Conservador, pero no mucho

O CDB é um produto de renda fixa e, portanto, tende a carregar menor risco do que um ativo de renda variável. Menor, contudo, não é igual a nenhum risco.

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Conservador, pero no mucho

Jair Bolsonaro ou Guilherme Boulos?

Hambúrguer de picanha ou de grão de bico?

Crossfit ou yoga?

Canudo de plástico ou de vidro?

Não é novidade para ninguém que vivemos tempos de opiniões polarizadas.

Se sai de vermelho, é petista. Se usa a camisa da seleção brasileira (fora da Copa), compactua com a CBF. Se gosta do Gregório Duvivier, é comunista. Se não perde uma edição do “Manhattan Connection”, é coxinha. E por aí vai.

E, conforme o tempo passa, de duas uma: ou você se alia a um dos polos e concorda com todos os dogmas e curte todos os posts de Facebook da sua “turma”, ou aprende a guardar para si sua opinião, com receio de ser mal interpretado até pela sombra.

O mundo anda complicado de se viver, é verdade.

Ficar no meio-termo é visto com maus olhos e anda difícil ponderar as opiniões. Parece que, de um dia para o outro, todos ficamos obrigados a vestir a camisa de um time e tratá-lo como família, da qual só você pode falar mal.

Haja o que houver, não dá para escapar dos estereótipos e das caixinhas nas quais seus conhecidos logo colocarão você.

Quanto antes você reconhecer, mais facilidade terá para enfrentar o mundo.

E essas caixinhas nas quais somos enquadrados o tempo todo também compreendem o mundo dos investimentos.

Para investir, você tem que responder a uma série de questões referentes a seus objetivos. É a tal da Análise de Perfil do Investidor (API), que faz parte do processo conhecido como “suitability”.

É a partir dessas respostas que a corretora avalia o quão adequados os produtos e serviços oferecidos estão ao perfil do investidor, para que ele não corra riscos acima da sua tolerância.

Pois bem.

Mesmo dedicando uma parte do seu tempo a esse processo, há muita proposta de investimento que embute um risco maior do que o “vendido”.

Foi o caso do “Super CDB”, oferecido pela Genial até a sexta-feira passada (29).

Soube dele por uma amiga que estava com um dinheiro na conta e, (mal) orientada por sua assessora de investimentos, destinou seus recursos ao CDB, de olho na garantia de retorno bruto de 1% ao mês por cinco anos.

O tal do apelo conservador foi responsável por fisgar sua atenção, e minha amiga sequer se preocupou em refletir sobre qual risco estaria correndo.

Com uma análise mais aprofundada, logo vi que o “Super CDB” era um produto emitido pelo Banco BMG, não indicado por nossa equipe de renda fixa.

A oferta do produto indicava que os juros do valor investido seriam distribuídos mensalmente na conta do investidor, o que, no longo prazo, reduziria o efeito dos juros compostos e obrigaria o aplicador a pagar alíquotas de Imposto de Renda mais altas nos primeiros dois anos.

E, é claro, há o uso da garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como arremate para a propaganda da corretora.

Sinceramente, não questiono a oferta do produto em si, embora eu a considere ruim. Entendo que, assim como qualquer instituição (financeira ou não) nem sempre há apenas bons produtos na prateleira. Faz parte do negócio.

Mas acho que seria no mínimo honesto expor claramente ao cliente os riscos de cada aplicação, especialmente nesse caso, em que houve orientação de uma assessora de investimentos da corretora.

O CDB é um produto de renda fixa e, portanto, tende a carregar menor risco do que um ativo de renda variável. Menor, contudo, não é igual a nenhum risco.

Por isso, é fundamental abordar alguns pontos antes da aplicação:

Emissor – Ainda que exista a tal garantia do FGC, não dá para deixar de saber quem está por trás do investimento. No caso em questão, o BMG.

Rentabilidade – A promessa é de retorno de 1% ao mês. Bruto e antecipado. Você precisa contar com um dinheiro na conta todo mês? Se não necessitar, não valerá a pena receber os juros todo mês. Será mais vantajoso deixar os recursos rendendo conjuntamente, para que o saldo final seja mais robusto.

Vencimento – Diferentemente da maior parte dos outros CDBs do mercado, esse do BMG vence num prazo maior, em junho de 2023. Uma rentabilidade de 1% ao mês hoje parece interessante, por conta da Selic em 6,5% ao ano. Mas e se os juros subirem e voltarem aos dois dígitos, com uma retomada econômica e/ou uma aceleração da inflação?

Em cinco anos, muita coisa pode acontecer e esses juros prefixados poderão se provar a maior furada do universo, concorda?

Dá para falar de perfil conservador, quando há um risco elevado vinculado ao emissor do CDB, um prazo tão extenso de vencimento e juros prefixados num momento em que se prevê nova elevação da Selic?

Ainda que nossa preferência continue pelas corretoras independentes (na comparação com as de bancos), também estamos de olho à oferta e aos serviços prestados por seus assessores de investimento. E você também deveria ficar…

Quer conhecer de perto as diferenças e o que cada corretora tem de melhor? Então não perca a publicação desta quinzena do Você investidor. Analisamos a situação de 11 casas e ficou tudo bem simples e objetivo para você escolher a sua!

Melhor da Semana

Em nossa extensa pesquisa para a publicação disponível hoje aos assinantes da série Você Investidor, vimos que, embora a plataforma mude, os investimentos seguem os mesmos. Dentre os melhores CDBs, destaque para os do Agibank. Já na seara das LCAs, as do banco ABC Brasil e do BTG Pactual oferecem a melhor relação risco/retorno. Quem anda sumida do pedaço são as LCIs. Quando olhamos para os custos e as ofertas das diferentes plataformas, a da XP tem alguns destaques, mas uma novata vem chamando a atenção. Quer saber qual é? Acesse aqui.

Pior da Semana

Nem é sexta e já é #diademaldade para uma parte das corretoras. De forma antecipada, várias casas cobram hoje a taxa de custódia do Tesouro Direto, por isso, fique atento e deixe um dinheirinho na conta para que o custo, obrigatório, seja descontado, sem você ficar no negativo. Volto a deixar registrado meu incômodo ao ver as corretoras ganhando em cima de uma cobrança que poderia ser feita só em 15 dias.

Como já frisei antes, a maior parte das instituições debita as taxas de custódia dos seus clientes nos primeiros dias úteis dos meses de janeiro e julho, mas o repasse efetivo à Bolsa só é feito duas semanas depois dessas datas. Não passou da hora de mudar, não?