Eu, madre superiora

Primeiro ano da faculdade. Vinte adolescentes metidos a adultos, inclusive eu, miravam em silêncio um relógio de plástico pendurado na parede de uma daquelas salas […]

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Eu, madre superiora

Primeiro ano da faculdade. Vinte adolescentes metidos a adultos, inclusive eu, miravam em silêncio um relógio de plástico pendurado na parede de uma daquelas salas de concreto lindíssimas que Oscar Niemeyer desenhou para castigar estudantes – como arquiteto conceituado que era e conhecedor do clima desértico da capital federal, ele na certa antecipou o calor que faria lá dentro.

Uma hora sentados em silêncio olhando para o relógio. Até hoje não sei se o professor deu a ordem porque se esqueceu de preparar a aula ou se ele realmente pretendia que aprendêssemos algo com aquilo ali. Eu aprendi: que odeio esperar. E mais: que todo mundo odeia. Você não tem ideia da raiva que brotou daqueles corações jovens. Rolou reclamação na secretaria e tudo.

Fiz aquilo por obediência (minha mãe me ensinou a fazer o que o professor manda) – antes fosse por mais um marshmallow, como no célebre experimento empreendido pelo psicólogo americano Walter Mischel quatro décadas antes. Esse você na certa já conhece: o pesquisador colocava crianças frente ao doce em uma sala e dizia que, se elas fossem capazes de esperar até sua volta, ganhariam mais um. Havia as crianças que esperavam e as que não esperavam, mas todas, sem exceção, sofriam.

As crianças foram acompanhadas ao longo de todas as suas vidas pelo pesquisador. As que foram capazes de esperar pelo próximo marshmallow, em média, tiveram melhor desempenho acadêmico e ganharam mais dinheiro. Também há sinais de mais saúde e felicidade.

A boa notícia: autocontrole se aprende e se exercita. Em um experimento em Ohio, Mischel orientou uma criança que em uma primeira tentativa tinha devorado o marshmallow imediatamente a tentar imaginá-lo dentro de uma moldura. Na rodada seguinte, o menino conseguiu esperar pelo segundo doce. Questionado depois sobre o comportamento, respondeu: “Você não pode comer uma fotografia”.

Outras formas de distrair e enganar o cérebro – como simplesmente evitar olhar para o marshmallow ou fingir que ele era uma nuvem – por incrível que pareça também funcionaram.

Se esperar minutos por um marshmallow ou uma hora por uma nota “A” parece tão difícil, que tal esperar 30, 60 ou 90 dias para receber o dinheiro investido em um fundo depois de um pedido de resgate?

Sim, a carência é uma das minhas principais bandeiras. É claro que um fundo DI, para reserva de emergência, tem que permitir resgate imediato. Para multimercados e fundos de ações, entretanto, eu quero que o gestor tenha tempo para vender calmamente os ativos diante de um pedido de saque. Gosto daqueles em que peço saque e preciso esperar meses para ter o dinheiro na conta. Sonho com um mundo de fundos de ações D+180.

Essa defesa, contudo, me faz receber e-mails raivosos todos os dias (sim, as pessoas odeiam esperar!). Apenas uma amostrinha:

“Preciso dizer o que pode acontecer com o Brasil em 30 dias? Entendo e acho lógica sua argumentação (tipo madre superiora, desculpe) quanto às vantagens para o gestor e para os demais cotistas do fundo em referência a esse prazo, que possibilita melhor administrar as operações de venda, mas, pensando no meu pedaço do bolo, com cobertura de chocolate (se eu estiver certo), quero que cotizem o meu resgate o mais rápido possível! Quanto ao crédito, OK que seja em 30 dias”. Júlio T.

Uns comem o marshmallow antes da hora, outros desobedecem ao professor… há ainda os que conferem a você o título de “madre superiora”. Tudo bem, posso lidar com isso.

Júlio, se o gestor for obrigado a cotizar o seu resgate no dia em que você pediu – ou seja, definir o valor que vai te pagar –, ele vai ter que vender os ativos correndo. Aí não tem por que devolver seu dinheiro somente em 30 dias.

Em sua homenagem, Júlio, a madre superiora aqui vai repassar rapidamente três vantagens da carência em fundos de investimento:

1. Vender ativos rapidamente é como tentar desovar um carro amarelo em poucos dias. Isso vai prejudicar seu preço. Principalmente em momentos de crise – como é provável que seja aquele em que você pediu o resgate – pode ser bem difícil encontrar um comprador para um título de dívida ou uma ação. O resultado da venda às pressas provavelmente será um prejuízo para quem pediu para sair e, pior, também para quem foi paciente e decidiu ficar.

