Quando começou a nossa aposta mesmo?

No princípio, era só o Daniel. O álbum começa com minha mãe ainda grávida posando no jardim, depois vem o hospital, o primeiro sorriso, o […]

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Quando começou a nossa aposta mesmo?

No princípio, era só o Daniel. O álbum começa com minha mãe ainda grávida posando no jardim, depois vem o hospital, o primeiro sorriso, o chumaço de cabelo colado com durex, longos textos sobre a primeira fruta, a primeira palavra, o primeiro tombo…

Aí veio a Renata. A foto da barriga é ausente, mas há o clique da maternidade. Os textos dão lugar a frases, só o suficiente: Casa da vovó, dez/1984. Estão lá os primeiros passos, a primeira vez esquecida em casa…

Aí chega a minha vez. O álbum está lá, claro, ao lado dos outros. Mas pegue com cuidado, pras fotos não caírem: elas estão lá há 33 anos à espera de serem coladas. A data está escrita atrás, ufa, um dia a gente organiza!

Minha mãe fica muito chateada quando eu conto essa história – eu sei, mãe, que falta de tempo não é sinônimo de falta de amor – mas foi o que me veio à cabeça ao computar em que ponto estamos da minha aposta com o Felipe.

A mensagem é: sim, o começo importa! Ou, ao contrário do que a professora de matemática disse, na vida real a ordem dos fatores altera, sim, o produto.

Se você é novo por essas bandas, fique tranquilo, aqui o caçula também tem vez: em 1º de março deste ano, o Felipe e eu fizemos a versão tupiniquim da aposta do megainvestidor Warren Buffett. Não que a gente se ache digno de um paralelo, longe disso, mas precisamos dar vazão à competitividade.

Eu, defensora da gestão ativa em Bolsa, escolhi dez fundos de excelentes gestores de ações. O Felipe, que acredita em mercados eficientes e na incapacidade de um investidor profissional batê-los (sendo que ele mesmo supera o Ibovespa há anos, mas beleza) ficou com o ETF de Ibovespa, fundo que replica o índice.

A aposta vale para os próximos dez anos – antes que você também me pergunte, eu não sei exatamente o que a gente apostou. Aceito sugestões.

De tempos em tempos, dou uma olhada no resultado da aposta. Foi o que eu fiz hoje, um pouco desanimada, já que, em anos fortes para o Ibovespa, os gestores ativos costumam ficar para trás: o pessoal da Faria Lima e do Leblon tem seus preconceitos com ações ligadas a commodities e estatais, de grande peso no índice, pela dificuldade de prever movimentos no exterior, no dólar ou no próprio governo.

Pois o fato é que desde 1º de março, quando firmamos a aposta, até 30 de novembro, meu portfólio está à frente. Ele ganha 5,43 por cento contra 4,69 por cento do BOVA11, o ETF de Ibovespa.

Para os auditores de plantão, já listo as gestoras para facilitar: Atmos, Alaska, Bogari, Brasil Capital, Dynamo, HIX, M Square (agora Velt), Nucleo, Perfin e SPX.

Na disputa, eles têm peso igual, de 10 por cento cada, contra o Ibovespa. E o fundo usado é o mais comprado em Bolsa. Exemplo: no caso da Alaska, usamos o Institucional, que não alavanca em juros e câmbio.

Agora serei justa: eu tenho uma vaga lembrança de ter combinado com o Felipe que a aposta era retroativa a janeiro, pegando anos inteiros, pra fechar uma década em dezembro de 2028. Perguntei, entretanto, se o começo era janeiro ou março e ele foi bastante generoso: “você escolhe”.

Como eu não gosto de perder, fico com 1º de março.

Para aplacar sua curiosidade, o que aconteceria se a aposta começasse em 1º de janeiro? Eu perderia feio. Meu portfólio de fundos de ações, 10,75 por cento; fundo indexado ao Ibovespa do Felipe, 17 por cento.

O prazo é muito curto para provar qualquer tese (e mesmo ao fim da década, quando eu ganhar, não saberemos se será a vitória da gestão ativa ou se eu sou sortuda mesmo). Ou seja, muita água ainda vai passar pelo rio Pinheiros até o fim dessa aposta, mas aproveito essa situação pra destacar algo que me preocupa: o peso da estreia sobre o investidor de ações.

Em geral, quando incentivo alguém a colocar o primeiro pé na Bolsa, rezo para que a primeira experiência seja de leve alta. Por quê?

O estreante que perde dinheiro em Bolsa é a pessoa mais deprimida e traumatizada da vizinhança. Quer logo resgatar tudo. O que ganha muito, é exageradamente animado: te ama profundamente, quer colocar todo o patrimônio em ações e ainda o do avô de 98 anos.

Sempre defendo um investimento em Bolsa para um horizonte de três a cinco anos. Os primeiros meses pouco importam. Seja para cima, seja para baixo, evite que o começo te abale tanto. Essa é minha mensagem de hoje: não se deixe levar pela emoção do estreante.

Dito isso, a aposta começou em março, Felipe. E eu tô ganhando!

Cota Cheia

Os juros mais baixos já fazem seus efeitos. O ano se aproxima do fim e os dados da Anbima sinalizam que o investidor do país da renda fixa ao menos começa a acordar.

A captação líquida acumulada – aportes menos resgates – nos fundos de ações é de 24 bilhões de reais no ano até aqui. Ao mesmo tempo, saíram 11 bilhões de reais de fundos de renda fixa.

Atualmente, exatos 50 por cento do total investido em fundos está em renda fixa – ainda é muito, mas, mantida a tendência, em breve ela será minoria.

Cota Murcha

Fiquei muito impressionada com os números de previdência apresentados no evento da Icatu. Esse, sem dúvida, ainda é o mercado em que o investidor mais é vítima de produtos ruins.

Veja lá: os cinco maiores fundos de previdência da indústria brasileira somam 208 bilhões de reais de patrimônio. Eles representam assim 29 por cento da categoria inteira. Nenhum deles rende mais do que o CDI nos últimos três anos.

É aí que você vai deixar sua previdência? Espero que não.