Mágica: a fórmula ou a montanha?

Tudo que lhe é vendido aparece como a fórmula mágica. A verdade em finanças, porém, é que não há fórmula mágica alguma.

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Mágica: a fórmula ou a montanha?

Se você estivesse gravemente doente e lhe fosse oferecida a possibilidade de operação com 90 por cento de chance de sair vivo, você toparia a cirurgia?

E se, diante do mesmo estado de saúde, lhe apresentasse uma operação com chance de 10 por cento de morte, aceitaria?

Perguntados se gostariam de participar de uma cirurgia com 90 por cento de chance de sobrevivência, 82 por cento dos pacientes com câncer no pulmão no começo dos anos 80 optaram pelo aceite.

Já quando questionados se aceitariam ser operados, num procedimento com 10 por cento de probabilidade de morte, apenas 54 por cento dos respondentes, participantes de amostra com as mesmas características, ou seja, havia rigor científico no estudo, optaram pela cirurgia.

Obviamente, trata-se da mesma cirurgia e, portanto, se fôssemos perfeitamente racionais, deveríamos nos mostrar igualmente dispostos a aceitar a cirurgia com 90 por cento de chance de sobrevivência e a operação com 10 por cento de chance de fracasso.

Isso é um problema devidamente documentado pela literatura, batizado de framing pelas Finanças Comportamentais. Reagimos de maneira diferentes ao mesmo problema, a depender da forma como nós é apresentado.

Eu fico pensando quantos cirurgiões, de forma deliberada ou não, disseram aos seus pacientes se eles gostariam de participar de uma cirurgia com 90 por cento de chance de sucesso, em vez de 10 por cento de probabilidade de fracasso, apenas porque era de seu interesse dar consecução ao procedimento cirúrgico.

Eu fico pensando em quantos vendedores de produtos financeiros oferecem produtos com 90 por cento de chance de sucesso. Enquanto o vendedor de um produto estiver remunerado pelo sucesso da estratégia comercial, sem correlação com a qualidade do produto em si, ele encontrará a melhor forma de apresentar aquilo ao potencial comprador de modo a maximizar as vendas, negligenciando riscos.

Tudo que lhe é vendido aparece como a fórmula mágica. A verdade em finanças, porém, é que não há fórmula mágica alguma. O processo de investimento, assim como qualquer outra coisa do mundo real e fora dos livros-textos de Microeconomia ou Financial Economics, avança necessariamente por tentativa e erro.

O maior e melhor gestor brasileiro abre a carta de 20 anos de seu mitológico fundo fazendo referência explícita à trajetória de perseguição de retornos assimétricos. Ou seja, ninguém tem fórmula mágica. Erra-se e acerta-se, assimetricamente se você for bom – ou seja, mais acerta do que erra e/ou acerta grande e erra pequeno.

Só para registro e devida correção: até existe formalmente um negócio chamado Magic Formula. Ela aparece no já clássico The Little Book that Beats The Market, de Joel Greenblatt. No fundo, porém, nada mais é do que a consolidação e um passo a passo de técnicas de value investing, sintetizadas na perseguição por elevado earnings yield (Ebit/enterprise value), ações baratas e algo retorno sobre o capital (Ebit/ativos fixos líquidos + capital de giro).

São nove passos, grosso modo:

  1. Faça uma triagem por capitalização de mercado, normalmente acima de US$ 50 milhões;
  2. Exclua utilities e ações do sistema financeiro;
  3. Exclua ações estrangeiras;
  4. Determine o earnings yield de cada companhia;
  5. Determine o retorno sobre capital de cada empresa;
  6. Faça um ranking de todas as empresas da amostra a partir dos maiores earnings yields e maiores retornos sobre o capital;
  7. Invista em 20 a 30 companhias do topo deste ranking, acumulando duas ou três posições por mês, ao longo de um período de 12 meses;
  8. Rebalanceie o portfólio uma vez por ano, vendendo as perdedoras uma semana antes do final do ano e as vencedoras uma semana depois da virada do ano;
  9. Refaça o procedimento e continue pelo longo prazo.

 

Nos cálculos dele, o método supera o S&P 500 em 96% do tempo, com uma média de retorno anual de 30%.

Treinado na escola cética, eu respeito as fórmulas, mas ainda gosto mesmo é da Montanha Mágica.

Vamos escalando o mundo real num embate dialético entre o velho e o novo. Aos trancos e barrancos, seguimos em direção ao topo da montanha. Vitória da situação na votação contra denúncia sobre Temer por placar elástico traz hipótese de dar continuidade à pauta das reformas ao centro do debate. É evidente que não há garantia alguma sobre a Previdência. Como diria o poeta Luxemburgo: “uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”. Mas é evidente também que mostra força da base, mesmo sem o PSDB e com uma série de ausências.

Cenário ainda é obscuro e cheio de incerteza e percalços. Mas, com uma arma na cabeça e tendo de optar entre o sim e o não, diria que alguma Previdência passa. Longe da ideal, mas suficiente para ser bem recebida num momento de total complacência com riscos. No bull market, ninguém faz muita conta.

Talvez vá nos custar uma Eletrobras. Talvez a meta fiscal deste ano. Uma pena, mas se assim for necessário, eu topo a troca. O mundo real não é mágico nem perfeito. É o que é. E estou aqui para fazer você ganhar dinheiro. No bar, discutimos filosoficamente o Brasil e deterioração adicional de questões distributivas.

Agenda é fraca hoje por aqui. Nos EUA, temos pedidos de auxílio-desemprego, encomendas à indústria e PMI Serviços. Banco da Inglaterra manteve taxa básica de juro, mas cortou projeções de crescimento.

Mercados, em geral, pendem para o vermelho, mas com variações modestas. Faltam drivers depois do rali recente e alguma pressão por realização de lucros parece mais do que natural.

Ibovespa Futuro abre em ligeira queda de 0,1 por cento, dólar está praticamente no zero a zero contra o real e juros futuros também,

Encerro com um brevíssimo esclarecimento sobre a excelente nota da Bloomberg ontem. Não posso levar um mérito que não me pertence. O “screaming buy” identificado ontem não veio originalmente de mim. Sergio Oba é quem fez o estudo todo durante o último bimestre. Com o brilhantismo e a diligência de sempre – falo sem medo de errar que se trata de um dos melhores analistas do Brasil -, ele trouxe a ideia ao comitê e apresentou o caso ao plenário. Aprovada por 30 votos a 2, a matéria foi apenas sancionada depois. Sergio assina o Serious Trader e, agora, também o Vacas Leiteiras, em versão melhorada – podem me cobrar. Ele acaba de marcar mais um golaço.

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