S02E23 – O Homem Que Copiava

Assim como as “estações” se repetem, o mercado financeiro adora criar diversas novas preocupações e histórias, mas sempre volta a temas antigos, requentado as teses de sucesso de algum verão passado.

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S02E23 – O Homem Que Copiava

Trilha da semana
The Hollies – The Air That I Breathe

 

O Radiohead está processando a Lana Del Rey por plágio. A música “Get Free” da garota rebelde teria sido mais do que inspirada em “Creep”, que lançou o grupo inglês ao estrelato. Nada contra a Lana – “Born to Die” é ótima, ouço sempre – mas não tem como negar que “Get Free” e “Creep” são, sim, idênticas.

Os ingleses pediram 100% dos ganhos; a americana falou que concordava em pagar 40.

Nada feito e a história vai ser decidida nos tribunais.

A ironia é que a banda de Thom Yorke foi processada por plágio pela composição da própria “Creep” – Albert Hammond e Mike Hazlewood, do Hollies, escreveram a lindíssima “The Air That I Breathe” em 1972 e, resumindo, hoje são creditados na contracapa de Pablo Honey, álbum de estreia do Radiohead, como co-criadores de “Creep”.

Ouça as três músicas e tire suas próprias conclusões – só, por favor, fuja da versão hedionda do Simply Red – talvez a única banda digna de processo nessa história toda: assassinato triplamente qualificado.

As últimas palavras verdadeiramente originais ditas no mundo foram “fiat lux”. Depois disso, tudo é uma grande cópia – ou releitura, se preferir.

“Avatar” é “Pocahontas” no espaço e os dois são piores do que “Dança com Lobos”. “Velozes e Furiosos” é “Caçadores de Emoção” sem ondas (por favor, vamos de Keanu Reeves) e “Sintonia de Amor” e “Mensagem Para Você” têm até os mesmos atores!

Isso sem contar a quantidade enorme de refilmagens e continuações que são lançadas anualmente nos cinemas.

Se não me engano, foi Taleb quem falou: “Se você acha que teve uma ideia genuinamente original é porque não fez uma pesquisa bibliográfica bem feita”.

A escassez de novas ideias não é privilégio de La La Land. No mundo dos investimentos é muito, mas muito difícil mesmo ouvir alguma coisa realmente nova.

A própria ideia dos ciclos econômicos é perfeita para isso – um período de estagnação e baixa confiança, seguido de aquecimento da atividade e retomada da confiança, que se transforma em euforia e ganância até que venham o desespero e a queda que, então, dão lugar a estagnação e desconfiança.

Primavera. Verão. Outono. Inverno.

Se as “estações” se repetem, por que não repetir as teses?

O mercado adora narrativas, cria diversas novas preocupações e histórias, mas está sempre voltando aos temas antigos, requentado as teses que fizeram sucesso em algum verão passado. A gente pega ideias velhas, dá uma bela maquiada e coloca na rua para ser testada de novo.

Em 2014, quando comecei a analisar Vale (VALE3), todo mundo fugia do minério: excesso de capacidade, queda de demanda e desaceleração da China. De fato, a commodity saiu de quase 180 dólares em 2012 e foi buscar os 37 dólares em 2015. Superalavancada e passando por um pesado processo de investimentos, Vale passou por maus bocados (certamente o desastre de Mariana não ajudou).

Hoje, é praticamente consenso um discurso mais construtivo com o papel: melhora de governança, redução da alavancagem e, com a construção da “Nova Rota da Seda” na China, uma forte demanda vai segurar o preço do minério nos próximos anos. Nada muito diferente do que se ouvia nos idos de 2012, quando o minério batia recorde atrás de recorde – troque “Nova Rota da Seda” por “desenvolvimento da indústria chinesa” e pode tocar o barco.

O resultado final é sempre o mesmo: um novo superciclo de commodities pela frente.

E o que dizer dos novos normais?

Nos momentos de euforia e exuberância (racional ou não), há sempre os defensores de que os tempos mudaram – “dessa vez é diferente”. Achar que os mercados vão subir para sempre, que não vai ter mais inflação e que vamos ficar nessa de juros zero para sempre é quase como acreditar que, no fim, Harry e Sally não vão se encontrar naquela festa de Ano-Novo. A não ser que você esteja vendo “(500) Dias Com Ela” (desculpe pelo spoiler), não será o caso. Pertinho do fim do filme, um momento de epifania, os dois se reencontram, corações na tela. Sobem os letreiros e acendem-se as luzes no cinema.

No mercado, por mais que o roteiro seja conhecido e as histórias se repitam, o final feliz não costuma ser o caso para a pessoa física. Quando todo mundo se dá conta de que… bem… dessa vez não era diferente, geralmente o último a saber é o cara que colocou todas as economias em Petrobras ou mandou todo o FGTS para aquele fundo de Vale, recomendação “brilhante” do gerente do banco.

Quem termina sorridente caminhando em direção ao pôr do sol não é nosso herói (ou heroína), mas o investidor profissional que saiu de Petrobras bem antes de você ler as primeiras manchetes sobre o “petrolão”.