Que tipo de onda você quer?

“Algo mais introspectivo ou colorido? Que tipo de onda você quer?”, avistei a pequena ruiva atrás do balcão perguntar ao gringo assim que entrei. Para […]

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Que tipo de onda você quer?

“Algo mais introspectivo ou colorido? Que tipo de onda você quer?”, avistei a pequena ruiva atrás do balcão perguntar ao gringo assim que entrei. Para quem há menos de 24 horas escarafunchava uma prateleira de ETFs e ajustava um aviso de férias do Gmail, aquela pergunta soava interplanetária.

Encenei naturalidade enquanto caminhava pela tal da smartshop, ponto turístico obrigatório de Amsterdã. Sempre gostei de ler rótulos, mas aqueles eram especialmente sedutores: onda de euforia edificante, zumbido potente e relaxante com início rápido, estimulante para noites selvagens…

Salvia… Parece um nome familiar, mas uma pesquisa no YouTube mostra o estrago. Em um programa televisivo no bom e velho estilo Castelo Rá-Tim-Bum, uma jovem testa “lícitos” ao vivo. O efeito-Salvia é rápido e devastador: eu suei só de ver os três minutos em que ela compartilha sua angústia, dizendo se sentir espremida contra um pufe.

Penso qual será a resposta à atendente que faz o cliente levar para casa a Salvia: “Gostaria de me sentir jogado contra a parede hoje”?

As magic truffles são o ponto alto dessas lojas, ficam em um refrigerador. Os cogumelos foram proibidos em Amsterdã em 2008. As truffles têm exatamente a mesma substância alucinógena, a tal da psilocibina, explica o panfleto, mas não são exatamente cogumelos, são esclerócios… portanto, legais. Nenhuma novidade: o mercado sempre se ajusta.

Há ainda nas prateleiras a indústria que se construiu em torno de tudo isso: as substâncias para testar se os alucinógenos são verdadeiros, os alimentos para antecipar o fim da onda ruim, os cura-ressaca e, claro, os equipamentos para viabilizar o uso: balanças, colheres, isqueiros…

“Se você estiver com algum problema na cabeça, aí a onda pode ser ruim”, segue a balconista, na missão de orientar o gringo, de olhos arregalados. Penso em ficar ali observando se alguém reage tranquilamente àquela pergunta. Minha mente começa a listar problemas em velocidade rápida – isso porque eu estava de férias.

Penso que essa grande farmácia da alma poderia ter uma triagem com psicanalista. Ele definiria os clientes aptos ou não a uma boa viagem e escolheria a ideal para o dia (desconfio que a viagem introspectiva fique encalhada; quem prefere ela aos fractais multicores?).

E aí entro no meu ponto de hoje, antes que eu seja acusada de apologia: no ambiente em que sou ignorante, prefiro que me orientem em vez de me perguntarem o que quero. Neosaldina ou Novalgina? Não sei. Troca o óleo ou deixa mais para a frente? Não tenho ideia.

Hoje me coloco no corpo da atendente ruiva. Da smartshop para a fundshop, com frequência você erra ao responder a esta pergunta: O que você quer? Cinco respostas comuns (e perigosas, apesar de lícitas):

1. Quero ganhar sempre. Muito provavelmente essa decisão vai levar todo o seu dinheiro a um fundo DI, que nunca terá prejuízo, mas também não vai te permitir acumular patrimônio (para visitar uma smartshop em Amsterdã, por exemplo).

2. Quero um retorno expressivo sem volatilidade. Você com toda certeza vai cair em um fundo de crédito privado que só não tem volatilidade porque esse mercado tem pouca liquidez. Sem negociação, não tem oscilação de preço. Ou seja, o risco está escondido (veja mais na seção Seu Fundo abaixo).

3. Quero retorno alto, mas com possibilidade de sacar a qualquer hora. Esse desejo vai te levar a um fundo de ações com liquidez em poucos dias (D1, D3 ou D5, por exemplo). Tudo legal até o dia em que o mercado entra em pânico, um monte de gente saca e o gestor é obrigado a vender ações a preço de banana, prejudicando sua rentabilidade mesmo que você seja paciente e fique quietinho lá.

