Meu último truque: sem plano B

“I don’t know how it happened It all took place so quick But all I can do is hand it to you And your latest […]

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Meu último truque: sem plano B

“I don’t know how it happened
It all took place so quick
But all I can do is hand it to you
And your latest trick”

Your Latest Trick – Dire Straits

 

Encerro 2018 com a sensação de dever cumprido. Por favor, não me entenda mal. Isso não quer dizer que não tenha cometido uma série de equívocos. Aliás, ao contrário. Um defensor da tentativa e erro jamais poderia conectar um bom ano à ausência de falhas.

Por várias e várias vezes, estive errado. Em algumas delas, vergonhosamente, de tão ridículo. Não foram poucas as situações em que fui um completo idiota, falei muito e ouvi pouco; deixei seduzir-me por uma convicção não apoiada em fatos e dados, mas apenas numa opinião, e quebrei a cara. Difícil blindar-se de seus vícios mentais e seus vieses cognitivos — estudá-los é mais fácil do que contê-los na prática. Houve casos em que fui indesculpavelmente imbecil e retardado.

Procuro consolar-me com James Hilman: “somos todos um grande escândalo”. E dessa vez não apelarei a “Poema em Linha Reta”, pois acabo de verificar que tenho par.

Após ter sido tão vil, no sentido mesquinho e infame da vileza (desculpe, não resisti!), eu gostaria de agradecer de coração àqueles que estiveram ao meu lado, mesmo nas horas mais escuras (algumas delas foram bem escuras, agora superadas), e, principalmente, aos cinco leitores desta newsletter — sem vocês, nada disso seria possível.

 

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Apesar dos erros, termino o ano com orgulho — e que isso não se confunda com falta de humildade, porque sei o quanto a sorte esteve ao meu lado (nada contra, continue sempre essa companheira fiel). A razão principal para esse sentimento é ter me mantido leal a mim mesmo, aos “meus” e, sob a ótica profissional – que em meu caso se confunde também com a pessoal pois toco a Empiricus tentando replicar algumas características da Bridgewater e fazê-la uma extensão de minha família – aos nossos assinantes. Esses últimos são o meu senhor, a quem devo obedecer com disciplina espartana, e a mais ninguém.

Como diz repetidamente Jeff Bezos, um empresário menor do ramo de e-commerce mas com certo potencial: “foco no cliente; só isso.” Apenas essa opinião e essa satisfação nos importam aqui.

Se os bancos não gostam da gente, dou de ombros. Ou melhor: aproveito a raiva alheia como combustível para seguir em frente, apenas ampliando a longa fila de inimigos. É um sinal de sucesso: incomodamos o sistema.

Se o regulador do mercado de capitais brasileiro se acha capaz de desenvolver um arcabouço infralegal superior àquele da SEC, em vez de apenas copiar o modelo norte-americano, que ele enfrente na Justiça comum as consequências de sua arrogância.

Se os gestores não indicados pela Luciana reclamam da Empiricus (após, claro, implorar pela opinião favorável da dama de aço da indústria de fundos brasileira), que aprendam a lidar com a rejeição e com a inveja de seus colegas mais competentes devidamente aprovados pelo crivo da série Melhores Fundos de Investimento.

Nada disso importa. O que realmente tira meu sono (e tira mesmo!) é a capacidade de gerar resultados financeiros tão bons ou até mesmo melhores do que o apurado pelos profissionais para nossos assinantes. Esse foi o objetivo da fundação da Empiricus há mais de nove anos — e ele é o mesmo até hoje. Nada supera a sensação de se olhar no espelho e se perceber leal aos seus princípios e propósitos.

No mundo em que vivemos, é preciso coragem para isso, diante da necessidade de enfrentar em bases quase diárias um mecanismo bastante poderoso de interesses estabelecidos. Não sei por quê, mas subitamente me veio à cabeça John Mayer, um dos melhores amigos de Steve Jobs, que o considerava muito inteligente; então você pode ter uma ideia da potência intelectual do cidadão. Ele escreveu um lembrete para si mesmo com o objetivo de estimular-se como compositor, falando mais ou menos assim (desculpe pela péssima tradução livre; lá se vai mais um erro de 2018):

“Seja corajoso. Você não está aqui para se apoiar sobre o que é legal ou descolado. Você está aqui para compartilhar o que realmente ama, mesmo que as pessoas não estejam ligadas exatamente nisso naquele momento. Ande sozinho e registre uma linha atrás de você.

Cante palavras verdadeiras, mesmo se parecerem nonsense. Elas normalmente carregam mensagens do subconsciente.

Finja que você está propositadamente tentando cometer erros e falhas. Isso vai libertá-lo na direção do que é efetivamente grandioso.”

Como não poderia deixar de ser, preciso recuperar Nassim Taleb em meu último texto do ano, pois ele está sempre aqui no meu subconsciente. “Cometer alguns tipos de erros é a coisa mais racional a fazer, quando os erros são de custo baixo, pois eles levam a descobertas. Por exemplo, a maioria das descobertas médicas é acidental. Um mundo livre de erros não teria penicilina, nem quimioterapia, quase nenhum medicamento, e muito provavelmente nenhum ser humano.”

Não desejo um 2019 sem erros pra você. Eu desejo que você aprenda a errar no próximo ano. Isso é importante para sua construção patrimonial ao longo do tempo e o conceito escapa até mesmo aos profissionais mais sofisticados dessa indústria.

Tecnicamente, o problema a que estou me referindo se chama “dilema viés-variância”. Esse mecanismo indica como obtemos melhores resultados cometendo certos erros.

