O perigo escondido no seu fundo de crédito

Não tenho preconceito contra riscos, apenas contra riscos ocultos e mal precificados. Um fundo de crédito, sim, tem risco. E é “beeemmm” maior do que você pensa.

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O perigo escondido no seu fundo de crédito

A história conta que nasci de um susto. Certo dia, a família partiu da casa da minha avó em caravana para almoçar. Tudo na paz, domingão, sertanejo no rádio… Chegamos ao destino: fogão à lenha, cheiro de angu. De repente, minha mãe rasga o silêncio: “A Renata ficou para trás!” – e eu me remexo no ventre dela.

Correria louca de volta para casa, coração a mil… E lá estava minha irmã, do alto de seus dois anos: sapatos de salto da minha avó nos pés, comprimidos coloridos espalhados pelo chão. Hoje sabemos que nenhum deles virou papinha, mas minha mãe obviamente não suportou a dúvida: poucas horas depois, eu antecipava minha chegada ao mundo em uma maternidade mineira.

Sempre me impressionou a capacidade de pais (e também de proprietários de cachorros) de perceber que há algo errado quando está tudo quieto. Enquanto a criança pula e grita na sua frente, está tudo bem. Quando o pequeno ser vai para o quarto e o silêncio reina, o alarme toca.

É algo assim que me vem à cabeça – aquele silêncio que, no cinema, precede uma explosão ou um assassinato – quando vejo um gráfico em linha reta de um fundo que rende mais de 115% do CDI. Não existe almoço grátis.

Dia desses, citei no Twitter o retorno do Gávea Macro no ano (340% do CDI, lavando a alma de um 2017 atrás do referencial para aplicações conservadoras) e fui atacada por um leitor que defendia cegamente um fundo de crédito privado. O retorno histórico é semelhante – 120% do CDI em uma década – mas com “riscos beeemmm menores”, escreveu ele.

Vejo um pai que percebe o filho há uma hora em silêncio no quarto e pensa: “Que orgulho do meu anjinho”.

Não culpo o investidor. Ele se baseava na corretora, que, diante de um fundo que não sacodia, classificava o produto como “baixo risco” em sua prateleira, enquanto o multimercados figurava como “alto risco”. E o investidor obviamente tirou um print do carimbo do distribuidor como prova cabal de que, ao contrário do que eu afirmava, ele não estava confundindo risco com volatilidade.

Vêm à minha mente os gestores que batem à porta da Empiricus para apresentar seus fundos de crédito privado, exibindo retornos altos e gráficos em linha reta. O cidadão lança uma frase assim: “A pessoa física adora isto aqui”. Como quem diz: “É só escrever ‘light’ na embalagem do Chokito, vai vender que nem água”.

Pensemos juntos: crédito privado é uma dívida. Você está, no fim das contas, emprestando dinheiro para alguém. Isso é arriscado? Depende do devedor. Se o título público, considerado o menor risco de inadimplência, paga perto de 100% do CDI, deve haver algum risco no devedor que paga 120% do CDI, não?

E por que o risco não aparece no gráfico do fundo? Ele está escondido. O fundo de crédito é como o filho no quarto em silêncio. O fundo de ações é como a criança brincando, pulando, gritando e chorando na sala, sob seus olhos. Onde está o maior risco?

O risco de crédito está escondido porque as negociações no mercado de títulos de dívida são muito mais raras e discretas. Só se sabe o real valor de uma dívida quando se tenta vendê-la. Se os títulos estão concentrados na carteira de um único banco ou poucos gestores, por exemplo, você pode ficar um bom tempo sem ter a real visibilidade de seu valor.

Veja o gráfico de um fundo de crédito americano, mercado em que os ativos são mais líquidos: dificilmente você encontrará uma linha reta.

E, mesmo em mercados sofisticados, a inadimplência, com frequência, é uma surpresa: o vencimento chega e o devedor não comparece. Tanto que os casos de inadimplência em um fundo de crédito marcam linhas retas verticais em um gráfico estável. O título valia um e, de uma hora para a outra, vale zero (ou 0,25, com sorte, se houver esperança de pagamento futuro).

