Não só no Brasil, até o passado é incerto

A capacidade de construir, a partir de elementos fragmentados de uma realidade passada, uma narrativa explicativa dos fatos faz-nos acreditar que o passado era razoavelmente previsível, quando na verdade só o era em retrospecto.

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Não só no Brasil, até o passado é incerto

No Brasil, até o passado é incerto.

A frase é do Pedro Malan. Quer dizer: não sei se é dele mesmo. Ao menos, dizem que é dele. Por esse caminho, Clarice Lispector já falou cada barbaridade nas redes sociais…

Questões autorais à parte, gosto da afirmação. Entendo o contexto em que ela foi construída, em referência àquilo que possivelmente seria resumido por “incerteza jurisdicional”, para usar um termo do Pérsio Arida, outro dos 3.000 dias no bunker. Mas não curto a restrição geográfica. Não é só no Brasil que o passado é incerto. Já chego lá.

As salas de reunião da Empiricus levam nomes de grandes investidores. Noutro dia, levei uma bronca por conta disso. “Poxa, nenhum brasileiro?!” Ergui os ombros quase levando-os até as orelhas, levantei as sobrancelhas e esbocei um sorriso amarelo, como quem confirmava a frustração… fazer o quê, né?

Fiquei pensando em quem poderia ser. Está decidido: a próxima sala vai se chamar Tostão.

Na coluna de 28 de maio de 2014, batizada Respeitem o acaso, ele escreveu assim:

“O gol de empate do Real contra o Atlético de Madri, nos acréscimos, quando o placar parecia definido e com um resultado justo, já que o Real não criava chances, é mais um exemplo de como um detalhe, um suspiro, muda a história do futebol.

O gol foi a união da técnica com o imponderável. Da técnica, porque Modric, da direita, com a perna direita, como deve ser, cobrou muito bem o escanteio, de curva, forte, com a bola fugindo do goleiro, caindo na marca do pênalti, para Sergio Ramos cabecear. Se a bola se desviasse uns 30 centímetros, ele não faria o gol, todos exaltariam a heroica conquista do Atlético, e o Real seria criticado.

Os pragmáticos vão dizer que “se” não ganha jogo e que a história é contada pelos vencedores. Mas o “se” serve para lembrar que a bola entra também por acaso, que nossa pretensa sabedoria se desmancha em um piscar de olhos e que tudo é muito frágil e incerto.

O comentarista científico, que admiro, pois a ciência é fundamental, explicaria que o gol foi o resultado de fatos anteriores que se comprimiram em um lance final, e que o Atlético recuou demais, o que aumentou as chances de escanteio e de sair o gol. São bons argumentos técnicos. Mas o jogo é muito mais que isso. Para os operatórios, dar importância ao imponderável é trair a ciência e seus conhecimentos.

O imponderável não é destino nem mistério. Faz parte do jogo, da vida. São lances corriqueiros, frequentes, que não sabemos onde e quando ocorrerão. O imponderável não torce para ninguém. Espero que esteja ao lado do Brasil na Copa.”

E para conquistar meu coração de forma definitiva, mandou o seguinte em seu penúltimo texto:

“Tudo é incerto. A bola de tênis pode parar em cima da rede e cair de um lado ou de outro, como mostrou o genial Woody Allen, na cena final do filme Match Point.”

Depois que as coisas acontecem, elas parecem óbvias e deterministas. Mas só depois que acontecem. A conversa hegeliana do materialismo histórico encaixa bem em nossa perseguição pela certeza, pela ideia de que o curso das coisas só poderia ter se dado daquela forma como se deu, de fato.

Ocorre, porém, que o passado é apenas a materialização de um cenário entre uma multiplicidade de possibilidades. Por um tiquinho, a história poderia ter sido completamente diferente.

Como estaria o Brasil se Aécio tivesse ganhado as eleições? Foi por pouco, lembra? Eu cheguei a comemorar com 90 por cento das urnas apuradas, para logo depois ser lembrado que só pode gritar gol depois que a bola entra.

