M5M_Uma (longa) conversa sobre Vale

Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu venho sistematicamente cauteloso com as ações da Vale praticamente desde que entrei na Empiricus.

M5M_Uma (longa) conversa sobre Vale

00:01 - Resumo de hoje

A quem busca uma leitura do dia de hoje, serei sucinto: nossa bolsa opera em alta moderada, com predominância de nomes ligados ao mercado doméstico. Juros longos têm leve queda. Destaque local é a trágica morte de Teori Zavascki, e seus potenciais desdobramentos no que tange à condução da Lava-Jato.

Lá fora, todas as atenções voltadas à posse de Trump. Bolsas operam sem oscilações significativas: investidores, como habitual, buscarão na cerimônia de posse qualquer sinal que porventura confirmem ou rejeitem suas expectativas a respeito de como efetivamente será o governo que se inicia. Imprensa, como também habitual, lançará mão de absolutamente qualquer coisa para falar mal

Se você está com pressa, pode parar de ler o M5M aqui: tudo o que segue pode ser lido depois, com a calma que merece.

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00:40 - Nunca conheci quem tivesse levado porrada

Em uma década de mercado, já defendi muita bobagem. Parte delas está disponível publicamente para quem quiser ver: se você tiver acesso a um terminal Bloomberg, escreva meu nome para acessar parte significativa dos relatórios dos quais fui autor ou coautor, entre 2013 e 2015 — período no qual atuei no sell-side.

Exemplos? A produção da indústria automobilística como um todo deve ter encolhido uns 50 por cento além do nível que eu tinha absoluta convicção ser o fundo do poço. Antes, acreditei que o mercado absorveria 30 mil novos ônibus por ano numa boa, ad aeternum.

Antes disso, no buy-side, sucumbi a teses que o tempo provou serem igualmente esdrúxulas e indefensáveis. Acreditei que Positivo — à época, na casa dos 30 reais — continuaria em trajetória meteórica de crescimento vendendo desktops para uma nova classe média cujo principal critério de decisão era a beleza do gabinete do desktop (computador era enfeite na sala e notebooks seguiriam destinados a públicos mais abastados). Acreditei que Marfrig era melhor que Sadia (esta quebrou, mas reconheço que é um caso de right for the wrong reasons). Acreditei que Bematech era a tech company mais promissora da bolsa.

01:23 - Culpa judaico-cristã

E, quando a hora do soco surgiu, me agachei para fora de sua possibilidade: em 2009, no auge da crise, arguí que era uma temeridade comprar Gerdau — cujo valor de mercado era, então, menor do que sua posição de caixa.

E muito mais. Poderia discorrer por dias e dias sobre todos os erros que já cometi, cujas lembranças carrego dentro de mim na forma de feridas abertas que nunca deixaram de doer; culpas que nunca consegui expiar e, provavelmente, me acompanharão para sempre. Golpeio brutalmente meu próprio ego ao reconhecer que carrego em meu íntimo enorme alívio por não ter sido ouvido em algumas de minhas ideias, que o tempo se encarregou de dizimar.

É evidente que também acertei: ainda que fosse o analista mais incompetente de todos os tempos, até um relógio enguiçado fica certo duas vezes ao dia. Mas para os acertos não olho de outra forma senão como mero cumprimento de minha obrigação — agradeçam à minha mãe, que assim me condicionou ao longo da infância e adolescência.

Sou um indivíduo cuja alma é saturada de culpa judaico-cristã. Isso, somado ao fato de ter escolhido para minha vida um ofício no qual o que digo ou deixo de dizer traz consequências de magnitude significativa, é receita infalível para um nível permanentemente elevado de angústia.

02:15 - Péssimo analista

Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu venho sistematicamente cauteloso com as ações da Vale praticamente desde que entrei na Empiricus. Revirando notas antigas, constato que já era este meu viés em julho de 2016. No começo de agosto, dediquei um minuto do M5M PRO para explicitamente recomendar que um leitor se desfizesse de VALE5. Meu argumento era o seguinte:

Meu ceticismo com relação à China permeia o M5M. (…) Se [o minério de ferro] voltar — e eu acredito que vai — para algo em torno de 50 dólares, leva Vale junto. (…) Eu dormiria melhor sabendo que deixei de vender no topo, mas realizei um ganho substancial, do que me preocupando se o próximo dado econômico de Pequim fará, enfim, o mercado acordar.

