Política de kiwi

Tem muita gente fazendo dinheiro com sua desinformação financeira. Eu estou vacinada: há tempos não me deixo seduzir pelo incompreensível no mundo dos investimentos.

Compartilhe:
Política de kiwi

A vida no Egito Antigo era pautada pelo rio Nilo. A cheia representava fartura. A seca, fome. Até a alíquota de impostos era definida a partir do nível das águas. E boa parte dos sacrifícios religiosos tinha o ciclo do rio como centro.

Nas áreas mais reservadas dos templos, às quais somente os sacerdotes tinham acesso, era guardado o Nilômetro. Havia muito mistério em torno do equipamento, que, hoje sabemos, nada de sagrado tinha: ele simplesmente permitia acompanhar o nível das águas e, assim, ajudava a prever a virada do ciclo.

Com o monopólio do Nilômetro – e, assim, da informação – os sacerdotes mostravam poder de previsibilidade e, dessa forma, mantinham a população sob controle e obediência.

“Ninguém do povo teve a ideia de também medir o nível do rio?”, perguntei ao guia que nos mostrava crocodilos mumificados, símbolo máximo do respeito dos egípcios à fúria da natureza. Ele desconversou, indicando o caminho de volta para o barco. Topei. Ninguém aguentaria um minuto mais de sol na cabeça.

John Lanchester, articulista da “The New Yorker”, citou com muita propriedade os tais Nilômetros ao criticar a linguagem hermética usada no universo dos investimentos. “Incompreensão é uma forma de consentimento”, escreveu.

“Por que eu não tentei entender do que a gerente estava falando?”, sempre penso ao lembrar que investi no primeiro fundo do HSBC que me foi oferecido quando decidi aplicar todo o meu salário de estagiária no que viraria mais tarde meu primeiro carro, um KA usado (eu também achava o carro feio, que fique claro, assim como me incomodava com a água que entrava pela porta nos dias de chuva, mas foi o que deu para comprar naquele momento).

Quer saber em que fundo investi? Qual era a taxa de administração dele? Em que ele aplicava? Não faço ideia. E agora estou aqui, vergonhosamente insistindo para que você só invista no que entende.

E por quê? Porque hoje eu entendo. E não consigo transmitir em palavras o prazer que sinto ao desmascarar uma oferta sacana do banco ou da corretora. Para minha tristeza, elas quase não chegam mais: “Fica tranquila, Luciana, eu já vi seus vídeos, não vou te oferecer os produtos ruins”, disse o meu novo gerente no primeiro contato.

E aqui não defendo que você saiba exatamente o que vai acontecer com o investimento – vou contar um segredo: ninguém sabe –, mas sim o que ele é. Impossível saber se aquelas três ações americanas que venderam a você empacotadas em um COE (Certificado de Operações Estruturadas) vão subir ou não. Mas importa, SIM, que você, caso vá investir, saiba o que é um COE e quais são os riscos envolvidos.

Um amigo jornalista veterano diz que quanto mais inseguro um presidente do Banco Central for, mais termos técnicos e em inglês ele usa. Estou vacinada: há tempos não me deixo seduzir pelo incompreensível no mundo dos investimentos. Na realidade, é uma forma de controle. O gestor solta um “duration” e… oooh, vira rei.

Seria trágica se não fosse cômica a história real de uma jornalista que, ao cobrir uma coletiva de imprensa em que o interlocutor repetia inúmeras vezes a sigla em inglês QE (que em inglês pronuncia-se “quiu í”), em referência ao Quantitative Easing – política de injetar dinheiro na economia americana na tentativa de tirá-la da crise – fez referência em sua reportagem à “política de kiwi”.

Ele falou complicado, ela não entendeu nada e o leitor, menos ainda.

Por falar em crise americana, não teria ela própria, no limite, a origem na falta de informação financeira? Sua semente não foi, afinal, a oferta de um empréstimo que quem contraiu não entendeu que não poderia pagar? E a posterior venda de seu fluxo de pagamentos como um investimento a quem não compreendeu que esse era um destino arriscado demais para suas economias?

