M5M_Financistas versus açougueiros

Engana-se quem pensa que a personificação do mercado financeiro é aquele banker estilo boneco Ken todo engomadinho que dá entrevistas enfadonhas na Bloomberg.

M5M_Financistas versus açougueiros

00:01 - Gritaria

Me lembro nitidamente da fascinação que os tópicos de finanças exerciam sobre mim nos tempos de faculdade. Acreditava piamente, confesso, que a realidade se curvava a todas aquelas equações dos livros.

Não foi preciso muito tempo vivendo a coisa na prática para perceber que estava redondamente enganado. Constatei imenso o tamanho de minha própria arrogância.

Engana-se quem pensa que a personificação do mercado financeiro é aquele banker estilo boneco Ken todo engomadinho que dá entrevistas enfadonhas na Bloomberg.

(Aliás, já perceberam como eles sempre têm o mesmo olhar vazio, hipnotizado, quando repetem aqueles mantras de sempre? Blá, blá, blá…)

O discurso do financista padrão faz com que a imaginação destreinada vislumbre uma mesa de operações financeiras como se fosse um ambiente tão estéril quanto a homônima hospitalar. Está mais para um açougue. Em condições sanitárias altamente questionáveis. A depender da temperatura — da sala e do mercado —, até o cheiro se assemelha.

Não há espaço para abotoaduras nos punhos de quem passa o dia de mangas arregaçadas. Gravatas de jacquard não combinam com colarinhos abertos (que aliás mal fechariam, por conta dos pescoços gordos).

O mercado é gritaria, tal qual almoço de domingo de família italiana (ou grega). Há muito de emoção envolvido — estão no mercado alguns dos indivíduos mais histriônicos que já conheci.

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01:21 - Foi bom foi bom foi bom

Por que faço essa digressão?

Nos deparamos hoje com dois exemplos de situação em que a impulsividade dos operadores se sobrepôs à análise fria.

O primeiro veio na divulgação dos dados de emprego nos Estados Unidos. Uma primeira vista, apressada, deu a entender que o dado era fraco — pois bem inferior a Agosto e aquém do consenso. Reação imediata consistiu de vozes apostando no diferimento do aperto monetário do Fed em dezembro.

Se você procurar, encontrará notícias de hoje mais cedo sugerindo que o dado era ruim.

Eis que, após um pouco de reflexão, mercados se convenceram de que a base de comparação de agosto era demasiado forte; que o número de vagas geradas em setembro segue compatível com uma dinâmica econômica saudável. E tudo ficou como antes no quartel de Abrantes.

Conheci tempos atrás um operador de Bolsa que, a cada dado econômico ou corporativo que era divulgado, ligava desesperadamente para os clientes? Repetia freneticamente “FOI BOM FOI BOM FOI BOM” ou “FOI RUIM FOI RUIM FOI RUIM” a depender da circunstância: atirava primeiro, perguntava depois.

Isso é mais comum do que você imagina.

02:18 - Foi ruim foi ruim foi ruim

O segundo fato: a Bloomberg está coalhada de matérias apontando para um agudo aumento das preocupações com os impactos do Brexit sobre o Reino Unido, em sequência à forte queda da cotação da libra esterlina observada na madrugada, na Ásia.

Uma fila de financistas sem alma se formou para repetir o discurso que foi sistematicamente difundido nas semanas que se seguiram ao resultado do referendo, todos prontos para apontar orgulhosamente a oscilação da moeda como evidência de que suas profecias apocalípticas estavam se confirmando.

Qualquer semelhança com o discurso de “fim do capitalismo” que todo bom militante de esquerda tem na ponta da língua não é mera coincidência. Os extremos da ferradura se aproximam.

Eis que constatou-se que, muito mais do que fruto da formação de um juízo de que o Reino Unido caminha para o abismo, a onda de vendas observada decorria de uma torrente de ordens disparadas por um algoritmo de trading. Estão todos até agora sem entender direito o que se passou.

É pouco mais do que a versão 2.0 do famoso “dedo gordo”: ao invés de colocar uma ordem de venda de 1.000 ações, o operador se confunde e vende 1 milhão, derrubando o papel e gerando um problemão.

03:02 - Só depois do apito do juiz

Por aqui, grande destaque econômico foi o IPCA. Zero vírgula zero oito… há quanto tempo não víamos um índice tão baixo?

Estamos diante de condições cada vez mais interessantes para a queda dos juros. A bem da verdade, faz calor aqui na Empiricus em função de nossas discussões quanto ao ritmo da queda: 0,25 ou 0,50?

O Copom pode optar por cautela e ficar nos 25 pontos, mas há motivos crescentes para crer que o ritmo de queda dos juros ao longo das próximas reuniões tem espaço para acelerar.

Quanto mais o mercado ficar comprado nessa ideia, mais será antecipado na curva — para a alegria dos comprados em pré — meu caso, aliás.

04:13 - Pergunta o preço para o dono

Companhias americanas estão reduzindo o ritmo de seus programas de recompra de ações.

Ao longo do primeiro trimestre, as empresas gastaram 166 bilhões de dólares adquirindo os próprios ativos no mercado — uma alta de 15 por cento em relação ao ano passado. Já no segundo trimestre, compras totalizaram 127 bilhões, praticamente em linha com o registrado no ano anterior e 21 por cento a menos do que o visto no começo do ano.

Programas de recompra são frequentemente vistos como sinalização da percepção das próprias companhias com relação ao preço de seus ativos: “minhas ações estão tão baratas que comprá-las-ei (obrigado, Temer) eu próprio”.

Sob este prisma, qual é a mensagem quando as compras arrefecem?

Em tempo: S&P500 nos últimos 5 anos.

Minuto Extra: Ele não gostou

Quer um incentivo adicional para assinar nossa petição em favor da PEC 241? O Zé de Abreu (aquele do lixão…) não gostou da iniciativa:

Não esquece o casaquinho, Zé.

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