Um teto todo seu

Foi com base na minha experiência que montei o roteiro abaixo, o meu “As mulheres e os investimentos”, em homenagem à pessoa à frente do seu tempo que foi Virginia Woolf.

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Um teto todo seu

“Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção.” Essa é Virginia Woolf, em 1928, convidada a falar a uma plateia feminina em uma faculdade inglesa com o tema “As mulheres e a ficção”.

Quem convidou a autora talvez esperasse que ela fosse menos pragmática sobre a fórmula para escrever clássicos como “Mrs. Dalloway”. Independência financeira: foi basicamente o que ela advogou na palestra que virou livro, editado no Brasil com o nome “Um teto todo seu”.

Comprei o livro em uma linda versão em uma livraria londrina nas férias do ano passado. Há poucos dias, curtindo outras férias, agora na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), não resisti e comprei também a bela edição brasileira.

Assim como a declaração de Woolf foi inesperada em 1928, para a plateia da Flip, noventa anos depois, a afirmação da escritora franco-marroquina Leïla Slimani ao falar sobre o desafio de escrever livros premiados com dois filhos pequenos em casa: “Eu entro no quarto e digo para eles: ‘Se entrar, eu te mato’”.

Ela estava brincando (acho), mas falou bem sério ao responder a pergunta seguinte, sobre seu sonho: “Liberdade para sempre”, respondeu, não sem antes reclamar da questão simplória.

Eu ouvi aquilo pensando que tenho conquistado “minha liberdade para sempre”, meu dinheiro e, no começo deste ano, o meu teto para escrever – menos sobre ficção e mais sobre investimentos. É o mais iluminado cômodo da casa: cadeira metida, iMac, prateleiras cheias de livros. Ali, confesso, não economizei. Conheço muitas mulheres que sonham.

Conheço poucas que investem em seus sonhos. Muito poucas. Mais propriamente, são femininas: 23% das contas na Bolsa; 29% no Tesouro Direto.

Não temos números para fundos, infelizmente, mas se o interesse pelo tema servir de referência, minha caixa de e-mails também acusa menos de 30%.

É comum que as mulheres que me procuram para conversar sobre investimentos – raridade – perguntem por onde começar. Foi com base na minha experiência que montei o roteiro abaixo, o meu “As mulheres e os investimentos”, em homenagem à pessoa à frente do seu tempo que foi Virginia Woolf (se você é um homem, peço que encaminhe a uma mulher que ama):

#1 Monte uma reserva de emergência

Se você acha que dificilmente será demitida, três vezes o seu custo mensal é suficiente. Se está perto de perder a cabeça e jogar tudo para o alto, fique mais perto de 12 vezes. Invista esse dinheiro em um fundo DI barato (BTG, Órama e XP têm boas opções). Um título público pós-fixado, via Tesouro Direto, também é uma excelente opção (em corretora sem taxa). Essa reserva é especialmente importante para nós mulheres, que estatisticamente fazemos mais interrupções em nossa vida profissional, como para ter filhos ou cuidar de um parente doente.

#2 Prepare sua aposentadoria

Uma das maiores preocupações financeiras da mulher, dizem as pesquisas, é ser dependente de alguém na velhice. Um plano de previdência ajuda aqui. Pode ser um PGBL ou VGBL mesmo, porém sem taxa de carregamento e que não se restrinja à renda fixa. Como esse dinheiro é para o longo prazo, ele pode ser alocado em multimercados e fundos de ações de previdência. Eles são raros, recebem somente 7% do valor aplicado em previdência no Brasil, mas fazem muito mais sentido do que os produtos concentrados em renda fixa: em geral são caros e vão te render uma aposentadoria medíocre. Para conseguir um bom plano, você deve ter que desembolsar algo entre 500 e 1 mil reais por mês.

#3 Sonhe

Reserva de emergência e previdência encaminhados, é a hora de se divertir. E ganhar dinheiro de verdade. Aqui podem entrar tanto objetivos como “um teto todo seu”, um carro, uma grande viagem, quanto simplesmente a independência financeira. Para esse dinheiro dá para montar um portfólio completo, com renda fixa, moedas, ações (diretamente ou via fundos). E também uma pitada de criptomoedas. Amargar um eventual prejuízo no curto prazo é o passe para ganhar muito dinheiro no longo.

Para executar bem a sequência acima, você vai precisar de uma corretora online. Não se assuste. Garanto a você: abrir conta em uma delas é tão fácil quanto comprar um livro pela internet.

Cota cheia

Depois do Itaú e do Bradesco, é a vez de o Banco do Brasil aderir à arquitetura aberta para clientes do varejo de alta renda, sob a marca Estilo. Além dos fundos próprios, agora o banco oferece também alguns produtos de gestores independentes.

Dessa forma, a gestora do Banco do Brasil, a maior do país, com 909 bilhões de recursos de clientes, vai começar a concorrer na distribuição com três gestores de multimercados externos: Bahia Maraú, Gávea Macro e SPX Nimitz.

É claramente a vitória da informação. O BB não teria o menor interesse de colocar produtos de terceiros para concorrer com os próprios – a não ser que começasse a ter fuga de investidores, dada a oferta limitada. Chutaria que foi o que aconteceu.

Nos espelhos, não há taxa extra e a estratégia é idêntica à dos fundos originais. A aplicação mínima para cada um dos três produtos é de 50 mil reais. Se você não tem todo esse dinheiro para começar, pode investir em alguns desses fundos com tíquete menor por meio de corretoras online.

Cota murcha

O Bradesco, até o momento, tem uma plataforma aberta “para inglês ver”. Se você entrar no site do Bradesco Prime, nem vai ter ciência de que os fundos existem, ao contrário do que acontece no Itaú e no Banco do Brasil, em que a informação está bem clara.

O banco optou por oferecer os fundos de terceiros por meio da marca Ágora. Pelo jeito, tentam fazer dela sua XP, aos moldes do Itaú. Só faltou contar para os clientes.

Quando soube da oferta de Kapitalo no Bradesco, há alguns meses, avisei logo meu pai, cliente do Prime (e apaixonado por banco como todo pai). Ele me disse que a gerente reagiu como se ele estivesse pedindo para comprar um livro na padaria.

Por falar um um teto todo seu…

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