Nós que aqui estamos por vós esperamos

Eu adoraria saber até quanto vai o Ibovespa. Também queria conhecer quando isso vai acontecer.

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Nós que aqui estamos por vós esperamos

Chegamos. Aqui estamos nós: 71 mil pontos. Maior patamar desde 2011 e à beira do recorde histórico – em termos nominais, claro. Se fôssemos corrigir por algum indexador – deveríamos fazê-lo, claro -, ainda teríamos um bocado para subir.

Falar isso no começo do ano seria exagerado. Aqueles que ousaram, então, sugerir a possibilidade há 24 meses foram insultados como hereges, merecedores do fogo da Santa Inquisição – além, claro, de receberem denúncias por falta de comedimento, que países minimamente sérios chamariam pelo nome mais conhecido de tentativa de censura, desprezando o eufemismo. Agora, obviamente, ficou óbvio. Somos craques em narrar os fatos, mostrando grande capacidade de previsão, depois que eles já aconteceram.

Da mesma forma que era ridículo elucubrar sobre os 71 mil pontos há dois anos, é igualmente patético sugerir que o índice possa ir a 100 mil pontos a partir da onda Dória. Até onde vai o Ibovespa? Impossível dizer. Pelas linhas que se seguem, decorre logicamente a impossibilidade de precisar um pseudocientífico “preço-alvo” para a média das ações.

Eu, que ainda procuro onde é que há gente neste mundo, desisti de prever o futuro quando de deixei de ser criança. Agora, com minha idade mental de 12 anos, decidi projetar o passado. Dada a mais generalizada incompetência, suspeito também aqui não ter sucesso. Mais vale um asno que me leve do que cavalo que me derrube, já alertaria Gil Vicente. Deixemos o futuro para a farsa dos cavalos da Faria Lima.

Há várias coisas a se dizer sobre os 71 mil pontos. Se precisasse resumi-las em uma única, seria: estamos num bull market, com as maravilhas e as mazelas que isso representa. Essa coisa tem sua dinâmica própria.

Como no belo filme de cujo título me apropriei para batizar esse texto, em que Marcelo Masagão recupera memórias do século XX com imagens que falam por si, sem necessidade de narração ou explicação, a mera observação da imagem do comportamento do Ibovespa ou de qualquer outro índice de ações no longo prazo revela particularidades de grandes trajetórias de alta.

Destaco três delas:

1 – Os movimentos são sempre maiores do que imaginamos, pra cima e pra baixo. Nosso cérebro é treinado para pensar linearmente – beta, CAPM, regressão linear, Sharpe, Markowitz… no fundo, são todas construções associadas a um pensamento linear e apenas aos dois primeiros momentos da distribuição de retornos (média e variância). Na prática, porém, os movimentos são assimétricos e leptocúrticos. Esqueça os palavrões. As trajetórias têm caras mais exponenciais do que lineares. Os juros compostos podem fazer milhares por você. A ideia da Bola de Neve, que inclusive virou livro para narrar a biografia do Warren Buffett, reflete justamente essa ideia.

2 – Além de maiores, os movimentos são também mais rápidos do que imaginamos. Você sempre pensa: “eu vou esperar para entrar. Quando vier um sinal claro, eu compro, com muito menos risco.” Ocorre que, quando você pensar em entrar, boom! Já foi. A velocidade de ajustamento sempre foi grande e agora, então, acontece de forma supersônica pela presença das alocações quantitativas, dos robôs, da enorme liquidez global e da capacidade de alavancagem. Poucos dias fazem a diferença.

3 – Mesmo os mais avassaladores bull markets passam por correções vigorosas. No meio de uma grande tendência de alta, as ações caem 20, 30, 50 por cento. Você precisa estar preparado. Lembre-se também que as coisas mais sólidas podem se desmanchar a partir de um fato novo inesperado. Ou seja, as condições para um bull market estão dadas e parecem sólidas. Até às 10h desta sexta-feira. Ao primeiro soluço, tudo pode mudar. Então, nenhuma aposta deve ser feita all in, os riscos precisam estar devidamente dimensionados, a diversificação é uma arma poderosa e a alavancagem é proibida.

Como corolários da tríade acima, aponto heurísticas para tomada de decisão:

  • Não se assuste com a aproximação do recorde histórico do Ibovespa. Primeiro porque isso se dá sob a ótica nominal e não quer dizer muita coisa. Em dólar, ainda teríamos que praticamente dobrar para atingir nova máxima. Lembre-se também que as bolsas no mundo todo estão no pico ou perto dele. O recorde local não é uma jaboticaba. Se a Bolsa brasileira é um exagero, nós somos todos, em âmbito global, um grande escândalo, para usar as palavras do James Hilman. Podemos – e isso é diferente de dizer que iremos – superar, sim, a marca de 100 mil pontos e seguir em frente.
  • Em sendo verdade que a trajetória do Ibovespa em curso é apenas o início de um grande bull market estrutural de vários anos, você precisa ter um pé um ativos de muito risco. Se as trajetórias são não lineares (e elas realmente são), dividir a carteira em ativos ultrasseguros (a maior parte) e ultra-arriscados (menor parte) será uma alocação superior a montar a carteira com vários ativos de risco médio. Trata-se da mera aplicação algébrica da hipótese de convexidade (retornos do tipo exponencial nos ativos de muito risco). Não há contestação, assumindo válida a premissa. Posso ter bitcoins ou criptomoedas em geral? Sim, exatamente com essa perspectiva. Tenha pouco, saiba que há muito risco e esteja diversificado nelas. Um único acerto e você pode ver seu dinheiro se multiplicar. Confesso que, na física, estou me preparando para comprar um teco disso. Vai que estamos diante de uma grande revolução de fato. Topo perder 13 mil com a chance – mera chance – de ganhar 130 mil. Essa é a minha cabeça.
  • Se correções vigorosas e súbitas acontecem, você precisa de um bote salva-vidas. Hoje o céu está lindo lá fora. Mas o tempo em São Paulo é uma loucura, já dizia minha tia avó Lurdinha. De repente, vem a tempestade e você vai se lamentar profundamente por não ter trazido um guarda-chuva. Com tamanha alta dos ativos de risco, vale a pena comprar seguros. Eles estão baratinhos agora, com a volatilidade em mínimas históricas. Sergio Oba acaba de dar uma recomendação quentíssima nesse sentido em seu Serious Trader.

Eu adoraria saber até quanto vai o Ibovespa. Também queria conhecer quando isso vai acontecer. Claro, seria ótimo também poder antever precisamente os momentos das correções. Infelizmente, não rola. Ou melhor: saberemos tudo exatamente como queremos, depois que aconteceu.

Recorrendo a Woody Allen, pra mim o maior de todos, “a realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife…”

Clima favorável segue nos mercados na sexta-feira. Resultados da Cnooc trouxeram bom humor à Ásia, assim como alta de commodities e perspectiva por reformas em Xangai. Sentimento das empresas um pouco acima do esperado na Alemanha também ajuda.

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