2. Se o fundo tem carência de 30, 60 ou 90 dias para resgate, você vai pensar duas vezes antes de pedi-lo. Isso protege você do pânico e também do impulso de gastar – “o dinheiro vai demorar tanto para chegar, deixa pra lá…”.

3. Ao fazer o seu dinheiro ficar investido por alguns meses depois do pedido de saque, com frequência o gestor protege você de perder dinheiro. Para citar uma crise recente, veja o 18 de maio, quando os mercados entraram em pânico diante do vazamento das gravações das conversas entre Joesley e Temer. Imagine que você tivesse entrado naquele dia em um fundo indexado ao Ibovespa e, desesperado, pedisse o saque:

E agora, qual carência você prefere, Júlio? Quer uma dica à la Walter Mischel? Se escolheu bem o fundo, distraia seu cérebro: pare de olhar a cota todos os dias. Tão simples quanto isso.

Seu fundo

“Por favor, Luciana, comente sobre o fundo Aberdeen Multi Asset Growth. Achei a proposta muito interessante”. Alberto C.

Alberto, talvez você esteja acostumado a ver a gestora global Aberdeen no noticiário como a maior acionista de algumas empresas brasileiras, caso de Lojas Renner, BRF, Ultrapar, Bradesco, Vale, Multiplan, Arezzo, Iguatemi…

A casa gere 764,3 bilhões de dólares (o triplo do Banco do Brasil, a maior gestora brasileira, para que você tenha uma ideia do porte).

Muitos investidores globais acessam o Brasil por meio da Aberdeen, mas poucos brasileiros investem no mundo por meio da casa. Foi do desejo de mudar esse quadro que nasceu o Aberdeen Multi Asset Growth, oferecido no mercado local em uma parceria com a XP.

O fundo acessa um multimercados oferecido pela gestora fora do Brasil desde 2011. E é defendido pela casa como uma forma de ganhar dinheiro nos próximos 20 anos, prazo em que, segundo a McKinsey, as ações globais vão render em média 2,5 pontos percentuais a menos do que entre 1985 e 2014, e a renda fixa, 4 pontos percentuais a menos.

O responsável pelo desenvolvimento de negócios da Aberdeen no Brasil, George Kerr, defende a diversificação como única saída para este novo mundo.

Em busca de um portfólio com diferentes motores de retorno, a gestora tem hoje na carteira, dentre outros ativos, empresas não listadas (private equity), centros de logística, hipotecas, contratos de seguros (que ganham menos, por exemplo, se houver mais catástrofes naturais no mundo, aumentando o montante de prêmios a ser pagos) – muito além dos multimercados que costumamos ver por estas terras.

A carteira é dinâmica, variando de acordo com os ciclos e as expectativas: as ações globais passaram de um terço do portfólio, em 2015, a menos de 3% hoje.

A diversificação tem prós e contras. Por um lado, torna o portfólio complexo – dificilmente vamos compreender os riscos envolvidos nos títulos securitizados ou nas chamadas “oportunidades especiais”, como o leasing de aeronaves –, por outro, ao assumir riscos descorrelacionados, propicia retorno com uma volatilidade próxima a de um multimercados comportado brasileiro, de 4,2%.

Infelizmente, o produto oferecido no Brasil anula a exposição cambial – se estivesse exposto ao dólar, ele garantiria mais uma diversificação e um seguro para a carteira do brasileiro, além de um custo a menos (o hedge). A defesa para tal é que o investidor não suporta a volatilidade causada pelo câmbio – sempre prefiro explicar o risco do que anulá-lo, mas…

O fato de investir mais de 67% do patrimônio no exterior restringe o fundo a investidor qualificado, ou seja, com mais de 1 milhão de reais em patrimônio financeiro.

O fundo da Aberdeen acaba de entrar em nosso escrutínio para avaliação quantitativa e qualitativa. Se quiser ir além desta explicação e saber se sugerimos ou não que você invista nele, então acompanhe aqui.

Esta é uma seção em que você pede a música: qual fundo quer conhecer melhor? Escreva para nós em fundos@empiricus.com.br

Vai uma Pinã Colada?

Tenho um orgulho enorme de ter feito parte da construção da melhor previdência do Brasil, com retorno de 143% do CDI desde a criação. A SuperPrevidência já tem 12.173 clientes – inclusive eu! – com 405,7 milhões de reais.

Já vejo um mar esverdeado, uma piña colada e um bom livro… E você? Como se imagina aposentado ou aposentada?

Ah! Antes que eu me esqueça: já viu o plano do Ronaldo Fenômeno para você ganhar o hexa?