O Jantar

Fui a primeira a chegar e tomei meu lugar à mesa redonda. Queria assistir do começo ao fim ao encontro de veteranos. Lado a lado […]

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O Jantar

Fui a primeira a chegar e tomei meu lugar à mesa redonda. Queria assistir do começo ao fim ao encontro de veteranos. Lado a lado em breve estariam Luiz Alves, um dos maiores investidores individuais da Bolsa brasileira, com 2 bilhões de reais próprios em ações locais, e Ivan Sant’Anna, que carrega na bagagem 27 anos operando nas bolsas do Rio, de Nova York e de Chicago.

A ideia partiu do Ney Miyamoto, sócio de Luiz Alves na Alaska, que engoliu todos os livros do Ivan e levou para o jantar, em busca de um autógrafo, um envelhecido “Os Mercadores da Noite” – soube lá que a obra foi comprada por Hollywood, mas infelizmente nunca virou filme (e também que o Ivan escreveu roteiros para o Carga Pesada, aquele seriado de caminhoneiros da Globo, mais realista do que o enredo que vivemos há algumas semanas).

A conversa andava serena até que Ivan manifestou seu pessimismo com o Brasil, tema de sua próxima newsletter: as contas públicas caminham a passos rápidos para explodir e não há solução sem abolir de vez privilégios de algumas classes (desculpe o spoiler).

Luiz Alves rebateu, otimista e destemido: “O que mais tem dado problemas no Brasil? Petróleo, fundos de pensão, crédito? Pois eu comprei há pouco tempo títulos de dívidas ligados a royalties de petróleo que estavam em carteiras de fundos de pensão”, disse. E somou que ganhou dinheiro com a operação.

Do embate veio a cumplicidade. “A gente já viu tanta coisa…”, emendou Luiz Alves rindo e bebericando seu vinho. Ivan riu e, depois de um gole de vodca, concordou: “Verdade…”. Rememorou os tempos em que a Bolsa caía 30 por cento e a inflação subia 20 por cento ao mesmo tempo: perda de poder de compra modo turbinado.

E também se lembrou de quando gritava venda energicamente no pregão viva-voz, enquanto colocava outros operadores a seu serviço para comprar (no mundo politicamente correto, isso seria chamado de algum nome bonito, como “spoofing” ou coisa do tipo). E recordou de vezes em que ganhou muito dinheiro. E ainda daquelas em que perdeu.

“Lembra-te que és mortal”, recordou Henrique Bredda, também sócio da Alaska, em referência à frase dita aos generais romanos quando eram recebidos pela população ao voltarem das batalhas. Conta a história que, ao mesmo tempo em que eles eram homenageados com folhas de palmeiras, eram acompanhados de um escravo cuja única função era relembrá-los de sua mortalidade (a cada 500 metros).

Luiz Alves aprovou a referência e lembrou que a Grécia tinha figura semelhante: o ostracismo, que punia os que se destacavam.

“E as Lucianas da minha época? Coitadas…”, disse o Ivan, lembrando que lá atrás era comum que fundos quebrassem juntamente com seus bancos. Ele próprio suou ao assistir ao anúncio feito pelo âncora (provavelmente Ibrahim Sued) de um programa televisivo de grande audiência. Começou com “Bomba, bomba, bomba” e terminou com o anúncio de intervenção em um banco – aquele em que Ivan trabalhava.

Depois de um quase-infarto, Ivan assistiu ao jornalista voltar ao vivo e consertar a notícia: era outro banco, de nome parecido. Sorte que a engrenagem da autorrealização não era tão veloz naquela época.

Luiz Alves lembrou-se então de um conhecido que foi depositar uma elevada soma indenizatória em um banco. Quando chegou, a instituição já tinha fechado. Pegou a maior nota em sua carteira e subornou o guarda para conseguir entrar. Fez o depósito. Quando chegou em casa, foi surpreendido pela notícia da intervenção no banco.

E assim o papo seguiu, entre histórias de operadores com apelidos nada elogiosos, telefones que não podiam ser usados em dias de chuva, casamentos de fachada e amantes escondidos em armários.

Não é a primeira crise. Nem será a última. Dormi bem.

Seu Fundo

Um bom fundo cambial ajuda a amortecer o prejuízo nos momentos mais difíceis do mercado. Desde o começo de maio, por exemplo, enquanto o Ibovespa caiu 16 por cento, o dólar subiu 6,41 por cento.

Se você quiser, entretanto, ficar exposto somente ao risco da moeda, é bom espiar a carteira do fundo – que o gestor é obrigado a detalhar com defasagem máxima de três meses (você pode vê-la gratuitamente no Buscador de Fundos).

É comum que ela tenha também crédito privado, o que, se você for purista como eu, pode ser um problema: se eu busco um produto para me proteger em meio ao estresse, a última coisa que quero é que ele esteja recheado de títulos de dívida.

Um exemplo de família de fundos cambiais que costuma investir em títulos privados, além do dólar, é a do Banco do Brasil. A taxa é competitiva: de até 1 por cento ao ano para aplicações mínimas a partir de 20 mil reais (o produto com tíquete de mil reais é caro, com 1,5 por cento), o problema é mesmo a composição da carteira.

Quer um bom fundo cambial para se proteger? Mostro a você aqui.

PARA TERMINAR, CHARADAS

Entre talheres e taças, a Olivia Alonso e eu dedicamos alguns minutos de nosso almoço a tentar resolver a charada proposta pelo Luiz Alves:

Um jovem vai morar fora e envia uma carta para o pai. Ele precisa de mais dinheiro. Quanto ele quer?

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MONEY

Cada letra corresponde a um único número e há somente uma solução. Esse nós duas resolvemos, depois de quebrar bastante a cabeça.

O que ainda falta solucionar é o problema do Ivan: “Eu tenho o dobro da idade que tu tinhas quando eu tinha a tua idade. Quando tu tiveres a minha idade, a soma das nossas idades será de 45 anos. Quais são as nossas idades atuais?”.

Proponho que você pare de olhar a cota do seu fundo toda hora – se escolheu um bom gestor, é hora de confiar – e vá treinar seu cérebro.