Assim é o mercado de crédito: existe a hora da verdade. Já para a Bolsa e para o câmbio, por exemplo, o preço está na tela, o tempo todo, pulando sob seus olhos.

E, com frequência, esses fundos de crédito que rendem absurdos sem volatilidade têm o portfólio desalinhado com a liquidez do produto. Eles estão recheados de debêntures, com vencimento em cinco a dez anos. E o fundo aceita resgates em cinco a dez dias. E se muita gente sacar? Será preciso “amassar” o preço da debênture para vender, certo?

Pode ser pior. Cada vez mais vejo fundos de renda fixa e multimercados lotados de FIDCs, sigla para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios.

O que é isso? São dívidas empacotadas. Uma loja de varejo pode decidir, por exemplo, vender sua carteira de crédito para um FIDC. Assim, ela recebe o pagamento das dívidas dos clientes antecipadamente (com desconto, claro). E o risco da inadimplência passa ao FIDC. As pessoas vão deixar de pagar com certeza? Não. Vão arcar com suas dívidas certamente? Também não. Então, sim, há risco – risco de crédito.

Não tenho preconceito contra riscos, apenas contra riscos ocultos e mal precificados. O único tipo de fundo brasileiro para o qual eu vi um problema sério de suspeita de fraude foi o FIDC. Aconteceu com a gestora Silverado – se você não acompanhou, faça uma pesquisa. Antes de virar caso de Polícia Federal e estampar páginas de jornais e revistas, o retorno era próximo a 130% do CDI – estável como um reloginho. De um dia para o outro, todo o patrimônio investido estava em questão: de 130% do CDI a zero como em um passe de mágica. Se isso não é risco…

A regulação dos FIDCs é completamente diferente da de fundos tradicionais, como de ações e multimercados, regulados pela Instrução 555 da CVM, essa, sim, mais conservadora do que a minha avó.

E, para além da regulação, as estruturas são complexas: é bem difícil aos nossos olhos alcançar o real risco corrido. Para você ter uma ideia, alguns administradores – em geral grandes instituições financeiras que na prática prestam serviços burocráticos aos gestores, mas que respondem judicialmente por problemas nas carteiras – evitam contratos que incluem esse tipo de estrutura.

Até tolero FIDCs, desde que em pequena quantidade, muito bem precificados e em portfólios de gestores de crédito de altíssimo nível. Ou seja: pimenta em dose certa, bem escolhida e com alerta no cardápio.

Um fundo recheado de FIDCs, em uma gestora pouco conhecida, nas mãos de um investidor que confunde risco com volatilidade? Uma bomba, na minha opinião.

Enfim: fundo de crédito, sim, tem risco. E é “beeemmm” maior do que você pensa.

Cota murcha

Nota zero para gestores, assessores, consultores e distribuidores que vendem fundos de crédito (especialmente os recheados de FIDCs) sem alertar o investidor sobre os reais riscos envolvidos. E pior: exibindo fotografias de gráficos bem-comportados como argumento de venda.

Os rankings de fundos também não ajudam, já aviso. Com frequência, eles medem a qualidade de um produto pelo chamado Índice de Sharpe, uma relação entre o retorno e a volatilidade histórica. Se ele rende muito e sacode pouco, então vai para o topo do ranking.

Pode conferir: com frequência, os multimercados que lideram os rankings têm “crédito privado” no nome – sufixo que ganham quando podem superar 50% do patrimônio em dívida privada.

Ah, esse também é um alerta importante: tem um bocado de fundos de crédito por aí classificados como multimercados – inclusive os que compram somente FIDCs. Não se confunda.

Cota cheia

Os gestores são obrigados a divulgar o portfólio de seus fundos com defasagem de até três meses. Lá você pode descobrir em que realmente eles investem e, assim, saber os riscos que correm.

A Quantum, principal provedora independente de dados de fundos do Brasil, firmou uma parceria com a Empiricus para que você consiga ver as maiores posições de qualquer fundo de forma fácil, a qualquer hora. É o Buscador de Fundos.

Dá também para conferir o retorno histórico, a taxa de administração, o patrimônio… Dia desses, soubemos também pelo Twitter (a rede da discórdia e do amor) que o aplicativo do Buscador de Fundos é poder. Cota Cheia para ele:

Sua vez

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