Esqueça Calais

A Standard & Poor’s rebaixou a nota de crédito do Brasil. O general-investidor vigilante deve observar essas iscas do mercado com cuidado.

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Esqueça Calais

Em 1944, as tropas dos Países Aliados desembarcaram na costa da Normandia, dominada pelos alemães, movimento este que viria a resultar na rendição dos nazistas e no início do fim da Segunda Guerra Mundial.

Parte do sucesso da operação foi atribuída a uma outra região, que ficava a 250 quilômetros de distância: Calais.

Os Aliados fizeram o exército inimigo acreditar que a região invadida seria na verdade Calais. Para isso, montaram uma chamativa operação em Dover, de onde supostamente as tropas partiriam.

Tanques de borracha e diversas outras artilharias militares foram construídas e montadas em Dover para despistar os inimigos.

Ludibriada pelo engodo, a máquina de guerra alemã não teve tempo nem recursos para lidar prontamente com o ataque inesperado.

Estratégias de guerra são paralelos incríveis para o mercado financeiro. A Bolsa frequentemente se comporta como um grande inimigo de batalha e nos prega peças, nos engana e nos desvia do fundamento.

Diariamente o mercado joga iscas falsas para distrair a nossa atenção. Essas iscas são notícias sobre os mais diversos assuntos, com potencial de mexer fortemente com os preços dos ativos.

O general-investidor vigilante deve observar essas “iscas” com cuidado para distinguir o que é apenas fumaça do que de fato pode causar um incêndio.

Algumas notícias movem bastante o mercado, fazendo os desavisados zerarem suas posições, mas acabam sendo apenas grandes oportunidades de entrada, uma vez que não provocam nenhuma real mudança no cenário. Passado o susto, os preços voltam para os patamares anteriores. Outras são verdadeiras quebras estruturais, que mudam para sempre a trajetória de preços do mercado, pois alteram o rumo da economia.

É preciso separar o joio do trigo e, para isso, tenho uma dica.

A primeira pergunta que você deve se fazer quando escuta uma notícia bombástica é: isso muda efetivamente alguma coisa na economia? Ou é apenas uma constatação de algo que já estava no cenário?

Por exemplo, na última quinta-feira a agência de rating Standard & Poor’s rebaixou a nota de crédito brasileiro de BB para BB- por conta do atraso na aprovação da reforma da Previdência. Isso aconteceu à noite, com os mercados fechados. Imagine que você fosse um investidor de renda fixa e tivesse que tomar uma decisão na manhã do dia seguinte, de zerar ou não sua posição aplicada em DI Janeiro 2021 (juros prefixados de três anos).

O que você faria?

Claro que “ex-post” é fácil falar. Mas vamos fazer um exercício de treinamento, soldado!

Esse rebaixamento significava uma quebra estrutural econômica, com consequências permanentes? Ou apenas uma constatação do que já vínhamos relatando?

Apenas uma constatação, correto?

A inflação não iria acelerar; os investidores estrangeiros que não gostam de países sem grau de investimento já estavam fora de Brasil, e os consumidores não deixariam de comprar por conta da nota de uma agência. Ou seja, na prática, não mudaria absolutamente nada.

Pois é, mas mercado é mercado, e engodo é engodo.

Quando o mercado abriu na sexta, o DI Janeiro 2021 (que tinha fechado o dia anterior a 8,87%) surgiu subindo 8 bps, indo para 8,95%.

Olha que oportunidade!

Quem sacou que era apenas uma isca e aproveitou para aplicar a essa taxa teve uma grande felicidade no dia, pois menos de uma hora depois a taxa já tinha desabado novamente, voltando para os 8,87% do fechamento.

Se você fosse um day trader, teria saído do mercado muito feliz nesse dia.

Saber separar bem o que é isca do que é fundamento é um dos grandes diferenciais dos gestores de maior sucesso no mercado. E a chave é focar sempre no fundamento. Isso muda o fundamento macroeconômico? Provoca uma quebra estrutural na tendência?

Foque sempre nessas duas perguntas e encare as “iscas” como testes pelos quais o mercado faz você passar para desviá-lo do fundamento.

O dinheiro grande, grande mesmo, não está nas pequenas oscilações do dia a dia. Está, isso sim, nos movimentos de mercado fundamentados pela economia. Mire neles e esqueça Calais.