S02E24 – Um Dia a Casa Cai

Desconfie das projeções para a inflação, o PIB e taxas de juros quando for fazer um investimento.

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S02E24 – Um Dia a Casa Cai

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REM – Out of Time

 

“É difícil fazer previsões, especialmente quanto ao futuro”

Há algumas semanas, falei brevemente sobre o drama de procurar uma nova casa. Logo depois, acabei encontrando um outro apartamento. Em poucos dias assinamos o contrato, pegamos as chaves e, pronto, problema resolvido.

Ingenuamente foi o que pensei, claro.

Veja, morar com uma designer de interiores que vem de uma família de arquitetos é ótimo – garantia de que sua casa estará sempre bonita – o sofá combina com a mesa de jantar que, por sua vez, conversa com a luminária da sala de estar.

O lado ruim é que, para que isso aconteça, mudar de casa nunca mais será simplesmente colocar a cama e a geladeira em um caminhão e depois pendurar uns quadros nas paredes.

Sempre tem que dar um tapa no piso, trocar uns móveis, pintar aquela parede com uma cor mais “quente” e, por que não, mudar uma porta de lugar. Coisas básicas que resultam em 400 kg de entulho – literalmente.

Me vi, então, conversando com umas quatro equipes diferentes, todas com orçamentos e prazos de entrega enxutos. “Certamente dá para mudar antes do Carnaval, seu Alexandre.”

Não preciso falar que a planilha de orçamento já foi revisada umas três vezes HOJE e que, a um dia da mudança, começo a duvidar de que a coisa toda fique pronta antes do Carnaval de 2027.

Sai a reforma da Previdência, mas não sai a reforma da cozinha.

É um tal de aumentar prazo, pedir mais materiais e, a cada pouco, lá vou eu correndo comprar um pouco de gesso, massa pronta e, sem perceber, me vi andando pelo Itaim com um enorme rodo amarelo nas mãos.

Kahneman, no ótimo “Rápido e Devagar”, fala sobre o processo de construção do novo prédio do Parlamento escocês, em Edimburgo. Começou em julho de 1997 cotado a 40 milhões de libras. Foi entregue em 2004 a um custo total de 431 milhões de libras – quase 11 vezes o valor inicial.

Há duas explicações básicas para essas discrepâncias astronômicas.

(i) quem orça os projetos normalmente é parte interessada em sua aprovação – é natural que foquem nos pontos positivos e não coloquem na conta os grandes imprevistos e entraves que podem atrasar e encarecer a obra. Isso não faz de seu empreiteiro ou de sua arquiteta uma má pessoa – é um desvio natural, reflexo do alinhamento de interesses. Se perguntar ao seu dentista se está precisando de um clareamento nos dentes, qual resposta espera ouvir?

(ii) as pessoas humanas são ruins em fazer previsões. E, pior, a gente acha que sabe mais do que sabemos de fato. Faça um experimento: peça para um grupo de pessoas estimar intervalos de valores possíveis para uma determinada variável de forma que acreditem ter 98% de chances de estarem certos.

Algo do tipo “tenho 98% de certeza de que a população do Congo está entre 20 e 30 milhões de pessoas” ou “tenho 98% de certeza de que a área total da Alemanha está entre 250 e 280 mil quilômetros quadrados”.

(Tire da amostra os espertinhos que colocarem números ridículos, como um intervalo entre zero e 1 bilhão.)

Se você plotar os dados, por definição, não deveria encontrar um índice de erros muito superior a 2%.

Pois bem, esse “teste” foi repetido várias vezes por diversos pesquisadores – o índice de erro ficou entre 15 e 30%, a depender da população testada e do tópico abordado.

E o que isso tem a ver com seus investimentos?

Analistas fazem previsões o tempo todo. Estimamos a inflação de longo prazo, o crescimento populacional, demanda por produtos, custos de projetos, etc. E, como arquitetos e empreiteiros, temos também nossos desvios cognitivos e falhas de julgamento.

É natural que, depois de recomendar a compra de uma ação, o analista fique “comprado” naquela tese. Como ter certeza se minhas estimativas de crescimento são, de fato, imparciais? Como avaliar se a evolução de margens de meu modelo já não contempla meu viés positivo sobre a companhia?

Se especialistas erram na avaliação de empreendimentos mais simples, como um edifício, qual será o índice de acerto em projetos maiores, como a construção de uma ferrovia? Ainda de acordo com Kahneman, um estudo de 2005 examinou projetos ferroviários realizados entre 1969 e 1998 pelo mundo – em mais de 90% dos casos, o número projetado de passageiros foi superestimado, em média, em 106%. Pior, ao longo desses 30 anos, a qualidade das previsões não melhorou.

Quando for fazer um investimento, desconfie sempre do analista (me incluo) e das conclusões do relatório. Desconfie mais ainda das projeções de novos projetos bilionários – prazos, custos e resultados. Será que vale pagar adiantado por uma nova planta em construção?

Desconfie das projeções de inflação, do PIB e das taxas de juros – tem bancão falando em juros a 8% no fim de 2019 e 2018 nem começou direito ainda!

E, como ninguém sabe de nada, vale aquele discurso de sempre: diversifique, não confie demais nas dicas certeiras e tenha sempre posições antagônicas/complementares em sua carteira.

Seguros? Sempre bem-vindos!