De volta para o futuro

00Visitei os Estados Unidos pela primeira vez em 1981. Passados tantos anos, ainda lembro vividamente do andar térreo da então sede da Polícia Federal, em […]

00Visitei os Estados Unidos pela primeira vez em 1981.

Passados tantos anos, ainda lembro vividamente do andar térreo da então sede da Polícia Federal, em São Paulo, onde fui obter o passaporte para a minha primeira viagem internacional.

Era uma repartição apertada e barulhenta, mas desfrutei de cada momento, me imaginando um viajante internacional, esperando a autorização para partir.

Semanas depois, meu pai me entregou o caderninho verde… novo em folha. Transferiu-me a responsabilidade de cuidar eu mesmo do documento.

E assim o fiz. Passaporte devidamente guardado na minha gaveta da escrivaninha, com outras relíquias de um menino de 13 anos.

A mais valiosa, sem dúvida, era o caderno de autógrafos do Corinthians Campeão Paulista de 1979. As assinaturas foram coletadas durante uma visita ao Parque São Jorge promovida pelo meu primo Gilberto. Ter conhecido pessoalmente Sócrates e Palhinha, meus ídolos absolutos, na idade em que nada é mais importante que futebol, é uma das memórias mais alegres da minha infância.

Pouco antes da viagem, meu pai pediu o passaporte de volta. Precisava comprar dólares. Curioso, quis entender por que ele precisava do meu documento de viagem para comprar a moeda americana.

“Filho, todos temos direito a comprar uma cota de dólares quando vamos viajar e, como somos quatro aqui na família, vou comprar o equivalente a cada um de nós.”

Imagino que deva ter sido mais ou menos assim a explicação que ouvi.

Dias depois, o passaporte me foi devolvido, já com um primeiro carimbo mesmo antes da viagem. Comprovava que eu havia exercido meu direito de comprar dólares na cotação oficial.

Sem compreender à época os meandros do mercado de câmbio (não entendo até hoje!), eu tinha uma noção de que o acesso a dólares era escasso e, portanto, controlado.

O Cid Moreira comunicava todas as noites, no Jornal Nacional, o valor da cotação do dólar oficial e do dólar paralelo, e a grande diferença era suficiente para que um menino entendesse que comprar algo mais barato era um privilégio.


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Semanas depois, durante a viagem, pude ver os traveler’s checks do meu pai (da American Express) que iam sendo trocados a cada compra. Completando o funding da viagem, ele carregava também dólares em papel-moeda, devidamente adquiridos com o doleiro da agência de viagens.

Enfim, era um rolo.

Não sei o que impressionaria mais o Moacir (meu pai) se ele fosse teletransportado para os dias de hoje. A tecnologia que permite fazer transferências internacionais por meio de um aplicativo de celular ou a possibilidade de comprar dólares livremente, quando e como você bem entender.

O dinheiro virou bits de informação e circula junto com a profusão de dados que jorram todos os dias dos meios digitais. Tudo conectado e instantaneamente.

E, mesmo assim, quando se trata de investimentos, ainda estamos presos no passado longínquo, junto com carros de duas portas e computadores Prológica.

Olhamos os mercados internacionais apenas como referência e influência do que acontece aqui, não como oportunidades a serem aproveitadas.

Apesar de seu gerente ou assessor não lhe contarem – nem podem por restrição do Banco Central –, não existe absolutamente nada que nos impeça legalmente de investir lá fora com a mesma naturalidade com que aplicamos em um fundo DI.

Apple, Google, Facebook, Nike fazem parte do nosso dia a dia. Assim como velhos conhecidos, como Volkswagen, GM, Coca-Cola, McDonald’s, Nestlé… e por aí vai.

Investir em ações internacionais deveria ser tão natural quanto assistir a uma série na Netflix ou ouvir uma playlist no Spotify.

O Brasil parece estar melhorando, cada vez mais distante de delírios socialistas. Ainda assim, devemos sempre manter a cautela e proteger parte do nosso patrimônio das eventuais tempestades tropicais.

Um abraço!

Caio

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