O Aprendiz de Feiticeiro é um poema Universal

Você está preparado para um cisne negro? E para um outro tipo de águia, nascida e criada na Áustria? Calma. Não é uma aula de ornitologia. Já chego lá.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
O Aprendiz de Feiticeiro é um poema Universal

“Espíritos poderosos devem ser convocados apenas pelos mestres que os dominam.”

A frase encerra o poema O Aprendiz de Feiticeiro, de Goethe, e serve bem para o momento.

No original, um velho feiticeiro deixa para seu aprendiz tarefas por fazer na oficina. Depois de se esforçar por um tempo, o sujeito se cansa. Então, certo de que já sabe tudo, resolve encantar o esfregão, que, envolvido pela magia, poderia trabalhar sozinho.

Em pouco tempo, a oficina inteira está debaixo d’água. Não há o que fazer. O aprendiz tenta interromper o esfregão, mas não dispõe de habilidades suficientes. Incapaz de controlar o processo, o aprendiz se desespera e, usando de um machado, quebra o esfregão em dois.

Semelhante à Hidra de Lerna, o esfregão, agora quebrado em duas partes, aumenta suas possibilidades, espalhando ainda mais água a partir de seu modelo bipartite.

Quando tudo parecia perdido, o velho feiticeiro retorna, quebra o encanto do esfregão e salva o dia.

Talvez tenhamos convocado espíritos cujos poderes não podemos dominar.

Você está preparado para um cisne negro? E para um outro tipo de águia, nascida e criada na Áustria? Calma. Não é uma aula de ornitologia. Já chego lá.

Olho para o mundo hoje e constato que o risco simplesmente desapareceu. Não há problemas ou ameaças. Isso me dá medo.

Ensimesmados em nossos próprios problemas – e, de fato, temos um bocado deles -, parecemos negligenciar o que me parece hoje o risco mais fundamental aos mercados: uma enorme complacência em termos globais com apreçamento dos ativos, fruto de uma política monetária altamente expansionista desde 2009, com Bancos Centrais injetando uma quantidade brutal de dinheiro no sistema.

A pergunta não me parece ser “onde está a bolha?”. Meu ponto é que o mundo possivelmente seja uma grande bolha, convocada pelos Bancos Centrais, que distribuíram dinheiro de helicóptero e empurraram toda a poeira para baixo do tapete. E nós confundimos a supressão da volatilidade, hoje em recordes históricos de baixa, combinada a valuations globais em recordes de alta, com ausência de riscos.

Estamos apenas escondendo os riscos de cauda lá fora. Esses são espíritos superpoderosos, principalmente num momento em que há interdependência e complexidade sem precedentes entre os mais variados ativos e mercados.

Aqui volto à questão das aves. Precisamos distinguir o que é um black swan (cisne negro) de um tail event, pois o primeiro é um subconjunto do segundo. Não é uma questão meramente semântica, ornitológica ou filosófico. Demarcamos a distinção pois ela nos oferece uma oportunidade pragmática.

Um cisne negro é um evento raro, de alto impacto e, necessariamente, imprevisível ex-ante. Claro, depois de materializado, ele se torna óbvio, na mais clara manifestação do viés de retrospectiva.

E o que é um tail event? Qualquer evento de cauda, ou seja, considerado raro, de alto impacto, previsível ou não.

Mark Spitznagel, fundador da Universa e um feiticeiro bastante experiente, nos ensina que as grandes destruições estruturais e definitivas de valor nos mercados acionários globais não vieram de eventos totalmente inesperados. Ao contrário, todos eles estiveram relacionados a distorções provocadas por intervenções profundas e abrangentes dos formuladores de política monetária.

Uma grande injeção de liquidez no sistema é acompanhada, subsequentemente, de uma assunção exagerada de riscos, de valuations além do razoável e da supressão da volatilidade, para uma posterior explosão.

Essa, pra mim, é a grande fonte de riscos hoje. Diferentemente do consenso de analistas, não estou pessimista com Brasil. Acho que, de uma forma ou de outra, ajeitaremos a questão fiscal, aos trancos e barrancos. Também vejo uma movimentação do pêndulo sócio-político em direção ao espectro liberal e de centro-direita. Paralelamente, os juros devem caminhar para a mínima histórica e a inflação se mostra controlada, enquanto as empresas estão bastante enxutas e prontas para surfar um ciclo de alavancagem operacional. Fora isso, há um caminhão de dinheiro para chegar à bolsa e aos durations mais longos.

Lá fora, é diferente. Está tudo pela hora da morte. A boa notícia é que sabemos como a história termina. Podemos nos proteger do estrago desse esfregão nos aproveitando do encanto das puts sobre S&P (por favor, abra uma conta lá fora, para seu próprio bem). Nos níveis atuais de volatilidade, o preço da proteção está bem barato, virou quase política pública de distribuição gratuita. Passe já no posto de saúde mais próximo e garanta o seu.

Mercados iniciam a quarta-feira demonstrando alguma cautela e tendência a ajuste depois do bom comportamento da véspera. Votação de denúncia contra Temer é o grande destaque do dia por aqui. Todos esperam vitória formal do presidente, mas ainda há dúvidas sobre placar e mesmo sobre quórum para apreciação do tema.

Commodities caem lá fora e dólar se valoriza frente às divisas emergentes, depois da semanas apontando o contrário. Natural depois da sequência recente.

Setor de tecnologia é destaque em Wall Street após resultados bons reportados pela Apple. Dow Jones mira novo recorde histórico, superando marca 22 mil pontos.

Agenda é relativamente fraca, com IPC-Fipe e fluxo cambial. Nos EUA, saem estoques de petróleo, ADP Employment e ISM de condições empresariais.

Ibovespa Futuro abre em leve baixa de 0,1 por cento, dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros, no geral, avançam.

Encerro com três belas notícias para os leitores, com grande satisfação e o compromisso de entregar sempre um conteúdo cada vez melhor, a partir de uma equipe maior e reforçada:

  • Assinamos com o brilhante Fernando Ulrich, possivelmente a maior referência em criptocurrencies do Brasil, para escrever sobre o assunto a nossos clientes;
  • Fechamos uma parceria com o excelente Marink Marins, que trará ensinamentos valiosíssimos sobre Dynamic Hedging (muito Taleb!), estratégias exóticas e operações voltadas a renda; e
  • Trazemos uma ideia bastante convicta na série Serious Trader, um negócio pronto para voar em Bolsa realmente. Conversei com o Sergio Oba, que considero um dos melhores analistas do Brasil hoje, e poucas vezes o vi tão animado.

Conteúdo recomendado