O dólar vai subir?

Já estou acostumada com a pergunta sobre o dólar, em geral vinda de amigos que veem uma viagem se aproximar. Ontem, entretanto, ela foi mais […]

Compartilhe:
O dólar vai subir?

Já estou acostumada com a pergunta sobre o dólar, em geral vinda de amigos que veem uma viagem se aproximar. Ontem, entretanto, ela foi mais contundente: “Você dedica sua vida a esse papo de investimentos, nem almoçar com os amigos consegue e agora vem com esse papo de que não sabe para onde vai o dólar? Abre o jogo!”.

Não, não sei. E o fato é que ninguém sabe. A relação entre o dólar e o real reage à política monetária americana, à situação global, às pesquisas eleitorais, às exportações e às importações, ao estresse (que, por definição, é inesperado) e a um sem-fim de fatores. O dólar assumiu nesta semana seu maior patamar desde dezembro – é tudo que sei.

Agora, Ricardo, se você me perguntar o que eu faço com o meu dinheiro, dado que vou viajar daqui a um ano para o exterior, é simples: invisto em um fundo cambial. Assim, meu dinheiro cola na moeda americana e pronto. Se o real perder ou ganhar valor no meio do caminho, pouco importa: meu poder de compra em dólares estará preservado: nada mais importa para o MacBook Air que me espera.

Dica: nunca pague mais de 1 por cento ao ano de taxa de administração por um fundo cambial.

Cota Murcha

Hoje o Cota Murcha vai para os invejosos do mercado e críticos anônimos.

Aconteceu nesta semana em um jornal de economia, no qual, protegido pelo recurso do “off”, um gestor disse que Marcio Appel, sócio-fundador da Adam, “virou uma espécie de homem-bomba”. Outro acrescentou: “Quem deve estar nervoso é o investidor do Adam”.

Uma repórter da Bloomberg, referência de jornalismo sério, me disse esses dias que jamais cita críticas sem identificação da fonte em suas reportagens. Elas em geral vêm de concorrentes – como claramente é o caso. Assino embaixo: se quiser apontar fragilidades, faça objetivamente, e não com adjetivos – e mostre sua identidade.

Dito isso, o tema é interessante e de fato tem circulado no mercado. Vamos dividi-lo em dois. Um: o investidor do Adam deve se preocupar com o tamanho de suas posições? E dois: Appel representa um risco para todo o mercado?

Comecemos pelo cotista. A tensão da reportagem se dá sobre Márcio Appel renovar ou não uma posição grande em Ibovespa futuro. Zerar a posição significaria simplesmente deixar o contrato vencer e sair do mercado. O investidor do fundo da Adam poderia se prejudicar se a renovação não acontecesse? Não. O gestor simplesmente deixaria o contrato vencer. Ainda que o Ibovespa caísse na sequência, os cotistas sairiam ilesos, sem exposição a Bolsa. Obviamente, as perdas (ou ganhos) do Ibovespa anteriores ao vencimento do contrato futuro afetariam o fundo.

“O que vai acontecer com a posição se a Bolsa cair 10 por cento?”, questiona outro gestor oculto. O fundo deve ter prejuízo nessa posição. Esse, entretanto, não é o portfólio inteiro. Pelo contrário: a maior parte do risco tomada pelo fundo hoje é fora do Brasil. A composição do portfólio, aberta na CVM, mostra 1 por cento no mercado futuro – ainda que seja somente a margem depositada, essa não é claramente uma posição dominante na carteira.

É bom lembrar que Appel está longe de ser estreante: geriu por sete anos o Galileo, no banco Safra, com histórico bastante consistente. O gestor é reconhecido dentre os alocadores de fortunas pelo objetivo de ganhar com teses de longo prazo, porém com posições que se compensam no curto, a fim de que perdas em algumas sirvam de contraponto para ganhos em outras.

