S02E24 – Cega, Surda e Muda

Três cenários são possíveis para o julgamento de Lula que irá ocorrer dia 24 e, muitos arriscam dizer qual será o resultado. Descubra quais seriam os impactos para os seus investimentos.

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Dia 24 a Bolsa vai cair ou vai subir?

Tenho escutado essa pergunta de amigos, assinantes e colegas. O mercado, que tem fixação por narrativas, eventos e datas apocalípticas, resolveu travar a mira no julgamento do Barba e não há notícia, história ou previsão que importe até a próxima quarta-feira.

Bola de cristal, não tenho. Depois de um processo frustado de negociação de aluguel, não sou capaz nem de te dizer meu endereço em fevereiro, quanto mais o que se passa na cabeça de três desembargadores em Porto Alegre.

Mas, sem muito medo de errar, posso tentar te falar o que PODE acontecer em seis dias.

Há, basicamente, três cenários possíveis que, além de selar o destino do ex-presidente, podem dar os principais rumos das eleições.

Se os três desembargadores votarem pela condenação e pela manutenção ou aumento de pena, as protelações e recursos do ex-presidente, no que tange à segunda instância, teriam desfecho breve – tudo estaria resolvido até o Carnaval. É um cenário bastante positivo para os mercados.

Se Lula for condenado com divergência entre os desembargadores e/ou redução de pena, aí entram os tais dos embargos infringentes. É um processo mais lento, e Lula pode receber o coelho e seus ovos sem saber ao certo seu destino. Se o placar for 2 a 1 pela condenação, o discurso político do ex-presidente-atual-candidato ganha força.

Se Lula for absolvido, seja qual for o placar, o caldo entorna. Me parece um cenário bem fora do radar e pegaria muita gente no contrapé. Não seria bonito de ver.

Mercado está, de uma forma geral, esperando condenação por 3 a 0 com alguma divergência sobre a pena. Moro sentenciou Lula a nove anos e meio de prisão. O limite para o regime aberto é a famosa marca dos sete anos e meio – espera-se, portanto, que fiquemos abaixo dos oito.

Primeiro: não tenho a mais put@ ideia de por que o mercado passou a acreditar em um 3×0. Há quem diga que, como o TRF-4 tem decidido em linha com Moro, a confirmação da pena teria maior probabilidade estatística. Qualquer pessoa que tenha estudado introdução à Estatística tem alguma familiaridade com a lei de grandes números – o número de casos enviados ao TRF-4 não é suficiente para gerar dados confiáveis.

Falar em estatística é balela.

Além disso, não dá para querer planilhar a realidade e esperar que, ao julgar Lula, os desembargadores agirão da mesma forma quando julgaram Vaccari, por exemplo. A Justiça não tem nada de cega – a 8ª Turma do TRF-4 sabe muito bem quem está julgando e o que “está na mesa”.

Eu já li colunista jurando de pé junto que SABE que o placar será 2×1 pela condenação. De onde esses caras tiram essas informações? Será que sabem de alguma coisa ou estão só querendo tumultuar?

Não me arrisco a fazer um palpite. Fui até atrás de alguma assimetria, alguma posição que pudesse brilhar na ocorrência de um dos cenários extremos. Mas o mercado só parece bobo – as opções já estão precificando o “evento”. Não tem almoço grátis.

O que fazer, então?

Valem as regras de sempre – se você não sabe se vai chover, fazer sol ou nevar, você passa protetor, pega um guarda-chuva e segue aquele velho conselho da sua mãe “leva um casaco que vai esfriar”.

Carteiras pouco concentradas, posições antagônicas (você tem dólar?), um pouco de commodity, bastante renda fixa e a reserva de emergência sempre bem guardada e aplicada em ativos de liquidez diária (fudos DIs baratos e as famosas LFTs) e, aconteça o que acontecer, fuja da poupança e do título de capitalização.

Cá entre nós, “haja o que hajar”, o movimento deve ser de curto prazo. Como sempre, vai haver uma reação extrema, um pouco de pânico, alguma gritaria e tudo o mais. Mas, para o longo prazo, a tese de retomada da economia, capacidade excedente, crescimento sem inflação e maiores lucros se sustenta.

Se o cenário externo continuar positivo (mesmo com um aumento gradual dos juros globais), vamos continuar vendo fluxo positivo de capitais. A narrativa vai sair do julgamento do Lula para a reforma da Previdência. Depois serão as eleições (com uma pausa par a Copa da Rússia) e por aí vai.

PS.: antes de clicar em “Responder” para me xingar de coxinha, nazista e fascista, note que, em nenhum momento eu fiz um julgamento de valor ou de mérito sobre o caso. Pragmaticamente, imagino que o mercado vai se comportar dessa forma e pouco importa minha opinião sobre o ex-presidente, o tríplex e a OAS.

Deixe de lado suas convicções políticas e prepare-se pragmaticamente para qualquer cenário. Quando se aposentar, pouco vai importar se votou no Bolsonaro, no Doria ou no “Cirão da Massa” se não tiver dinheiro para pagar o supermercado e o plano de saúde. Eu te garanto que esses três estarão com a vida ganha e pouco preocupados com suas dificuldades financeiras.