Just do it

A divisão seria bem pragmática: enquanto uma parcela se movimenta constantemente, a outra pensa demais – e recorrentemente perde o “timing”.

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Just do it

Se pudesse separar os investidores em poucos grupos, optaria por apenas duas categorias: “Nike” e “Gucci”.

A divisão seria bem pragmática: enquanto uma parcela se movimenta constantemente, a outra pensa demais – e recorrentemente perde o “timing”.

Era assim que acontecia nos recreios da escola quando eu era pequena. As meninas que queriam jogar handball – na época o esporte mais pop do intervalo – eram escolhidas pelo talento/grau de entusiasmo. Implicâncias à parte, as que ficavam para o fim se autossabotavam – tinham uma expressão no rosto de inviabilidade, como se estivessem sendo forçadas a brincar.

Os investidores Nike seguem à risca o lema da marca: “Just do it”.

Eles agem, correm atrás, estão de olho na movimentação em seu entorno, têm as “anteninhas” ligadas o tempo todo.

Podem até pecar pelo excesso, mas não pelo descaso, pela inércia.

Na dúvida, não pensam tanto. Agem!

Já os investidores Gucci não querem se sujar muito. Querem ganhar dinheiro, talvez até da mesma forma que os Nike, mas seu grau de sacrifício é muito menor. Eles deixam o medo falar mais alto em grande parte das vezes. Pensam tanto sobre os atos que perdem as oportunidades.

O investidor Nike se joga. Se errar, tudo bem. Lavou, está novo.

Já o Gucci, não.

Play Safe

Ciente do seu valor, do quanto demorou para formar seu patrimônio, ele não consegue conceber a ideia de perder um tostão sequer. E, com isso, também não consegue sair do lugar e avançar para um novo nível. Quem sabe virar um investidor “Swarovski”.

Para ele, é melhor ficar onde está. “Play safe” é seu lema.

Com isso, o investidor Gucci demora para tomar decisões quando a maré é positiva e, paradoxalmente, é obcecado pelo curto prazo quando sente um risco iminente de perda.

Do pouco que arrisca, tira o dinheiro do fundo imobiliário em meio a qualquer chacoalhão na cota; resgata as ações de empresas toda vez que há uma revisão de guidance para baixo; e tem verdadeira ojeriza a companhias estatais. “O que tem a mão do governo não pode dar frutos para investidor privado”, costuma repetir.

É claramente despreparado para lidar com qualquer sinal de adversidade e não aceita o discurso do longo prazo. Ele quer dinheiro hoje e sempre. Mas tem verdadeiro pânico de ter que assumir perdas, o que o leva a resgatar seu dinheiro nos piores momentos, e ainda desconfia de oportunidades que exigem movimentos rápidos, perdendo ótimas chances de alcançar o desejado lucro de curto prazo.

É o contrário do investidor Nike.

Esse aí não tem medo de perder. Encara a possibilidade de prejuízo colocando em risco só o que realmente não lhe faz falta. Tudo bem se a aposta contra a Bolsa não der certo, se o dólar não subir como o esperado, e se o retorno do título público que ele acabou de comprar aumentar na semana seguinte. Sem problemas.

O importante para ele é se mexer.

Não à toa, enquanto o investidor Gucci roía as unhas em maio e junho com a piora do mercado, o Nike ia às compras. Ele não é um grande entendido, mas já aprendeu que, salvo se houver uma ruptura estrutural do cenário, o ideal é justamente aproveitar as baixas para adquirir mais ativos.

Recentemente, reparou que as taxas dos seus títulos públicos aumentaram, o que levou a uma queda dos preços, conforme ficou explícito em seu extrato do Tesouro Direto.

Se fosse o investidor Gucci, a queda provavelmente o levaria a resgatar o investimento e a devolver o montante para o que ainda considera um exemplo de segurança: o banco.

Mas, não. O investidor Nike nem deu bola para a queda acumulada, afinal, ele sabe que, se carregar os papéis até o vencimento, terá lucro garantido.

Em vez de lamentar o curto prazo, o que ele fez? Foi direto investir em Tesouro IPCA+ (para os mais velhos, as famosas NTN-Bs), de olho na reaproximação das taxas de retorno ao patamar de 6% ao ano.

Em meados de junho, conseguiu comprar Tesouro IPCA+ com vencimentos em 2024 e 2035 pagando mais ou menos 5,9% ao ano. A ideia era aproveitar para reforçar sua aposentadoria, mas agora o Nike não descarta a hipótese de se desfazer dos papéis no curto prazo, já que as taxas caíram para 5,18% e 5,64%, respectivamente. Isto em menos de dois meses.

A estratégia já deu certo com o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2029. Destaque de julho, o papel rendeu 4,45% em apenas um mês para o “Nike boy”. Nem preciso dizer que o Gucci já havia se desfeito do título, assustado com a “marcação a mercado”.

É claro que esse investidor também comete muitos erros e amarga perdas, mas ele continua tentando. O medo de perder não o paralisa. Tanto é que, mesmo não sendo um expert em moedas digitais, vem acompanhando com entusiasmo as sugestões de investimento aqui da Empiricus.

Com quem você mais se identifica: com o investidor Nike ou com o investidor Gucci?

Escreva contando o que te desafia a investir mais e melhor!

Melhor da semana

Após a divulgação dos resultados trimestrais, a Apple entrou para a história na última quinta-feira, ao conquistar o posto de primeira empresa americana a atingir a marca de 1 trilhão de dólares em valor de mercado.

Desde o seu IPO, na década de 80, os papéis da companhia fundada por Steve Jobs acumulam valorização de mais de 40 mil por cento. No mesmo período, o S&P 500, principal índice de ações da Bolsa de Nova York, subiu quase 2 mil por cento.

Boa notícia para quem tem ações da Apple e também para quem investiu nos BDRs da empresa no Brasil, que sobem cerca de 37% em 2018. Que tal?

Pior da semana

Por mais que a gente grite, tem uma multidão de investidores que reluta em escutar. A prova mais recente dessa teimosia está num estudo feito pela Economatica, que listou 179 fundos de investimento com mais de 10 mil cotistas em julho.

Se observarmos os 20 fundos com a maior captação líquida no mês passado, o segundo do ranking chama bastante atenção. NEGATIVAMENTE. Com 15,5 mil cotistas, o Caixa Prático FIC Renda Fixa Curto Prazo rendia apenas 1,90%, ou 26,84% do CDI, em 12 meses. E sabe qual é a taxa de administração do fundo? 5 POR CENTO AO ANO!

Lição de casa: vá conferir o retorno dos seus fundos não só em 12 meses, como nos últimos anos. E mexa-se para buscar coisa melhor…