O Tite estaria onde está se não fosse aquele milagre do Cássio cara a cara com o Diego Souza? O Itaú teria comprado a XP se o áudio do Joesley tivesse saído uma semana antes? E haveria todo esse frenesi em torno das corretoras de varejo? O fundo Verde seria O Fundo Verde se não fosse aquela viagem às vésperas de deval? Se a Dilma não tivesse me processado, eu estaria aqui?

Se essas coisas são demonstração inequívoca de que o passado poderia ter sido muito diferente, por que havemos de acreditar que o futuro está escrito na pedra?

Só nos resta comprar hipóteses, ponderar cenários, perseguir assimetrias – eu tenho insistido um pouco nas estratégias com opções justamente porque elas representam da forma mais emblemática esse perfil assimétrico e convexo; permita-se ao menos conhecer.

Suspeito que Tostão não tenha entrado em contato formal com a falácia da narrativa, tampouco com aquilo que Amos Tversky batizou de “creeping determinism”, essa tendência de achar que as coisas, depois que acontecem, só poderiam ter sido assim. Pegamos os fatos que ocorreram e os fazemos caber numa narrativa bonita, contendo causas e efeitos lineares, subsequentes e bem definidos.

A tendência a atribuir menor incerteza ao passado foi devidamente documentada, tendo inclusive nome. Chama hindsight bias, algo como viés de retrospectiva. Em diversas situações, estamos submetidos à incapacidade de prever o futuro. Contudo, depois do acontecido, nós explicamos o que ocorreu com grande confiança. “Essa suposta habilidade de explicar aquilo que não conseguíamos prever, mesmo na ausência de qualquer informação adicional, representa uma importante, embora sutil, falha no processo racional. Ela nos leva a acredita que há menos incerteza no mundo do que efetivamente há”, resume Tversky.

Aquele que enxerga o passado como livre de surpresas está condenado a viver um futuro bem surpreendente. A falsa visão do passado torna ainda mais difícil a preparação para o que vem à frente.

A capacidade de construir, a partir de elementos fragmentados de uma realidade passada, uma narrativa explicativa dos fatos faz-nos acreditar que o passado era razoavelmente previsível, quando na verdade só o era em retrospecto.

Bertrand Russell, que também batia um bolão, já tinha resumido a coisa:

“ A demanda por certeza é natural ao homem, mas não deixa de ser um vício intelectual. Se você levar seus filhos para um piquenique em um dia duvidoso, eles exigirão uma resposta dogmática que diga se o clima estará bom ou se choverá, e ficarão decepcionados com você quando não tiver certeza…”

A Maju Coutinho é maravilhosa, mas pode ajudá-lo pouco a decidir em ambientes de incerteza. Os economistas servem mesmo é para fazer os meteorologistas parecem respeitáveis.

A quarta-feira traz decisões de política monetária no Brasil e nos EUA. Certeza mesmo ninguém tem, mas há ampla expectativa por novo corte de 1 ponto percentual na Selic. Atenções recaem sobre sinalizações sobre a próxima reunião.

Já o Federal Reserve deve manter sua taxa básica, enquanto pode flertar com redução de seu balanço. Aqui há motivo de preocupação, pois poderia representar enxugamento da liquidez global, encerrando uma era de anos e anos de impressão de dinheiro.

Agenda por aqui traz outras referências além do Copom. Destaque para superávit primário do governo central, INCC ligeiramente abaixo do esperado, IPC-Fipe, sondagem do comércio e fluxo cambial. Mercado monitora de perto possível alteração da meta fiscal, enquanto digere resultados corporativos (Renner e Pão de Açúcar entre os principais) e faz conta sobre possível entrada da Taesa no Ibovespa.

Nos EUA, saem estoques de petróleo e vendas de casas novas. No Reino Unido, temos PIB trimestral.

Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,2 por cento, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

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