M5M PRO, 08/08/2016

O minério era, naquele dia, negociado no porto chinês de Qingdao a 61 dólares. Os meses subsequentes foram de pequena desvalorização — chegou a uns 55. A partir de outubro, preços subiram vigorosamente e chegaram ao recorde de 83 dólares. Em relação ao preço no qual recomendei que o leitor vendesse, VALE5 acumula valorização de mais de 80 por cento.

É fácil imaginar o teor dos emails que recebi (e continuo recebendo). Um em particular me marcou e habita minha caixa de entrada até hoje:

Ricardo,

A diferença entre o bom e o mau analista é, sem dúvida nenhuma, a qualidade de suas análises. O bom analista é aquele que acerta a maioria de suas análises; o mau, justamente o contrário. Nem o bom acerta todas, nem o mau erra todas.

Já o péssimo analista — que é o seu caso — é aquele que não só erra na análise como, não querendo reconhecer seu erro, fica brigando com a realidade; inventando desculpas para escondê-los.

— Mário A.

Mais uma culpa inexpiável para a coleção.

02:58 - Síndrome do impostor

Assumi este M5M em julho do ano passado.

A despeito de esta caminhada ter sido repleta de momentos extremamente gratificantes até aqui, não há um único dia no qual eu não questione, no meu íntimo, minha própria capacidade de corresponder às expectativas que Caio, Felipe, Rodolfo e todos os leitores em mim depositam. Há aqui dentro todos os sintomas da síndrome do impostor.

Reconheço minha humanidade — e, não tendo sido sagrado Sumo Pontífice, minha falibilidade. Não há uma única semana na qual eu não faça uma longa auto-análise, escrutinando minhas teses em uma busca sem fim por deformidades graves decorrentes dos vieses cognitivos aos quais eu,homo sapiens sapiens, estou inevitavelmente sujeito.

E faço o possível para depurá-las, consciente de que este é um trabalho de Sísifo: jamais estará completo, e estou fadado a eternamente recomeçá-lo do zero.

03:47 - Questão de credibilidade

É tarefa extremamente árdua emitir opiniões, pública e recorrentemente. Não enxergue aqui qualquer traço de queixa ou arrependimento: amo o que faço. Isto não significa, entretanto, que fazê-lo seja fácil.

E é particularmente difícil quando sua visão é confrontada com elementos, de maior ou menor significância, que sugerem que sua leitura possa estar errada. Neste caso em particular, evidentemente me refiro ao fato de o preço do minério de ferro — e, em magnitude ainda superior, as ações — terem seguido em direção totalmente contrária à que eu publicamente declarei acreditar.

E, a cada dia, a continuidade desta discrepância mina mais e mais a credibilidade de minha opinião. Eu sei perfeitamente disso.

04:07 - Eu não consigo

Assim, redobro o esforço em tentar compreender a conjuntura e interpretá-la. A que conclusões eu chego?

Às mesmas de antanho.

Eu não consigo enxergar bases razoáveis para defender a sustentabilidade do patamar atual dos preços de minério de ferro quando concilio a curva de custos da indústria com um amplo leque de cenários de demanda futura.

Ainda mais, eu não consigo pactuar com uma tese de investimento que se sustenta em China, país cujo modelo me parece insustentável, a cujos dados reajo rotineiramente com estupefação, descrença e, não raro, ambos…

…muito especialmente diante da possibilidade (não desprezível) de caminharmos para mudanças substanciais nas relações de forças geopolíticas, com reflexos inescapáveis no âmbito econômico.

04:31 - Ofereço em holocausto o meu nome

Talvez não devesse — sob o risco de por a perder o pouco de sanidade que me resta — mas me sinto pessoalmente responsável pelas decisões de investimento de todos que sejam influenciados de alguma forma pelas minhas opiniões.

Isto me impõe escolhas sobre quais riscos estou disposto a correr.

Eu me disponho a correr o risco de fazer você perder uma oportunidade de ganhar. E, por conta disso, ter que lidar com sua ira e descrença.

Isto porque não ganhar é preferível a perder. Eu posso conviver com a sua indignação porque, por minha causa, você deixou de aproveitar uma oportunidade — analisado a posteriori, tudo fica óbvio.

O que eu não me disponho, em absoluto, é de compactuar que você incorra em um risco que me parece imenso. Pela simples razão de que, se porventura o cenário que eu temo se concretizar e você estiver desprevenido, você vai perder. Muito. E, com isto, eu simplesmente não conseguiria conviver.

Insisto na mesma recomendação já feita outras vezes: fique fora de Vale. Permita-se deixar de ganhar se, porventura, eu estiver errado desta vez como estive em tantas outras.

Prefiro assim: ofereço em holocausto o meu nome — escolho este meio de estar sempre convosco.

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