Vai um mexido?

No mundo dos investimentos, o mexido é o fundo multimercados. Talvez por isso eu tenha tanto apego à categoria: uma excelente opção para o portfólio de um investidor, iniciante ou iniciado. Desde que bem feito.

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Vai um mexido?

Lá em casa o mexido é um clássico noturno. Dia desses um tio, já envergonhado de aparecer de surpresa para filar a iguaria, ligou pra minha mãe: “Passa a receita do mexido?”. Ela morreu de rir: “Ué, põe os restos todos na frigideira e é isso aí”.

Está certo que “os restos” dos mineiros não são para amadores. É só abrir a geladeira que você vai encontrar pelo menos um tupperware de arroz, outro de feijão, outro de carne assada, um de couve e, se der sorte, até um de feijoada – mexido de feijoada, não há nada igual. Junta tudo a um ovo mexido, um tomatinho picado, deixa ali um pegando gosto do outro… E está pronta uma deliciosa refeição!

Repeti a gargalhada da minha mãe ao ver o mexido listado no cardápio de um restaurante mineiro aqui em São Paulo esses dias. Sim, gourmetizaram até o mexido.

Um prato que tem de tudo um pouco: qualquer nutricionista atesta o alto valor nutricional dos nossos PFs.

No mundo dos investimentos, o mexido é o fundo multimercados. Talvez por isso eu tenha tanto apego à categoria: uma excelente opção para o portfólio de um investidor, iniciante ou iniciado. Desde que bem feito.

Ali entra de tudo um pouco: ações, títulos públicos, moedas, investimentos no exterior – ainda que haja os que invistam somente em renda fixa pós-fixada e se digam multimercados.

Nas mãos de um bom gestor, um fundo multimercados não é só uma junção de vários ativos. A mistura tem liga, tem sabor, tem tempero. E permite acessar vários mercados diferentes com um patrimônio pequeno – com 5 mil reais você já investe em um bom multimercados.

Os tíquetes de entrada menores você vai achar com mais facilidade nas corretoras online (como XP, BTG Digital, Guide, Órama e Genial), mas também há boas opções para os segmentos Personnalité, do Itaú, e Prime, do Bradesco. Em todos os casos, o importante é saber escolher – bom lembrar que os vendedores recebem comissões diferentes de acordo com o produto em que você investe (e você pode acabar saindo com aquela calça que vestiu mal, mas o vendedor disse que estava ótima).

E por que esse papo de mexido e multimercados agora? O fato é que, nesses sete anos acompanhando fundos, eu nunca tinha visto tantos multimercados nascendo. E olha que eles já são muitos: 3.194, segundo o Quantum Axis, com 462 bilhões de reais de patrimônio. Levante a mão quem não recebeu a oferta de um multimercados nos últimos meses.

Somente para listar quatro das gestoras de multimercados nascidas neste ano, todas já com equipes grandes: Legacy Capital, MZK Investimentos, Vinland Capital e Occam Brasil.

Está com dificuldade de escolher? Não há receita pronta, mas abaixo listo três características bastante comuns que devem fazer você eliminar um fundo multimercados – novo ou antigo – de cara:

1. Equipe que nunca trabalhou junta ou com alta rotatividade

Pode ser todo mundo muito bem formado e com uma linda carreira. Se os integrantes da equipe da nova gestora nunca trabalharam juntos, a chance de dar errado, ao menos na largada, é alta. Melhor esperar de fora um pouco para ver se vai funcionar. Lembre-se: arroz, feijão, couve e carne só viram mexido depois de um tempo juntos na panela. Antes, são apenas arroz, feijão, couve e carne.

2. Volatilidade baixa

Ponho para correr quem aparece vendendo multimercados que assumem pouco risco. Principalmente se vem acompanhado do discurso: “é que o investidor não aguenta volatilidade”. Mas taxa alta aguenta, né? Em geral, os multimercados cobram exatamente a mesma coisa – 2% ao ano mais 20% de performance sobre o que exceder o CDI. Se esse gestor não correr risco direito e gerar retorno, você vai pagar caro pelo equivalente a um fundo DI. Melhor teria sido colocar pouco dinheiro em um fundo que assume muito risco e deixar o restante em um DI barato. Se a meta de volatilidade do multimercados for menor do que 5%, melhor ficar de fora. É arroz disfarçado de mexido (e, o pior, com preço de bistrô).