Desde que Appel foi seguir carreira solo na Adam, com retornos e captação expressivos, escuto de concorrentes que a gestora quebraria em um momento de estresse, que jamais conseguiria zerar uma posição ou que a arrogância de Appel o levaria a teimar até o fim em uma posição perdedora. Veio o 18 de maio (vulgo “Joesley Day”). Appel reduziu significativamente sua posição em juros rapidamente. A concorrência virou o disco: “amarelou”.

Uma das principais posições do fundo por muito tempo, S&P – pela qual Appel foi julgado louco em muitas rodas de mercado – foi abandonada às vésperas da queda recente do índice. Ele tem acertado por sorte e alguma hora vai errar? Visitei o gestor um pouco antes da eleição de Donald Trump. Ele acreditava que daria Hillary. E também ganhou dinheiro naqueles dias.

Logo, desde que o investidor do Adam esteja ciente de que o fundo é de alto risco, para o longo prazo e que pode haver volatilidade no meio do caminho – como, aliás, a própria gestora sempre declarou –, não vejo por que se preocupar.

Vamos então ao segundo ponto: risco sistêmico. Suponhamos que a Adam não tivesse rolado a posição. Talvez o Ibovespa caísse no dia – seria um efeito técnico, de fluxo, não ligado a fundamentos. Se alguém comprado ou vendido em Bolsa está tão preocupado com uma oscilação de um único dia, então talvez esteja no lugar errado, não é mesmo?

Se volatilidade não é risco – e aqui sabemos que não é – por mera aplicação da lógica, também não podemos confundir volatilidade sistêmica com risco sistêmico.

Se há fundamentos para a alta, qualquer queda provocada por um desmonte pela Adam deve ser temporária. Aliás, não é do interesse dele, como um gestor experiente, ter uma posição de tamanho exagerado em relação ao mercado – ele próprio teria dificuldades para desmontá-la em caso de necessidade, prejudicando os preços.

Aos guardiões do Ibovespa, digo que passei meses ouvindo que Appel tinha estragado o preço das ações do Itaú e que nunca conseguiria vender tamanha posição.

No Adam Macro, maior fundo da casa, Itaú respondia por mais de 5 por cento do portfólio no começo do ano. A posição foi completamente zerada desde então – e o mercado nem percebeu: a concorrência continuou repetindo que não compraria Itaú porque a Adam tinha estragado o preço.

Repito que, ainda que Appel tivesse abandonado o otimismo com a Bolsa brasileira no vencimento dos contratos, não haveria venda de índice: ele simplesmente precisaria deixar sua posição em futuro de Ibovespa, estimada em 3,5 bilhões de reais, vencer. O giro do contrato futuro em um dia é de cerca de 6 bilhões de reais. E o mercado em torno do Ibovespa é muito maior do que isso, incluindo o à vista e o internacional.

Ou seja, Appel é capaz de mudar o fundamento do mercado? Não. Ele pode até causar volatilidade sistêmica (limitada); risco sistêmico, não.

Não sabemos se Appel continuará ganhando dinheiro. O que temos até agora na Adam é seu histórico: desde o início dos fundos, na escala do produto de menor para o de maior volatilidade: 189 por cento do CDI no Macro; 280 por cento do CDI no Strategy; e 370 por cento do CDI no Advanced. Um retorno assim é, de fato, invejável.

Cota Cheia

Depois de o Itaú começar a distribuir fundos de gestores independentes ao cliente do varejo de alta renda, agora é a vez do Bradesco.

O banco tem usado a marca Ágora Corretora para oferecer fundos a clientes Prime com uma vantagem: aplicação mínima de 10 mil reais – contra 50 mil reais do concorrente. Assim se aproxima das plataformas online de fundos.

Dentre as casas oferecidas estão Adam, Gávea, Pimco e SPX. O banco preferiu diluir os riscos de alguns fundos, mas já é um começo.

Fim

Se você curte uma série, recomendo fortemente a do Luiz Alves Paes de Barros, um dos maiores investidores individuais em ações brasileiras, disponível para os assinantes do Melhores Ações da Bolsa. Imperdível!

Se você ama futebol, siga o Ronaldo Fenômeno.