M5M_Uma feliz alucinação

A dor diminuiu bastante, mas talvez o efeito mais marcante do coquetel medicamentoso que me foi prescrito tenha sido a leve alteração de percepção da realidade que me provocou.

M5M_Uma feliz alucinação

00:07 - "Vá devagar"

Ontem à tarde, em meio a uma crise de coluna, precisei ir a um pronto atendimento. A dor diminuiu bastante, mas talvez o efeito mais marcante do coquetel medicamentoso que me foi prescrito tenha sido a leve alteração de percepção da realidade que me provocou. Estava lá, semi-dopado, assistindo ao ballet de enfermeiras, quando percebi que o sujeito no leito logo em frente carregava um semblante que me era familiar.

Susumu Iwayama foi um de meus primeiros mestres. Analista da velha guarda, me contava dos tempos longínquos em que as empresas divulgavam resultados afixando-os em um mural de cortiça na sede da Bolsa — e os analistas se espremiam no entorno, quase como vestibulandos em torno do listão de aprovados. Não foram poucos os ensinamentos que ele me transmitiu: procure negócios com resultados sustentáveis, não pague demais por crescimento, preste atenção a quem é o acionista controlador, entenda a história da empresa… Confesso que só vim a entender a real profundidade daquelas lições anos depois, quando já encontrava os primeiros fios de cabelos brancos e minha coluna já apresentava a conta por anos de desleixo. Antes tarde do que nunca.

Mas sua lição mais importante foi outra: “O mercado reage rápido demais, muitas vezes sem entender direito as coisas. Se quiser entender de verdade, vá devagar.” Basta passar algum tempo perto de um operador de bolsa para entender o porquê. Se for um veterano dos tempos do pregão viva-voz, melhor ainda: o primeiro que conheci era um sujeito baixinho, careca, de olhos esbugalhados, que falava e suava sem parar. São, por natureza, sujeitos de ação (e de ações!), não de reflexão.

Cochilei e, ao acordar, o leito estava vazio. Pouco importa: Susumu deixou este plano há alguns anos e, portanto, minha visão era fruto dos medicamentos. Em uma de nossas últimas conversas, meu mestre profetizou: “Um dia você vai ficar rico, menino.” A taxa de acerto do japonês era alta e espero que esse call também seja certeiro. A receita para isso, ele deu: “Se quiser entender de verdade, vá devagar.”


Obrigado, mestre.

01:15 - Estudando na véspera

Mercados nervosos. Hoje, às 15h, será divulgada a ata do FED. Após declarações de tom um tanto surpreendentes de Dudley e Lockhardt, ontem, o mercado saiu correndo para rever premissas. Qualquer semelhança com aquele estudante que passou o semestre inteiro jogando sinuca no diretório acadêmico e virou a madrugada estudando na véspera da prova final não me parece coincidência.

Vinha alertando para o excesso de euforia dos mercados globais. Avisei que uma elevação de juros nos EUA poderia fazer ativos de risco sacudirem. Até ontem, a questão era tratada como algo pertencente a um futuro distante. Hoje, agem como se fosse ocorrer semana que vem.

Continuo com a cabeça em dezembro. E sim, o nível de preço dos ativos lá fora, muito próximo da máxima histórica, é um fator de atenção diante dessa perspectiva. Mas disso também já falamos, não é mesmo?

Devagar, gente. Devagar.

02:01 - Colocando na reta

Coisas que não inspiram confiança: cabeleireiro careca, nutricionista obeso, dentista com sorriso de Príncipe Charles, filósofa que morre de amores pelo Lula, linguista que fala “presidenta”… e financistas que não investem nas próprias recomendações.

Onze em cada dez profissionais de investimento justificarão que não o fazem por conta das regras da CVM, que visam impedir manipulação do mercado. Só esquecem de contar que tais regras não os impedem de comprar o que estão recomendando depois de transcorrido o prazo estipulado pela autarquia.

Pois bem. O Felipe tanto acredita nas recomendações de investimento que apresenta no Contragolpe que amanhã, 18 de agosto de 2016, ele investirá 100 mil reais do próprio patrimônio comprando os mesmíssimos ativos que indicou.

O maior ativo da Empiricus é sua credibilidade, conquistada dando a cara a tapa sistematicamente. Não há maneira mais efetiva de reafirmar nossa convicção em nossas teses de investimento do que fazendo exatamente o que recomendamos que você faça.

03:09 - Prometendo demais

Benjamin Steinbruch resolveu colocar a boca no trombone e prometer mundos e fundos aos acionistas de CSN (CSNA3). Está apostando alto na recuperação da siderurgia no mercado doméstico e na sustentabilidade dos preços do minério de ferro lá fora.

Devagar, Benjamin, devagar. Acreditamos, sim, que as coisas vão melhorar. Mas religar alto forno tão rápido assim pode ser precipitado: nesse ponto, aliamo-nos à prudência do pessoal da Usiminas, que já disse que atenderá à retomada do mercado primeiramente comprando placas. E, no preço do minério, a gente não acredita não.

CSN precisa vender ativos. Anunciaram que anunciarão (sic) a venda da Metalic, fabricante de latas, mas poxa… isso é minúsculo ante as reais necessidades da empresa. Dívida Líquida/EBITDA está acima de 8 vezes e obrigações se avolumando a partir de 2018. Será necessário vender coisa grande. Tecon de Sepetiba, certamente. O que mais? Uma participação na Congonhas Minérios, talvez?

Em tempo: sabemos bem que, na verdade, a dívida é maior do que está sendo reportada. Isso por conta do que não está consolidado. Transnordestina Logística, por exemplo.

Por essas e por outras, somos vendedores de CSNA3.

04:12 - Antes só do que mal-acompanhada

Dilma confirmou que irá ao Senado se defender em seu julgamento. Melhor irmos comprando pipoca, amendoins e demais petiscos, pois isso vai ser bom.

Na carta divulgada ontem, a presidenta parece ainda acreditar que tem chances de voltar ao cargo. Faltou combinar com o próprio partido, penso eu.

Dilma está só. Ou quase. O problema é que as últimas companhias simplesmente não ajudam…
Com um time desses, nada pode dar certo.

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