M5M_Não é a mamãe

Imagine o Baby da Silva Sauro, mas com a rouquidão típica do tabagista inveterado.

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M5M_Não é a mamãe

00:11 - Da Faria Lima para a Sé

“Vou levar você para conhecer algumas pessoas”, me disse Susumu — meu Senhor Miyagi da análise de investimentos, do qual já falei por aqui. Eu tinha poucos anos de mercado, mas já era minimamente versado na fauna da Faria Lima. Imaginava que tínhamos pela frente algumas reuniões em salas impecáveis de arranha-céus de mármore, vidro e aço, com saguões de pé-direito triplo, jovens recepcionistas de beleza clássica e copeiros de luvas brancas.

Bastou tomarmos a Nove de Julho na direção do Anhangabaú ao invés de seguirmos rumo à Marginal Pinheiros para que eu compreendesse que não era isso que ele tinha em mente. Nossa reunião era em um prédio velho e acanhado nas proximidades da sede da bolsa — onde eram os escritórios de todos que tinham no mercado sua lide nos tempos em que o mercado financeiro era analógico.

Ao invés de mármore, a decoração abusava do lambri de madeira. A recepcionista beirava os 60 e vestia óculos cujo modelo havia saído de moda há pelo menos 30. Encaminhou-nos a uma sala cuja porta ostentava uma placa surrada ,de acrílico vermelho com letras brancas: “DIRETORIA”.

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01:00 - Não é mamãe

Havia uma verdadeira neblina lá dentro, produzida pelos cigarros que eram fumados em série por nosso anfitrião, um sujeito gorducho e careca, cujos dentes muito pequenos faziam um desavisado pensar que se tratava de um desdentado. Imagine o Baby da Silva Sauro, mas com a rouquidão típica do tabagista inveterado.

Após breves apresentações, fomos ao que interessava: “E aí, o que tá achando do mercado?”, perguntou Miyagi ao Sauro. Acendeu outro cigarro, recostou-se na velha cadeira de couro de espaldar altíssimo, soltou um grunhido e respondeu: “Ah, Susumu, o mercado continua a putaria de sempre: sempre tem o que comprar, sempre tem o que vender.”

Confesso que não era bem o que esperava ouvir: me juntei à conversa e falei de câmbio, do risco-país, do momento único que vivia nosso mercado de capitais. A resposta foi um olhar de profundo tédio. Voltou-se ao Miyagi e perguntou: “ouviu a última da Cobrasma?”

02:28 - Tá caro, tá barato

E seguiram falando de empresas de uma maneira peculiar: “Acesita está barata, Tubarão também. Estou comprando Telebahia.” Esperava que a sentença fosse sucedida de justificativas, mas eles apenas se entreolhavam em concordância. Arrisquei um “barata por quê?” e não obtive resposta melhor do que “está barata, garoto, vai por mim.”

Me recolhi e assumi até mesmo uma postura um tanto arrogante. Estava convencido de que aqueles dinossauros sabiam o preço de tudo, mas o valor de nada. Mal sabiam usar uma HP-12C — se muito, recorriam à matemática elementar nos guardanapos de papel dos pés-sujos do entorno. Eu havia estudado muito e certamente tinha muito mais embasamento em minhas opiniões.

Fui embora convicto de que aquela reunião havia sido um monumental desperdício de tempo. Algum tempo depois, constatei que todas as recomendações do velho Sauro haviam dado certo.

03:04 - O resgate do conhecimento perdido

Depois de muito tempo compreendi: aqueles dinossauros detinham um conhecimento não-verbal do funcionamento do mercado, muito diferente daquelas elegantes construções teóricas que são ensinadas no Insper e na FGV. Eles eram ferro bruto forjado à base de marteladas no calor do pregão viva-voz na XV de Novembro.

Esse conhecimento se perdeu: aqueles gigantes criaram atalhos em seus caminhos na Terra construindo pontes de safena. Os jovens arrogantes, como eu, não se preocuparam em beber daquelas fontes.

Do pouco que consegui absorver e preservar, vejo grande semelhança com os princípios do sistema do Sergio Oba. Não há ali nada de novo, senão um esforço de sistematização daquelas estratégias com as quais aqueles titãs fizeram história, mas não sabiam ensinar.

Resta saber se a geração atual saberá preservar os resquícios que o Sergio conseguiu resgatar ou se, daqui a alguns anos, uma nova geração de financistas saídos das fraldas sentará diante dele com a mesma postura que eu encarei o Sauro — para muito me arrepender, anos depois.

04:14 - Dia de marasmo

Desculpem-me pela longa digressão, mas o marasmo do dia é propício a memórias.

Nova York opera quase estável enquanto traders avaliam a trajetória de juros nos EUA à luz dos últimos dados econômicos divulgados, que apontam em direções conflitantes. Correndo por fora, reações pontuais a resultados corporativos. Na Europa o tema é a atividade econômica fraca e alguma aceleração na inflação — que, ainda assim, segue muito abaixo da meta do BCE.

Por aqui, seguimos próximos do zero-a-zero em um dia de poucos destaques. Apostas nos próximos passos do Copom, principalmente após a redução do preço dos combustíveis anunciada pela Petro no final da semana passada, são o único jogo do dia.

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