Não se esqueça dela

Em tempos de juros baixos e necessidade (ainda maior) de diversificação do patrimônio, não abra mão de ter uma reserva de emergência

Compartilhe:
Não se esqueça dela

Tenho um tipo de leitor que já virou um personagem clássico, periodicamente marcando presença em minha caixa de e-mail.

O tom e o conteúdo da mensagem são invariavelmente os mesmos.

“Oi, Bia, tudo bem?

Adoro seus textos, estou aprendendo muito sobre investimentos, depois de uma vida endividado.

Tenho ouvido bastante sobre esse tal de bitcoin, então decidi investir metade do meu dinheiro nessa moeda, porque quero trocar de carro nos próximos meses. Tenho também uns 30% alocados em ações, outra parcela em fundo imobiliário, que é menos arriscado, e um ou outro CDB do meu banco.

O que você acha? Tem alguma dica para me ajudar?”

Nem sei por onde começo a comentar essa pérola de e-mail…

O pedido da “dica quente”; a decisão de investir com base apenas no que amigos/colegas/familiares disseram; a aplicação em ativos de alto risco atrelada a alguma necessidade de curto prazo; a visão de que fundos imobiliários são necessariamente menos arriscados que ações…

A lista do que o leitor NÃO DEVERIA FAZER é bem recheada.

Mas hoje prefiro destinar minha crítica para um ponto específico desse pseudo/verdadeiro relato: a falta de um plano B.

Repita comigo: TODO MUNDO deve ter SEMPRE uma parte do patrimônio disponível para situações imprevisíveis e verdadeiras emergências.

Perda de emprego, acidentes ou doenças graves descobertas de um dia para o outro, despesas com inventário… É fácil pensar em situações inusitadas que possam tomar nosso dinheiro de uma hora para a outra ou que levem nossa renda mensal a despencar.

E como se proteger justamente de situações não previstas? Precavendo-se, ou seja, vivendo sempre ciente dos riscos iminentes.

Essa prevenção deve pautar a vida de qualquer pessoa, inclusive daquelas que consideram ter estabilidade no emprego. Acredito que a atual situação dos funcionários públicos do Rio de Janeiro sirva de ótimo (e infeliz) exemplo para repensarmos o mito da estabilidade e da segurança que tanto abarca essa classe…

Tenho consciência de que, diante de um momento inusitado para o brasileiro, de renda fixa em baixa e maior procura por ativos de risco, a chance de você se esquecer da tal reserva aumenta.

Minha preocupação não é à toa. O Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), com o apoio de pesquisadores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), lançou um indicador inédito de “Bem-Estar Financeiro do Brasileiro”.

De acordo com os dados, nada menos que 63% dos consumidores afirmam não estar preparados para lidar com imprevistos. É muita coisa!

A ideia de ter uma parte do patrimônio retido não é ver o dinheiro desse colchão se valorizar como o restante da carteira. O objetivo é garantir liquidez e segurança.

Esses recursos precisam estar disponíveis para uso a qualquer momento. Por isso, devem estar aplicados em ativos seguros e com baixa oscilação, que permitam o resgate rápido.

O Tesouro Selic enquadra-se perfeitamente nessa descrição, da mesma forma como bons fundos DI com taxas de administração mínimas, abaixo de 0,3% ao ano.

CDBs podem compor esta reserva? Sim, desde que sejam de um banco bem avaliado, tenham liquidez e paguem AO MENOS 100% do CDI.

Como montar a reserva de emergência

O tamanho deste colchão vai variar de pessoa para pessoa. Você deve calcular sua despesa média mensal e multiplicar por seis para ter um valor aproximado a ser separado para emergências.

Mas a reserva pode ser maior (ou até menor). Tudo depende do quão confortável você estará ao saber que, se tudo der errado, terá cerca de três, seis, nove ou 12 meses à frente de despesas cobertas. Espero que os 1.200 professores recém-demitidos da Estácio tenham sido conservadores em seus colchões de liquidez…

Ter um dinheiro a mais “em caixa”, como se diz no mercado financeiro, também pode ser interessante para aproveitar oportunidades de investimento, aumentando a posição em ações promissoras quando seus preços caírem, entrando em bons fundos que abrirem para captação de novos recursos e reforçando a parcela mais voltada para o longo prazo.

Da mesma forma que não se pode abrir mão de ter uma reserva de emergência, todo investidor deve dirigir uma parte do patrimônio à formação de uma poupança para o longo prazo, garantindo assim uma aposentadoria sem depender de governo, nem de ninguém.

Em um 2018 que promete bastante volatilidade, toda proteção é pouca!