Sem amadorismo, por favor

Eu gostaria de ter tido alguém para pegar na minha mão quando comecei a aplicar no mercado financeiro e me explicasse não só o que fazer, mas o que não fazer.

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Sem amadorismo, por favor

Começar qualquer nova empreitada implica correr riscos e aceitar que você vai errar no percurso. Não uma, duas nem três, mas várias vezes.

Se começar a correr de olho numa meia maratona, vai cair, se machucar, ir além dos limites e, provavelmente, fraturar algum osso.

Já se decidir entrar na cozinha com a inspiração da Rita Lobo, da Bela Gil, do Jamie Oliver ou de quem quer que seja, esteja certo de que algo vai azedar, de que algum bolo não vai crescer ou de que vai ter que jogar uma bela peça de filé mignon no lixo, depois de virar quase uma sola de sapato.

Desculpe a franqueza, mas também tenho certeza de que, ao ingressar num novo emprego, você se sentirá um estranho no ninho e falará algo inoportuno em algum momento, fará alguma confissão à pessoa errada ou incomodará algum colega, por mais legal que você pense ser.

Cada batalha, um novo desafio.

Com dinheiro, também é assim. Qualquer novo risco assumido exige do investidor aceitar um eventual prejuízo ou, no mínimo, renunciar a algum ganho fácil.

É claro que a gente não comete erros só no começo de uma jornada, mas essa fase é aquela em que estamos mais suscetíveis a cair em ciladas.

Eu gostaria de ter tido alguém para pegar na minha mão quando comecei a aplicar no mercado financeiro e me explicasse não só o que fazer, mas o que não fazer.

Por isso, separei cinco sugestões que podem servir de inspiração para você ou alguém próximo tomar coragem e investir sem medo de errar.

Bom (re)começo!

1. Esperar juntar MUITO dinheiro para começar a investir.

Quando eu comecei, realmente pensava que não conseguiria acessar bons produtos sem ter guardado uma quantia relevante, digamos que a partir de 10 mil reais. Bobagem pura. E uma idiotice sem fim poupar, poupar e poupar sem investir de verdade. Já faz um bom tempo que descobri que o Tesouro Selic, porta de acesso de vários investidores ao mercado financeiro, é barato – hoje mesmo o custo está na casa dos 96 reais.

Mesmo para arriscar um pouco, soube que poderia comprar ações investindo um pequeno valor. Um dos papéis indicados no Você Investidor exige menos que 11 reais para a compra, ainda que o ideal seja adquirir o lote padrão, de cem ações, por cerca de mil reais. Caberia no meu bolso desde o início e não teria que ter desperdiçado meu retorno na poupança ou num fundo de ações super caro do banco.

Nesta semana, estou inclusive aprendendo com o Lerry que até para negociar imóveis em leilões eu preciso de bem menos do que imaginava. Nada perto do que paguei no meu próprio apartamento…

2. Investir pelo bancão só para não pagar tarifa.

Todo mundo já passou por isso ou conhece alguém nessa situação. Deixa dinheiro aplicado num CDB que paga menos de 100 por cento do CDI, numa LCI ou LCA que entrega menos de 85 por cento do CDI ou num fundo com taxa de administração altíssima e retorno pífio só para desviar da tarifa mensal. Quantos não acabam poupando algo como 80 reais por mês e deixando de ganhar alguns milhares todo ano só pela teimosia?

Antigamente não havia mesmo opção. Só dava para ter conta nos maiores bancos, especialmente em um dos “top 5”, mas já faz tempo que as coisas mudaram. Não só tem dado para barganhar melhores condições com as grandes instituições, como há várias alternativas de contas digitais sem custo (até mesmo com opções gratuitas para pessoas jurídicas) e que, de quebra, oferecem ótimas seleções de investimento.

Essa conta já não faz mais sentido, mas, se você ainda preferir ficar num bancão, vê se pelo menos escolhe um investimento decente.

3. Comprar título de capitalização.

Já não é de hoje que falo isso, mas vale reforçar: título de capitalização só é bom para o banco (e para ajudar gerente a bater meta), NUNCA para o cliente. Se a ideia é testar a sorte, melhor buscar uma casa lotérica. Eu mesma já levei a quadra da Mega-Sena depois de “investir” sete reais e conheço alguns outros premiados, mas estou para ver pessoas que tenham sido agraciadas com sorteios relevantes desses produtos. Se é para brincar de apostar, o lugar certo definitivamente não é o banco.

4. Investir tendo dívidas.

Sinceramente, pensei que esse tema estaria cada vez mais esclarecido, mas tem muita gente que ainda deixa a ambição falar mais alto do que a razão. Basta pensar comigo. Se você resolver trocar uma dívida por uma aplicação financeira, concorda que não dá para colocar em risco esse dinheiro, voltado para financiar sua casa, seu carro ou pagar contas em atraso?

Dessa forma, pensando nas aplicações mais seguras, seu custo de oportunidade equivale aos juros básicos da economia. E a Selic está muito baixa, em 6,5% ao ano. Qual é o custo do seu empréstimo? É com esse patamar da Selic que você deve comparar antes de tomar uma decisão.

Os últimos números do Banco Central mostram que a taxa média de juros no crédito livre às famílias estava próxima de 53,2% ao ano em junho. Há pouco mais de um ano, esse custo superava os 70%, mas acho que ainda é evidente como não compensa investir um dinheiro a 6,5% ao ano e arcar com um custo colossal para pagar suas dívidas, certo?

5. Pensar no futuro quando já não tiver tempo, ou melhor, dinheiro, para planejar.

Eu não posso dizer que me enquadro nesse erro, mas nove em cada dez amigos caminham para esse precipício. Na ânsia de viver a vida como se não houvesse amanhã, gastando tudo que se tem (e mais um pouco), grande parte das pessoas não faz nenhum tipo de poupança para o futuro.

A dificuldade para escolher uma boa previdência e a incapacidade de destinar um pouco do salário todo mês para o plano escolhido paralisam muita gente. Mas quem foi que disse que só existe um bom plano de previdência ou que é preciso ter grandes quantias todo mês?

Se quiser uma ajudinha, fale com a Luciana. Se desejar ainda mais simplicidade para sua vida, vá de Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035. E não esquente a cabeça olhando retorno de curto prazo para um dinheiro do qual só pretende ver a cor em quase 20 anos.

Melhor da semana

Nada como a concorrência para ver os bancos mais poderosos do Brasil se mexendo para agradar (ou manter) seus clientes. Depois da movimentação feita pelo Itaú, pelo Bradesco e até pelo Banco do Brasil, foi a vez de o Santander anunciar que também vai lançar sua plataforma eletrônica de investimentos, aberta a produtos de terceiros.

E, como não são bestas, mais bancos médios têm entrado na disputa. O caso mais recente foi o do ABC Brasil, que acaba de lançar sua plataforma de investimentos para clientes do varejo. A gente só tem a ganhar com essa disputa!

Pior da semana

No Você Investidor desta quinzena, aprendi uma grande lição: operar no mercado futuro, de olho em faturar com a aposta na alta ou na queda do dólar ou do Ibovespa, pode ser bem acessível, já que é possível operar alavancado, mas os custos variam MUITO conforme a corretora escolhida. Tem casa que exige a mesma margem de garantia para operações “normais” e day trade com minicontratos, mesmo com os riscos sendo bem menores no segundo caso. Para entender mais sobre o tema e conferir quais são as corretoras mais acessíveis, acesse este link.