TEM MUITA GENTE FAZENDO DINHEIRO COM SUA DESINFORMAÇÃO FINANCEIRA.

Há dois caminhos fáceis: escrever complicado e pronto ou evitar tocar em assuntos complexos. Eu odeio os dois. Coloco para correr gestor que chega aqui com o discurso: “Esse produto é a cara do varejo, porque é fácil de entender e tem baixa volatilidade”.

Eu não quero produto medíocre e abomino quem trata você como idiota. Ao contrário do William Bonner, eu não converso com o Homer Simpson. É por isso que estou muito feliz de anunciar que a Bia Cutait e eu faremos a partir de hoje chegar a você esta newsletter, que será PODER empacotado em palavras.

Nós duas temos muito em comum: somos jornalistas com formação em Economia, já fomos reconhecidas pela Comissão de Valores Mobiliários, o órgão que regula o mercado, com prêmios de educação financeira (baita orgulho) e temos obsessão por transformar você em um investidor independente, ou seja, capaz de tomar decisões sozinho e, claro, fazer muito dinheiro com elas. A Bia, às segundas; eu, às quartas e sextas.

QUAL É A DIFERENÇA DISSO PARA O QUE VOCÊ LÊ POR AÍ?

Você nunca verá um patrocínio neste espaço – a não ser do conteúdo da própria Empiricus . A Bia e eu não receberemos um real a mais (nem a menos) se você escolher investir no produto A ou no B. Tampouco vamos ficar sabendo da verdade – essa newsletter não vem acompanhada de uma câmera secreta.

Você se sente realmente confortável ao ler um texto que trata de investimentos e é patrocinado pelo banco ou pela corretora?

Cota Murcha

“Keep It Simple”, diz a máxima do design. Simplicidade deveria ser a regra também no mercado financeiro. Aliás, já ouviu falar no tal do “fundo simples”? Não se iluda.

Ele é simples para o banco: é o único tipo de fundo para o qual o distribuidor não precisa fazer análise de perfil de risco. Quando a CVM criou a categoria, anunciou o objetivo de que ela fosse o primeiro acesso do investidor ao mundo dos fundos. Se assim é, estamos criando uma geração de traumatizados.

Para o investidor, a maior parte dos produtos que tem “simples” no nome é uma cilada. Veja abaixo uma coleção de fundos simples que perderam para a poupança nos últimos seis meses antes mesmo de descontado o imposto:

São ciladas, não invista.

Cota Cheia

Já foi a um bar em que você paga para sorrir? Mesmo que não tenha consumido nada? Assim é a taxa de carregamento, cobrada somente nos produtos de previdência. Já vi carregamento de 5%: você investe 100 reais para sua aposentadoria e, na largada, o banco já leva R$ 5, além da taxa de administração!

Investidor consciente não paga taxa de carregamento.

Nosso prêmio máximo vai hoje para o Itaú, que está oferecendo aos clientes do Personnalité que contratarem um plano novo pela internet até 30 de abril isenção da taxa de carregamento.

O prazo é limitado, mas torcemos para que a moda pegue.

O QUE VOCÊ QUER LER AQUI? 

Queremos ideias. Que informações podemos dar a você aqui para tornar sua vida de investidor mais fácil? Conte para nós pelo e-mail oinvestidorindependente@empiricus.com.br.

Já que fizemos uma paráfrase de Benjamin Graham, o precursor do investimento em ações, no nome desta newsletter, vou encerrar com um trecho do mestre no livro “O Investidor Inteligente”:

“Nossa tese básica é a seguinte: se o investidor confiar principalmente nos conselhos de terceiros para administrar seus recursos, ele deve limitar suas operações a formas de investimento estritamente padrão, conservadoras e até mesmo não criativas (…). Caso exista uma relação profissional ou de negócios entre o investidor e seus assessores, ele pode ser receptivo a sugestões menos convencionais apenas na medida em que ele mesmo tenha aumentado seu conhecimento e experiência e tenha se tornado competente para avaliar, de forma independente, as recomendações de terceiros.”

É aí que queremos chegar.