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Corretoras isentam clientes de tarifa no Tesouro Direto, mas se aproveitam de cobrança (bem) antecipada de taxa de custódia

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Qual o valor dos juros cobrados se você atrasar o pagamento da sua fatura de cartão de crédito em 15 dias?

O que acontece com o seu carro se o seguro vencer e você só renová-lo 15 dias depois — e, nesse período, o veículo for roubado?

E se sua empresa atrasar seu salário em 15 dias, como você reagirá?

15 dias importam. E muito, dependendo do caso.

Por isso, qual não foi minha surpresa ao descobrir que algumas corretoras têm se aproveitado, às custas de uma antecipação dos clientes, de 15 dias de bônus de rendimento com seu dinheiro?

Explico.

Ainda que você escolha uma corretora sem taxa de administração para comprar títulos públicos via Tesouro Direto, não tem como escapar da taxa de custódia da Bolsa, de 0,30 por cento ao ano sobre o valor dos papéis. Essa cobrança se refere aos serviços de guarda dos títulos e às informações e movimentações dos saldos.

Na prática, duas vezes por ano, você precisa pagar o encargo à sua corretora ou ao seu banco, com um valor proporcional ao período em que mantiver o título em carteira.

Até aí, tudo bem, faz parte do protocolo.

Mas a questão esbarra num aspecto que passa despercebido pela maior parte dos investidores: a data da cobrança.

A maior parte das instituições debita as taxas de custódia dos seus clientes nos primeiros dias úteis dos meses de janeiro e julho. Neste ano especificamente, essas datas corresponderam a 2 de janeiro e 3 de julho.

O repasse efetivo à Bolsa, contudo, só é feito duas semanas depois dessas datas. “Toda a cobrança feita às instituições financeiras pela B3 é realizada por boleto de cobrança, o qual vence na terceira segunda-feira de cada mês. No caso da taxa semestral do Tesouro Direto, os valores são cobrados das instituições financeiras na terceira segunda-feira de julho e janeiro”, deixou claro o Tesouro.

Adaptando essa informação para 2017, o repasse efetivo das taxas de custódia só ocorreu nos dias 16 de janeiro e 17 de julho.

Duas semanas de lambuja para as corretoras. Duas semanas em que o rendimento do SEU dinheiro foi entregue de bandeja às instituições financeiras.

Com um valor alto ou irrelevante, tanto faz. Não há nenhuma justificativa além da ganância para explicar essa cobrança.

Grandes casas como XP, Easynvest e Ativa, bastante procuradas por clientes interessados justamente na isenção de taxas do Tesouro, estão entre aquelas que antecipam a cobrança da custódia, além de grandes bancos, igualmente adeptos dessa “prática”.

Na contramão, Guide, Rico e Geração Futuro (Genial) debitam a taxa no dia exato do repasse à Bolsa, ou seja, na terceira semana de janeiro e julho.

Recém-chegado ao universo do Tesouro Direto, o BTG Pactual Digital ingressou no time dos que vão cobrar a taxa de custódia perto do repasse efetivo. Para ser mais exata, na sexta-feira imediatamente anterior.

Quando entrei em contato com a XP, a corretora justificou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a cobrança antecipada aos trâmites operacionais, com um volume alto de lançamentos contábeis nas contas dos clientes e com a devida checagem desse processo.

Entendo que, sendo a maior corretora brasileira, a XP de fato enfrente burocracia nessa etapa. Mas, sinceramente, não é justificativa.

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Acho que está mais do que na hora de bancos e corretoras serem transparentes em suas taxas para evitar os “custos ocultos” em produtos anunciados como livres de tarifas.

Quer cobrar? Sem problemas. O que não vale é pagar de bacana com o cliente, e ganhar com o dinheiro alheio. Assim fica fácil…

Um abraço,
Beatriz

PS: Enquanto a gente discute a (falta) de transparência de algumas instituições com relação ao Tesouro Direto, chegamos cada vez mais perto de ver os juros na casa dos 7,5 de cento. Fica mais claro como precisamos ir além do feijão com arroz para garantir retornos gordos na renda fixa, o que se traduz em adicionar risco à carteira.

A Marília tem batido nessa tecla e promete uma carteira matadora para não deixar você perdido nesse cenário. Eu, que não abro mão da renda fixa, já estou conferindo a famosa “FIX2D”. Recomendo!

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