A imagem acima oferece o resultado de dois bolsominions típicos e caricatos se divertindo em algum clube de tiro qualquer. Qual se deu melhor?

O primeiro atirador tem um viés, um erro sistemático. É claro, porém, que, apesar desse problema, ele chega muito mais perto do alvo do que seu colega. Além disso, ele evita a ruína (atirar perto da borda e longe do meio). Perceba, em paralelo, como o atirador cujos resultados estão abaixo não apresenta um viés sistemático, mas chega a uma variância alta. Normalmente, é impossível reduzir a variância sem aumentar o viés. A estratégia de erros sistemáticos pequenos é claramente melhor.

Isso me leva à segunda razão para meu orgulho nesta data. Meço meu desempenho sob o chapéu de estrategista-chefe da Empiricus a partir da performance da Carteira Empiricus, nossa publicação mais completa e que seria uma espécie de “indicação multimercado” — ou seja, uma ideia para nossos assinantes alocarem seu capital, nos mais variados mercados e ativos, nas proporções certas; ou, ainda, se a Empiricus tivesse um hedge fund, como seria?

Antes de prosseguir, um esclarecimento rápido: a performance da Carteira Empiricus se deve muito, mas muito, mas muito mais à excelência do João Piccioni e do Fernando Ferrer do que a mim — João e Fernando, vocês foram simplesmente heróis nesse ano; muito obrigado por isso.

O portfólio sugerido acumula valorização de 13,65 por cento neste ano até agora — o “até agora” é sempre importante num mundo dominado por cisnes negros. Isso representa 215 por cento do CDI aproximadamente.

Sou como Gilberto Gil e sei que o tempo é rei: “não me iludo; tudo permanecerá do jeito que tem sido”. Um ano é janela temporal muito curta e sujeita às intempéries da deusa Fortuna. Muito do resultado decorre da interferência da sorte e da aleatoriedade. Por isso é necessário olhar janelas temporais mais dilatadas: desde a criação da Carteira Empiricus há pouco menos de quatro anos, aqueles que o seguiram à risca ganharam 125 por cento, mais do que dobrando seu capital no período (isso equivale a 194 por cento do CDI).

Critiquem a Empiricus o quanto quiserem. Alguns dos comentários negativos são mesmo merecidos — estamos aqui lutando feito loucos para fazer uma Empresa cada dia melhor para nossos assinantes (de novo, só eles nos importam! Mais ninguém), mas sabemos da avenida gigantesca ainda pela frente para chegarmos onde queremos, em vários níveis. Outras críticas são fruto do completo desconhecimento. Critique primeiro, entenda depois.

Seja o que for, o resultado acima é nosso e dos nossos assinantes. Ninguém nos tira. E isso me enche de tesão. Pode ter sido apenas sorte. Talvez um tiquinho de competência. Quem sabe uma combinação das duas coisas. Ou sei lá o quê. Não importa. Aconteceu e ponto final.

Sei que o comportamento ao longo de quatro anos é mais relevante estatisticamente do que o apresentado em apenas 12 meses. Mas confesso um prazer especial na performance particular de 2018. Esse foi um ano péssimo para a indústria de fundos multimercados, com muitos deles, mesmo os mega consagrados (os gênios, e até mesmo os super-heróis, também erram), ficando abaixo do CDI e errando fragorosamente suas teses de investimento.

Sob tiro, porrada, bomba e volatilidade, chegamos até aqui na Carteira Empiricus oferecendo mais de 200 por cento do CDI. Isso é missão cumprida, com o assinante dessa série tendo retorno superior à quase integralidade dos profissionais dessa indústria. Pode estourar o champanhe.

Antes de encerrar, breve comentário sobre a indústria de multimercados. Há muita gente tocando mais dinheiro do que jamais imaginou na vida, indo para o mercado internacional, onde há muito mais competição, temos pouco edge e, para muitos, falta experiência. Enquanto isso, alocador continua dando dinheiro para muita gente empreender lá fora e simplesmente testar mercados em que não gozam de qualquer expertise. Fique claro: isso não é uma crítica geral à indústria, mas uma sugestão de que você foque nos caras mais consagrados. Seguir as indicações da Luciana é o caminho mais profícuo e de baixo risco nessa seara. Como heurística, compre sempre que puder Stulhberger e Rogério Xavier (às favas com desempenhos de curto prazo ou com grandes drawdowns mensais; esses caras são world class, hall of fame).

Para finalizar, qual seria meu último truque para 2018? Reduziria Bs (Tesouro Indexado IPCA, antiga NTN-B) e compraria um tico adicional de Bolsa, aqui e lá fora. Inflação vai surpreender pra baixo nos próximos meses com dólar caindo depois dos fatores técnicos de dezembro e uma bateria de redução de tarifa de importação sendo preparada pela caixa de bondades de Paulo Guedes.

Mercados iniciam a sexta-feira dando continuidade à tentativa de recuperação da véspera. O clima é mais calmo, atribuído a fatores técnicos e a maior otimismo em potencial acerto entre Donald Trump e Jerome Powell. A menor liquidez sempre deixa aquela brechinha para puxetas de fim de ano — todo o mundo quer marcar a cota mais bonita para fechar 2018.

Agenda norte-americana traz atividade de Chicago. Por aqui, IGP-M apontou deflação de 1,08 por cento, em linha com projeções. Temos ainda desemprego, resultado fiscal e bandeira tarifária.

Ibovespa Futuro sobe 1,10 por cento, dólar e juros futuros recuam.