3. Retorno alto em janelas curtas (como apenas em 2015 e 2016)

Um bom cozinheiro faz de qualquer resto um bom mexido. Até pode errar de vez em quando, mas na média faz. Um bom gestor de multimercados faz de qualquer cenário um bom retorno – no longo prazo, claro. Se o fundo já existe (ou se a equipe já geriu outro fundo), olhe bem para o seu retorno: 2015 e 2016 foram anos de cortes de juros pelo Banco Central. São períodos em que os multimercados costumam ganhar muito dinheiro, posicionados em juros prefixados. Logo, esse período conta pouco – você poderia ter feito sozinho, no Tesouro Direto. Questione: e em 2013, quando o juro subiu, essa equipe ganhou dinheiro? Um investidor que entrou em qualquer ponto da história e ficou dois a três anos teve bom retorno? Qual o peso das estratégias em juros na atribuição de performance do fundo?

Se o fundo multimercados que te ofereceram não peca em nenhum dos critérios acima, ele já está bem à frente dos concorrentes. E é um forte candidato ao seu portfólio. Bom apetite!

Seu fundo

Meus caros, vocês poderiam analisar o Legacy Capital, que tem sido oferecido pela XP? Eduardo M. 

Eduardo, recebemos alguns e-mails como o seu nos últimos dias. O fundo multimercados da Legacy estreia nesta sexta-feira e estará em breve nos principais distribuidores do varejo. A XP e a Rico já têm oferecido a possibilidade de reserva (mas não precisa correr, não é uma abertura relâmpago, pode avaliar com calma).

A Legacy é uma gestora formada por integrantes seniores da equipe responsável por investir, até março, o capital proprietário do Santander. Felipe Guerra, no comando da tesouraria do banco, levou consigo o economista, Pedro Jobim, e o chefe de renda fixa da mesa proprietária, Gustavo Pessoa.

Você deve imaginar que o banco escolhe melhor a equipe que gere seu próprio capital do que o do cliente.

Multimercados de sucesso nasceram de equipes egressas de tesourarias, como os da SPX e da Kapitalo, o que demanda um olhar atento para a nova casa. O risco que se corre é o de virada de chave: é mais fácil lidar com a pressão de um cliente único (o banco) do que de vários (os cotistas do fundos) em caso de prejuízo no curto prazo, por exemplo.

Guerra, entretanto, defende que sua equipe, ao contrário da pecha que recai sobre tesourarias, não é do tipo que deixa o dinheiro aguentando desaforo por muito tempo. “A gente nunca quis testar o estômago do espanhol”, brinca, em referência ao seu antigo cliente/empregador: o Santander. A ideia é zerar e montar posições com velocidade, respeitando o mercado. A meta de volatilidade do fundo é de 7%.

O plano é que a rotina seja exatamente igual à seguida na mesa proprietária do banco, em que os três trabalharam juntos por uma década. E que funcionava, na prática, como um fundo multimercados. O modelo, replicado na Legacy, é o de especialistas. Gabriel Carvalho, por exemplo, ex-Kondor, será o especialista em câmbio. Ele vai cuidar da mesa de moedas globais. Para selecionar ações, o escolhido foi Viccenzo Paternostro, ex-analista do Credit Suisse.

O próprio Guerra, que traz na bagagem as tesourarias do BBM, do Citi e do Santander, pode operar todos os mercados. Do orçamento de risco total que o fundo pode correr, ele larga com 40% – os outros quatro blocos (renda fixa, Bolsa, moedas, long and short macro) têm 15% cada.

É de Pedro Jobim, sempre em busca de encontrar tendências antes do restante do mercado, que virão os principais insights macroeconômicos que vão subsidiar a tomada de decisões na Legacy. “Ajuda pouco estar no consenso”, diz o doutor pela Universidade de Chicago, o mais respeitado centro de economia ortodoxa do mundo, com passagem também pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), assim como quatro outros integrantes da equipe da Legacy, bastante matemática.

O portfólio estreia refletindo o pessimismo da equipe. Para Jobim, a chance de um candidato que tem as graças do mercado vencer a disputa eleitoral é muito baixa e a greve dos caminhoneiros nos levou a um cenário de década de 80, aleijando o crescimento econômico do ano e o pior, com apoio da população, o que dá um sinal verde, considera, para o populismo eleitoral.

Quer ver a avaliação completa do novo fundo da Legacy e saber se deve investir ou não nesse e em outros multimercados, a partir de uma perspectiva independente? Você encontra tudo aqui.

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