Isto chama prejuízo, meu caro

Os maiores problemas vêm dos fatores de risco inesperados. Ninguém é atropelado por um trem se vê o trem chegando.

Isto chama prejuízo, meu caro

Quando um economista erra, isso é chamado de revisão do modelo. Quando um investidor erra, isso é chamado de prejuízo.

A frase é de Paul Craven, ex-Goldman. Acho certos eufemismos maravilhosos. Se sua ação favorita sobe, foi uma grande tacada. Se ela cai, a volatilidade aumentou fortemente.

O caso dos economistas é emblemático. Escrever artigo na Folha mostrando preocupação com a trajetória fiscal e apontando os vícios do capitalismo companheiro é relativamente confortável. O pessimismo pega bem, soa profundo, ontológico. Schopenhauer, Montaigne, mesmo Nietzsche são percebidos como uma tríade de pessimistas ligados a uma espécie de superioridade filosófica. O otimista é um bicho meio besta, ri de tudo, paga de superficial.

A verdade é que uma opinião sem exposição vale zero. Nós temos apenas dois botões à nossa frente: compra e vende. Se você é um alocador de recursos e esteve pessimista com Brasil nos últimos 18 meses, você perdeu dinheiro – ou, ao menos, deixou de ganhar, viu o cavalo passando selado na sua frente e não montou.

Entendo as razões do pessimismo. Com efeito, se passarmos um filme da trajetória fiscal brasileira à frente, não chegaremos a um final feliz, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão. Obviamente, porém, o mundo não é ceteris paribus. Exercícios de estática comparativa são bonitos no livro do Marshall, mas encontram pouco apelo prático. O Brasil tem uma tendência a evitar cenários explosivos; somos macunaímicos e complacentes, mas, no final, aparece um jeitinho.

Mas mesmo que continuemos céticos sobre a trajetória fiscal, fato é que há um componente exógeno no processo, cujo peso não parece devidamente reconhecido. O cenário externo é hoje estupidamente benigno. Não sei – realmente não sei – como será amanhã. Mas hoje o mudo cresce sem inflação e a influência disso sobre os mercados brasileiros é brutal; muito do bull market 2003-2007 se deveu quase integralmente a uma conjuntura externa excepcional. Ali as multiplicações de capital foram brutais. Não estamos falando de 20, 30, 50 por cento. Foi gente multiplicando o patrimônio por 10x. Isso não pode ser desprezado.

O Brasil é um grande beta sobre a economia global. Temos uma grande sensibilidade às condições sistêmicas internacionais. Eu sei. Não é um discurso bonito. Queremos dar causas, trabalho e disciplina ao nosso sucesso, em vez de simplesmente reconhecer seus elementos exógenos. A falácia da narrativa procura elementos de competência onde há apenas forças alheias sendo absorvidas por osmose.

Não é tão legal ser um beta alto. Esse é um mercado que lhe paga muito bem quando as coisas vão bem. E muito mal quando as coisas vão mal. Mas, no momento em que as coisas vão mal, é justamente quando você mais precisa de dinheiro. Por isso, normalmente se exige um prêmio adicional para se estar em ativos de beta alto.

Mas pode ser conjunturalmente bom. Os PMIs em nível global têm sistematicamente superado as estimativas, enquanto os resultados corporativos mostram evolução notável dos lucros – muito além do que se esperava a priori. Flertamos com um novo choque global de produtividade guiado pela quarta revolução industrial e pela inteligência artificial – os resultados divulgados ontem à noite pelo Alphabet são prova material do argumento.

Tudo isso num ambiente de baixa inflação, por forças demográficas e também pela questão da produtividade supramencionada. Ou seja, ainda que os próximos meses sejam marcados pelo fim de uma era marcada por estímulos monetários, isso deve se dar de forma lenta e coordenada – ata do Banco do Japão na madrugada veio mais uma vez reforçar o prognóstico.

Claro que o fim da era dos afrouxamentos quantitativos impõe riscos. Mas ele está sendo devidamente comunicado, mensurado, escrutinizado. Os maiores problemas vêm dos fatores de risco inesperados. Ninguém é atropelado por um trem se vê o trem chegando. Os eventos imprevisíveis me preocupam fortemente. Aqueles antecipados normalmente não causam grandes crashes – temo os cisnes negros; nunca me atrai ou assustei com os 50 tons de cisnes cinzas. Não parece razoável escorregar na casca de banana que você vê à sua frente.

Ou seja, temos um mundo que cresce, estimulando as exportações de países emergentes e contribuindo para as contas externas brasileiras, o que obviamente se traduz, além de impulso ao crescimento local, em ingressos de divisas pela via comercial e contenção da taxa de câmbio. Este mesmo mundo não tem inflação, ou seja, os juros nas economias centrais devem se manter baixos para padrões históricos, ainda sob níveis elevados de liquidez, o que, de novo, alimenta fluxo de divisas para mercados emergentes, dessa vez pela conta de capital.

É um ambiente propício para continuidade do fluxo de queda das taxas de juro internamente e impulso ao PIB vindo do setor primário, exatamente como aconteceu no primeiro trimestre.

Sei das Vantagens do Pessimismo devidamente elaboradas por Roger Scrutton. Paciência. Um investidor contrarian está mesmo sempre em desvantagem inicial.

Terça-feira é marcada pelo início das reuniões de política monetária no Brasil e nos EUA. Por aqui, ampla expectativa de que o Copom anuncie amanhã novo corte de um ponto percentual na taxa Selic, de tal sorte que mercado deve se debruçar sobre eventuais sinalizações de passos futuros do Banco Central.

Nos EUA, Fed não deve mexer em sua taxa básica, mas pode sinalizar redução de seu balanço ainda neste ano. Esse é um motivo de grande apreensão.

Agenda local trouxe nova queda da confiança do consumidor, para 82 pontos, e anúncio de programa de demissão voluntária para até 500 mil servidores, cuja intenção é economizar 1 bilhão de reais por ano. Na esfera corporativa, destaque para resultados de Via Varejo e para estreia de Biotoscana em Bolsa.

Lá fora, saem preços de moradias nos EUA e confiança do consumidor norte-americano. Resultados de Alphabet ontem superaram as projeções e trazem otimismo para Wall Street. Commodities sobem e Alemanha se anima com sentimento das empresas acima do esperado, medido pelo instituto IFO.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,7 por cento, dólar apresenta ligeira queda contra o real e juros futuros recuam ligeiramente.

PS.: Estimulados pela convicção de que uma opinião sem exposição vale zero, estabelecemos que a remuneração variável de todos os analistas da Empiricus esteja relacionada diretamente com o nível de acerto de suas recomendações. É uma forma de alinharmos interesses com o assinante. Os analistas ganham quando os assinantes ganham. Skin in the game clássico. Eu sempre digo que, no momento em que as recomendações não estiverem gerando retornos consistentes e acima da média para os leitores, nós não merecemos mais nenhum assinante. Esse é um dos motivos para eu lhe convidar a conhecer a Carteira Empiricus, cujos resultados têm sido simplesmente excepcionais. Portfólio está voando em julho e no ano de 2017. Encerraremos hoje as adesões com este presente mais do que especial.

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