Com Bolsonaro, no saguão

“Mais imposto? De jeito nenhum” – foi o que o candidato a presidente Jair Bolsonaro disse a mim quando perguntei se ele tributaria dividendos e […]

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Com Bolsonaro, no saguão

“Mais imposto? De jeito nenhum” – foi o que o candidato a presidente Jair Bolsonaro disse a mim quando perguntei se ele tributaria dividendos e patrimônio, depois de ele afirmar que era preciso acabar com o rentismo. A conversa relâmpago aconteceu há pouco no saguão do aeroporto de Congonhas.

Aproveitei o encontro para fazer a pergunta que o estrategista da Empiricus, Felipe Miranda, tinha dito no Day One de hoje que gostaria de fazer a Bolsonaro. De forma resumida, dado que o voo dele se aproximava, eu disse que o mercado entendia a maior inclinação liberal recente dele e uma tendência a aprovar reformas no começo do mandato, mas que questionava como ele reagiria à queda de popularidade e às reportagens negativas que poderiam advir daí. Ele respondeu mais ou menos assim: “Dane-se… Você acha que eu não estou acostumado?”.

Bolsonaro também comentou o fato de não ter escolhido o príncipe Luiz Philippe, o favorito do mercado financeiro – nem uma mulher como eu (não sei exatamente porque entrei nessa história) – para vice-presidente. A escolha do general Mourão, pelo que ele explicou, está relacionada a uma suposta capacidade de colocar “o pé na porta” quando necessário.

O candidato também citou várias vezes a preocupação com a compra de tantas empresas brasileiras pelos chineses. Perguntei como ele poderia evitar isso: “Como o Trump”, ele disse.

Quanto às perguntas menos superficiais sobre economia, ele respondeu que deveriam ser respondidas por seu provável futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes. Eu rebati que o mercado gostava de Paulo Guedes, mas que se preocupava com o risco de ele deixar o governo em algum momento. Bolsonaro respondeu que, assim como em um casamento, há separações. Não há o que fazer.

O número da semana

23 por cento. Intenção de voto para Jair Bolsonaro na pesquisa XP/Ipespe divulgada hoje quando o ex-presidente Lula não é considerado na disputa. No levantamento com ambos, Lula assume a liderança com 31 por cento, Bolsonaro cai para 19 por cento (Alckmin tem 9 por cento; Marina Silva, 8 por cento; Ciro Gomes, 6 por cento; Alvaro Dias, 5 por cento).

O que tá rolando?

A notícia. A semana foi da política. Da Faria Lima ao Leblon, os candidatos à Presidência e suas aparições públicas – em um evento do BTG Pactual, em São Paulo, e no debate da Band – foram o tema.

Mãe, tô na TV. Os temas ligados a finanças que mais apareceram foram reforma da Previdência e tributação de dividendos. Ficou a impressão de que, pelo menos dentre os candidatos com mais chance de assumir a Presidência, a reforma é bem aceita – ainda que não seja exatamente essa que está aí.

Sua renda. No evento do BTG, para o qual foram convidados clientes de alto patrimônio e gente influente do mercado, o tema que mais apareceu foi o da tributação de dividendos. Hoje os proventos pagos pelas empresas não sofrem mordida do Leão. Ciro foi o mais contundente, defendendo que medidas como essa serão necessárias para aumentar a arrecadação, já que disse não pretender dar o calote na dívida pública. Afirmou, por outro lado, que não poderia haver bitributação, logo, o imposto pago pelas empresas seria reduzido em compensação.

Quem não foi? Marina Silva e Jair Bolsonaro não confirmaram presença no evento do BTG. Desconfio que a primeira não quisesse ser vista com o logo do banco ao fundo, mas, para o segundo, esse entendimento não faz muito sentido: ele já esteve em eventos do banco no passado, assim como seu fiel escudeiro Paulo Guedes.

