O que muda com Lula condenado?

Com o ex-presidente Lula condenado, há uma maior probabilidade de o Brasil resolver seu problema fiscal e finalmente “dar certo”.

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O que muda com Lula condenado?

Depois da decisão do TRF-4, o mercado entrou em um rali de otimismo, com forte valorização dos ativos brasileiros.

A Bolsa subiu 3,7%, o real valorizou 2,8% e os juros prefixados longos caíram 28 pontos-base.

A primeira pergunta que eu recebi durante a transmissão ao vivo que fizemos logo depois do julgamento de quarta foi…

Mas essa alta é sustentável? Ou é mais um caso de otimismo momentâneo do mercado?

Para responder a essa pergunta, voltarei a citar o assunto da minha newsletter da semana retrasada. Nela eu dizia que, diariamente, são jogadas “iscas” no mercado.

Iscas são aquelas notícias sem muita importância estrutural, que não alteram o fundamento econômico, mas mexem com o mercado, servindo apenas para que os investidores não convictos zerem suas posições. Depois concluí:

“Saber separar bem o que é isca do que é fundamento é um dos grandes diferenciais dos gestores de maior sucesso no mercado. E a chave é focar sempre no fundamento. Isso muda o fundamento macroeconômico? Provoca uma quebra estrutural na tendência?”

Pois bem, então vamos nos concentrar em responder a essas duas perguntas acima para começar a treinar nosso senso crítico de investidor (ou investidora).

Lula era o candidato mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais. Em todos os cenários propostos, ele era apontado como vitorioso na corrida presidencial. Ou seja, o petista tinha grandes chances de vencer as eleições e se tornar o próximo presidente – segundo as informações que tínhamos disponíveis até então.

Com a condenação de quarta, a probabilidade de Lula conseguir se candidatar reduziu-se drasticamente— segundo a Lei da Ficha Limpa, políticos condenados em segunda instância não podem concorrer por um período de oito anos.

Ou seja, de potencial presidente, Lula passou a ser o candidato com as menores chances de assumir o cargo.

Isso é uma quebra estrutural?

Oras, se não é, eu não sei o que seria!

O presidente é a figura mais importante da nação, capaz de mudar a política econômica dos próximos quatro ou oito anos. Essa política é a principal influenciadora da economia de um país.

E isso tudo foi alterado na última quarta-feira.

Então, sim, tivemos uma quebra estrutural, que resultou na redução drástica das chances de Lula ser presidente e, portanto, de termos um populista no comando do país.

Com a queda do principal candidato da esquerda, restam no pleito (por ora) mais opções de direita, o que aumenta as chances de termos um presidente mais liberal e reformista.

E é exatamente a isso que o mercado está respondendo. A melhora dos ativos reflete uma maior probabilidade de o Brasil resolver seu problema fiscal e finalmente “dar certo”.

Isso é estrutural e não vai mudar até que saibamos ao certo quem serão de fato os candidatos ou até que novas pesquisas confirmem que os presidenciáveis com as melhores chances sejam reformistas.

A menos que você acredite que o próximo nome a despontar seja o de outro populista, não vale a pena ir contra esse movimento.

O mercado terá todo o estímulo do mundo de adicionar mais risco e apostar num Brasil melhor. Os estrangeiros também terão mais ânimo para entrar com um novo fluxo de capital, a fim de investir no “novo Brasil”. Tomara!

Já nos juros de curtíssimo prazo, o mercado começou a apostar no aumento das chances de o BC promover duas quedas (em vez de uma) de 25 pontos-base na taxa Selic — aposta que já acho um pouco pior.

O “evento Lula” não muda a inflação de curto prazo — ou a aceleração ou não dos preços de alimentos. Ele só muda a visão de longo prazo do país, com consequências no máximo para o “juro neutro” — o juro estrutural de longo prazo.

A valorização cambial influencia na inflação corrente, com uma defasagem de até seis meses. E isso poderia ter algum impacto nas projeções. Mas o câmbio está longe de ser o maior efeito. E se o IPCA de janeiro confirmar a aceleração de alimentos e dos núcleos do número de dezembro, a recomendação técnica seria o BC não forçar muito na queda da Selic.

Ou seja, para aqueles que estão apostando na Selic a 6,5% via DI curto, eu recomendaria aproveitar essa contaminação pela queda forte do longo, e pensaria em zerar a posição. Não acho que valha a pena o risco em relação ao retorno adicional.

Qualquer realização lá fora com IPCA mais forte por aqui pode levar o mercado a contestar quedas adicionais.

O grande prêmio nos juros, como vinha alertando você, está no longo prazo mesmo.

No mais, vamos continuar de olho.