas, deveríamos ganhar mais dinheiro onde corremos mais riscos, certo?

E como é lá fora? Se a sua avó fosse uma investidora americana em 1926, quanto ela teria acumulado em ganhos desde então?

Um estudo clássico do Ibbotson, atualizado até 2017, mostra que 1 dólar se transformou em 143 dólares se investido em títulos do governo e em 7.353 dólares se aplicado nas ações mais líquidas da Bolsa. Apenas atualizada pela inflação, a mesma nota se transformaria em 14 dólares. Ou seja: valeu a pena investir, principalmente em ações.

Já vi o mesmo estudo para vários outros intervalos e o resultado é parecido: a renda variável americana entregou mais retorno no longo prazo do que a renda fixa.

Isso ajuda a entender porque David Swensen, o alocador do fundo de Yale, diz que um dos três principais fatores de sucesso de um investidor de longo prazo é o viés para Bolsa (os outros dois são diversificação e preocupação com impostos).

Na terra da jabuticaba, entretanto, isso nem sempre foi verdade. Se tomarmos o mesmo período, de 20 anos, a Bolsa brasileira transformou 1 real em 7,49 reais, enquanto, no CDI, o mesmo valor virou 16,10 (com uma seleção de ações, e não uma cesta, alguns fundos bateram o CDI, mas isso é história para outro dia).

Repousar no berço esplêndido do CDI tornou-se assim a decisão mais óbvia, esfregada na cara dos investidores de renda variável – que, segundo o Pedro Cerize, aplicam em Bolsa não para ganhar dinheiro, mas para ter uma boa história para contar na festa de aniversário dos amigos.

Se você já é investidor de Bolsa, parabéns. Chegou a hora, enfim, de você se vingar daquele amigo que sempre exibiu nada suados retornos em renda fixa. Só copie e mande um WhatsApp para ele agora:

Valeu a pena correr risco em 2018, como já tinha valido nos últimos anos. De 2016 para cá, o Ibovespa entregou 103 por cento, dobrando o patrimônio de quem se expôs à Bolsa, contra 33 por cento do CDI.

Aproveite, porque, sobre o longo prazo, nada sabemos, ainda que a expectativa seja de que você permaneça na vantagem: não há qualquer sinal no horizonte de que o CDI vá render ganhos mais fartos.

Se você ainda investe somente em renda fixa, é hora de equilibrar seu portfólio. É tempo de também investir como na terra de Santa Claus.

COTA CHEIA

Uma parte dos investidores já percebeu que o país da renda fixa já não é mais o mesmo: um total de 49 bilhões de reais deixou os fundos de renda fixa brasileiros ao longo de 2018.

Enquanto isso, a captação em carteiras de ações e multimercados superou os resgates em 66 bilhões de reais.

A parcela em fundos de Bolsa, entretanto, ainda é pequena: apenas 7 por cento dos 4 trilhões de reais investidos por meio de fundos no Brasil, segundo dados da Anbima.

COTA MURCHA

A regulação avançou em 2018, permitindo aos fundos de previdência diversificar mais o risco. Surgiram novos produtos, mais sofisticados e com maior potencial de retorno, mas o quadro mudou pouco até o momento: 92 por cento do valor investido em previdência privada no Brasil está em renda fixa. Swensen teria um colapso diante desse dado.

As aplicações nos VGBLs e PGBLs superaram os resgates em 23 bilhões de reais no ano, mas 10 bilhões deles entraram em produtos de renda fixa.

Se seu dinheiro dorme em um produto como esse, fica meu apelo para você revolucionar sua aposentadoria em 2019: você precisa conhecer a SuperPrevidência .

Imersão

Em apenas um dia de 2019, você pode ganhar tanto quanto (ou até mais do que) em 2018 inteiro. Junte-se a mim e ao Felipe Miranda aqui.