Quem não deu ibope. Henrique Meirelles, banqueiro-mor, o último a falar na noite de quarta, não teve quórum entre os seus. O auditório esvaziou. Haddad ficou para quinta-feira cedo, horário ruim para o mercado. Seja por isso ou por falta de ressonância no público financeiro, também não contou com uma plateia muito farta. Alvaro Dias, assim como na Band, não parecia muito conectado à realidade.

Quem ganhou? Convidados de mercado saíram do evento do BTG elogiando a performance de Geraldo Alckmin e criticando os “delírios” de Ciro, como o 1 trilhão de reais da dívida pública que ele diz que vai vencer em até quatro dias (as chamadas operações compromissadas, empréstimos de curto prazo feitos pelo BC, estão próximas a esse volume, mas vencem entre um e 273 dias).

Cola? Deixando julgamentos de sensatez econômica à parte e partindo para as chances políticas, para a infelicidade do mercado, Alckmin com suas metáforas médicas mal conseguiu um sorriso da plateia de abonados, muitos nos petit fours ou naquela última checada no e-mail. Já Ciro arrancou gargalhadas: tirou sarro da audiência, ao fazer pausas para escolher palavras “moderadas”; o candidato fez uma bela análise política de Bolsonaro desconcertando a TV Globo e encenou um susto a um barulho na plateia: “Já achei que era um bolsominion”. A plateia tentou disfarçar, mas riu de todas as piadas.

Fiquei mais pobre ou mais rico? A semana deu bons sinais do que teremos até as eleições: volatilidade. Rumores políticos não confirmados agitaram os preços. Para o longo prazo, os eventos deixaram a sensação de alguma moderação nas decisões de política econômica. Bom lembrar, entretanto, que o PT de Lula e Haddad não confirmou participação porque o ex-presidente estava impossibilitado pela Justiça de participar (ou algo parecido, no eufemismo dos mediadores).

Atento. “Há 30 anos estou com o mesmo patrimônio e no mesmo apartamento” – Geraldo Alckmin, exibindo ética no evento com presidenciáveis organizado pelo BTG. “Nossa, que péssimo investidor…” – cliente da Empiricus ao meu lado.

What’s going on?

News. Veio da Turquia a principal fonte de estresse dos mercados financeiros internacionais na semana. A lira turca ultrapassa 15 por cento de desvalorização ante o dólar (bom dia para passear no Grande Bazar).

Why now? O Banco Central Europeu revelou temores de que poderia haver um contágio dos problemas financeiros turcos para o restante da Europa, especialmente no setor bancário, segundo o “Financial Times”. O tamanho do contágio ainda está sendo estimado.

My money. As ações de empresas europeias, especialmente de bancos, sofreram. Muito dinheiro fluiu para os ativos considerados mais seguros. A moeda americana teve forte valorização. O efeito foi dúbio para os vários multimercados brasileiros que estão posicionados na abertura da curva de juros de países desenvolvidos (que reflete as expectativas para a taxa) – diante do estresse, os europeus ajustaram-se para cima, e, frente à aversão ao risco, os americanos, para baixo.

A boa da vez

Presente! O Felipe Miranda promete para segunda-feira a oportunidade de você dar o Grande Salto financeiro da sua vida. De véspera, ele preparou um presente. Cadastre o número do seu celular neste link e receba imediatamente 50 reais para consumir na nossa loja virtual.

Amanhã é sábado

Quer ir pra Lua? O que parecia uma piração do bilionário Elon Musk ganhou corpo. Gente de pouca grana e poder (só que não) – o presidente americano, Donald Trump, e o empresário Jeff Bezos, da Amazon – uniu-se ao CEO da SpaceX para garantir viagens à Lua.

Quanto custa? Não siga o exemplo do candidato à Presidência favorito dos banqueiros. Comece a acumular patrimônio para essa empreitada. Segundo uma estimativa da agência de viagens Space Adventures, que já levou sete pessoas à estação espacial, o custo seria de 175 milhões de dólares por assento. Mas podemos esperar um pacote da CVC.