4. Quero investir fora, mas sem a volatilidade do dólar. Você vai cair nos famosos fundos “hedgeados”, ou seja, naqueles em que o gestor investe em ativos no exterior, mas anula a exposição à moeda americana. A estrutura de hedge tem custos para o fundo, nem sempre é perfeita e tem apenas uma função: lidar com sua ansiedade. Infelizmente é difícil encontrar fundos globais oferecidos no Brasil sem o hedge, mas, quando assim são, adicionam mais uma diversificação para o seu portfólio: a da moeda.

5. Não quero perder dinheiro nunca. Um portfólio bem montado deve ter proteção, como uma pequena parcela em fundo cambial. Ele vai amortecer as perdas em dias de estresse, mas, nas horas de bonança, muito provavelmente vai ter prejuízo.

Cuidado com o que você deseja – para usar um dos clichês da eleição. O mercado vai te oferecer o que é melhor para ele, não para você.

SEU FUNDO

Quem é nosso leitor já sabe que fundo de crédito privado é assunto sério. Se não ligou o nome à pessoa, são títulos de crédito privado aqueles CDBs, LCIs e LCAs oferecidos pelo gerente ou disponíveis no site da corretora, assim como as debêntures. Os fundos de crédito se dedicam a esse tipo de ativo.

O retorno acima do CDI com pouca volatilidade pode atrair à primeira vista, mas o risco de emprestar dinheiro para empresas também é alto – essa lição todos sabemos.

Basta lembrar do Grupo Oi, que entrou com pedido de recuperação judicial em 2016. Até fundos DI de varejo, como os do Banco do Brasil e da Caixa, tinham o título na carteira à época. Imagine o susto dos cotistas quando receberam uma cartinha avisando do problema com o crédito!

A vitória de um governo pró-mercado promete ventos favoráveis para a economia em

2019, o que deve se traduzir em um ano forte para emissões privadas – oportunidades para esse tipo de fundo.

Se você quer embarcar nesses ganhos, entretanto, precisa andar de mãos dadas com alguém experiente: quando a inadimplência de uma empresa se revela, o tombo é feio, de um dia para o outro; não dá para bobear.

É provável que você já tenha esbarrado por aí nas corretoras com o fundo de crédito da Brasil Plural. A gestora perdeu para o Santander, no ano passado, um executivo importante, Leonardo Breder. Mas Rafael Zlot, que já selecionava ativos para o fundo na casa desde 2010, assumiu a área de crédito, dando continuidade ao trabalho da equipe.

É um grupo especialista em crédito. E, sim, tem trabalho para o dia todo: manter contato constante com as companhias, negociar garantias e estar atento ao mercado secundário – Alexandre Donini trabalha duro nessa frente, de aproveitar oportunidades (no mercado de crédito, sempre melhor estar do lado de quem compra títulos quando ficam baratos do que do de quem precisa vender no momento de estresse).

“Somos medrosos quando o assunto é crédito”, nos contou Donini, que conheceu Zlot em 2007, quando trabalharam juntos na Tradewire Group. “Tem o cenário de risco com que o mercado trabalha e tem o que chamamos de ‘cenário Zlot’”, brincou, explicando que o chefe da equipe costuma simular o comportamento dos ativos em um cenário até mais pessimista do que o do resto do mercado.

Isso envolve, em alguns momentos, abrir mão de oportunidades. “Se 90% dos papéis de dívida que deixamos para trás não derem problema, podemos voltar a comprá-los. Mas gostamos de acertar naqueles 10% de que saímos e que nos dariam dor de cabeça”, diz Donini.

Foi assim que a gestora conseguiu passar imune, sem títulos inadimplentes na carteira, por anos críticos, como 2015 e 2016, em que várias gestoras tiveram que lidar com problemas no portfólio.

Em termos de retorno, o fundo Brasil Plural Crédito Corporativo mostra consistência desde sua criação, no fim de 2013, e entrega retorno de 114% do CDI no ano. Estamos atentos à gestão, agora sob Zlot. Acompanhe mais detalhes em Os Melhores Fundos de Investimento.

Quer sugerir um fundo a ser explicado nesta seção ou um tema para esta newsletter? Escreva para fundos@empiricus.com.br