Só a inflação te satisfaz?

Emprestar dinheiro para seu banco, para uma empresa ou para um governo não pode ser encarado como um ato de caridade. Imagine se vou correr um risco desnecessário para receber em troca uma mixaria?

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Só a inflação te satisfaz?

Mas muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz
Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero (mais)
Muito Pouco – Paulinho Moska

Já faz parte da minha vida há alguns anos, desde que comecei a escrever sobre investimentos. Nem precisava ser expert no começo, o simples fato de entender um pouco sobre economia me garantia um lugar de destaque dentre amigos e familiares. Virei a #diferentona da turma logo cedo.

Com isso, fui alçada à responsabilidade de responder dia sim, dia não a alguma dúvida sobre finanças.

Qual é a corretora mais recomendada para começar a aplicar?
Como reduzir os gastos com tarifas bancárias?
Como escolher entre tantos produtos financeiros no mercado?

Essas três perguntas têm estado costumeiramente no Top 5 das mais frequentes.

Apesar de o campo ser árido, todo mundo nutre algum tipo de curiosidade em relação ao assunto, haja vista que 9 em cada 10 pessoas que eu conheço empurram suas finanças com a barriga.

Não é à toa que só 44% dos brasileiros falam com frequência sobre dinheiro dentro de casa, como mostrou um estudo divulgado na semana passada pelo SPC Brasil e pela CNDL.

Dia desses um parente me ligou pedindo a tradicional ajuda para investir. Todo o patrimônio dele estava concentrado no banco, em um CDB prestes a vencer.

Ele não tinha conta em nenhuma corretora e não sabia o que fazer com o dinheiro que cairia em sua conta dali a alguns dias.

Eis que me sentei e escrevi um e-mail bem detalhado, colocando opções de acordo com sua necessidade e prazo e levando em consideração até a declaração de seu Imposto de Renda.

Mencionei opções mais conservadoras, que casavam com seu perfil menos arrojado, mas que sempre entregassem mais do que 100% do CDI.

Estava feliz em poder ajudar e torcendo para despertar o “bichinho” do investimento dentro da cabeça dele.

Uma parte do meu conselho foi seguida à risca, e ele inaugurou o investimento pela corretora. Ponto para nós dois!

Mas, para minha surpresa, infelicidade e certa irritação, a outra fração do seu dinheiro seguiu no banco. Pior do que isso, numa aplicação que renderia menos do que o CDI.

Era um pequeno passo, mas que poderia ser decisivo para um dia, quem sabe, ele topar correr mais risco. Adoraria poder sugerir o Protocolo T2.E, mas estava indo com calma.

“Sério que isso está acontecendo?”, me questionei na ocasião, tentando entender onde havia errado. Será que não fui clara nas sugestões ou todos os produtos tinham sumido, de um dia para o outro, das plataformas?

Foi então que, com um tom bem sereno e completamente conformado, ouvi a fatídica frase:

– Ah, tudo bem, Bia, dinheiro a gente ganha trabalhando. Se o investimento me garantir a inflação, já está bom.

Só podia ser uma piada…

Achei uma verdadeira tortura escutar aquela frase depois de todo esforço para mostrar como era simples – e NECESSÁRIO – selecionar aplicações melhores para ganhar mais dinheiro.

A sensação que tive era de que tanto fazia para meu parente. Que tudo bem ganhar pouco.

Mas ele estava errado.

Emprestar dinheiro para seu banco, para uma empresa ou para um governo não pode ser encarado como um ato de caridade.

Imagine se vou correr um risco desnecessário para receber em troca uma mixaria?

Ninguém aqui está falando para você largar seu emprego e viver exclusivamente da renda de suas aplicações financeiras. Mas o seu dinheiro pode e deve, sim, trabalhar para você.

E num contexto em que os juros básicos brasileiros estão abaixo de 7% ao ano e, naturalmente, a renda fixa está bem pouco atrativa, deveria ser obrigação exigir receber mais do que 100% do CDI da parte conservadora do seu portfólio.

É por isso que acho um desserviço alguns dos produtos ofertados por diversas casas de investimento, como você vai notar logo abaixo.

PIOR DA SEMANA

De nada adianta dispor de um zilhão de produtos em uma plataforma se for para oferecer investimento ruim para o cliente. Toda corretora tem seu ponto fraco e, falando especificamente de CDBs, é fácil observar isso. A XP, por exemplo, oferta um CDB da Caixa pagando menos do que 100% do CDI e com valor mínimo de aplicação de – PASME – 1 milhão de reais, enquanto a Guide oferece sabe-se lá por que um produto do Santander com rentabilidade de 94% do CDI, exigindo um investimento de 500 mil reais.

Dentre os grandes bancos, até em categorias “premium”, como o Personnalité do Itaú, o pobre do investidor precisa se contentar com CDB que paga, no melhor dos cenários, 94% do CDI, para um prazo a partir de nada menos que 1.082 dias. Nesse caso, menos (produto ruim) é definitivamente mais.

MELHOR DA SEMANA

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, está firme e forte em sua campanha de mostrar o esforço da instituição para levar os juros e os spreads bancários a caírem mais rapidamente. Também pudera. Mesmo tendo diminuído ao longo do último ano, a taxa média de juros para pessoa física no crédito livre correspondia a 57,7% em fevereiro e o spread, a 34,1 pontos. “O custo do crédito precisa convergir para algo mais parecido com o resto do mundo”, afirmou o presidente do BC, em evento na última semana. Tomara que seus antigos colegas do Itaú, do Bradesco e do Santander ouçam o recado com mais atenção.

Se tiver dúvidas, sugestões ou angústias para compartilhar, não deixe de escrever para oinvestidorindependente@empiricus.com.br. E aproveite para me contar o que você espera de retorno ao investir seu dinheiro.