O fim de uma era ou de apenas mais um mês?

Quebramos a primeira vez na bolha da internet. E a primeira vez a gente nunca esquece. Estreamos com tudo nessa.

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O fim de uma era ou de apenas mais um mês?

Suspeitei da perda da virgindade no quesito falência pela extensão do trago do meu pai no seu cigarro. Confirmei pelo número de bitucas de Galaxy empilhadas sobre o cinzeiro preto e quadradinho. Intensidade e frequência juntas só poderiam significar destruição patrimonial. Foi a primeira vez que a sigla PT entrou lá em casa: perda total. Aquele período foi 13…

Com a chegada ao fim do mês de julho, muito positivo aos mercados e surpreendente para os deuses da parcimônia e da prudência, dois problemas se misturam: a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Seria somente a virada da folha do calendário ou estaríamos na iminência do fim de uma era, marcada pelo bull market iniciado nas bolsas internacionais em 2009 com uma injeção brutal de dinheiro no sistema como resultado dos esforços dos Bancos Centrais para livrar-nos das mazelas do subprime?

A pergunta me parece pertinente. Todos sabem que os mercados vivem ciclos de sístole e diástole, alternância entre boom and bust, medo e ganância, depressão e euforia, estabilidade gerando instabilidade. Escolha seu clichê e seu autor favorito. Um bull market tão intenso e extenso é a semente para a posterior explosão.

No momento, a economia mundial vive potencialmente sua melhor forma em muito tempo, com bom ritmo de crescimento, liquidez brutal e sem inflação. Alguns comemoram o fato. Não lhes tiro a razão. Mas, pra mim, é daÍ que podem germinar os maiores problemas.

Como as coisas vão muito bem e os retornos dos portfólios globais têm sido estupendos, cria-se uma sensação disseminada de que nada pode ser grande ameaça. Não enxergamos os riscos e logo concluímos que não há risco algum.

Surge imediatamente um problema lógico. Os momentos em que não identificamos os riscos são tipicamente os mais arriscados. Como os catalisadores negativos não estão sendo observados, eles não estão incorporados aos preços. Tudo está cotado em Bolsa para um cenário de perfeição.

Ouço ecos de 1999. À época, nada poderia dar errado às empresas de tecnologia e telecomunicações – elas teriam compreendido o futuro; poderíamos fazer as contas que quisermos a partir de múltiplos de pageviews. Tudo poderia ser justificado a partir da sensação de que tínhamos “supercompanhias”. America Online, Yahoo!, Netscape, AltaVista, Prodigy.

Talvez você nem se lembre mais de algumas dessas empresas, mas, naquele momento, elas podiam tudo. Apresentariam, supostamente, crescimento acelerado nos anos à frente, com grande rentabilidade. Os que aprendem pelos livros de história podem ter memória curta. Quem sofreu na pele lembra até da encarnação passada.

Como esquecer daquelas GloboNabo? Amazonia Celular, Tele Centro Oeste Celular, Brasil Telecom? Encantador mesmo só os olhos azuis do Daniel Dantas… Papai morreu esperando Tec Toy ser vendida para os chineses, que, eu suspeito, jamais vão se interessar por aquele coelho de nome estranho (acho que é Nabastag, ou alguma coisa parecida).

As empresas de internet do início dos anos 2000 eram apenas uma mutação genética do que já havia sido Kodak, Polaroid, Xerox, Sears. Ou mesmo as tulipas lá atrás.

Agora, temos até acrônimo para as as superstocks: FAANG, em referência, claro, a Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google.

Não estou dizendo, obviamente, que não sejam grandes empresas. Ao contrário, consumo e admiro cada uma delas. Aliás, essa newsletter chama Day One por conta do Jeff Bezos. Não faz muito sentido criticar esse pessoal. Beiraria o ridículo.

Mas o ponto é que parece haver uma certa sensação de que essas empresas podem tudo, apresentam uma espécie de superpoder de enxergar o futuro. E não me refiro ao próximo ano ou aos 24 meses subsequentes. Penso no longo prazo. Temos mesmo a garantia de que a tecnologia de ponta hoje será preservada por muito tempo? Será que não dispomos de uma série de exemplos ao longo da história do “estado da arte” sendo atropelado pelo novo, que surge do nada, quando ninguém espera?

Em momentos como os atuais, de longa extensão do bull market e em que nada parece poder dar errado, há uma tentação crescente de participar da festa. Seu vizinho está lucrando muito e você não pode ficar para trás nesta.

Amazon, bitcoins, Magazine Luiza… você perdeu todas elas… e agora? Vamos entrar desesperados? (Obviamente, são exemplos anedóticos – nada contra um ou outro especificamente).

Há algo das ciências sociais que o investidor precisa apreender. O erro tipo II é muito menos grave do que o erro tipo I. É muito melhor tomar algo verdadeiro como falso, do que tomar por verdadeiro algo que é falso.

Ou seja, é muito menos grave deixar de comprar uma ação boa achando que ela é ruim do que comprar uma ação ruim achando que ela é boa.

No primeiro caso, você deixa de ganhar. No segundo, você quebra – e o processo de construção patrimonial sofre de histerese. A partir de determinado ponto, você vai e não volta.

Frequentemente, sou cobrado com apontamentos do tipo: “Ah, vocês não recomendaram a ação tal, que multiplicou por n vezes.”

Costumo responder: “É verdade. Mas não foi só esse nosso erro desse tipo não. A lista é infinita. Não compramos Facebook lá atrás, perdemos Google, Apple, Amazon, Alibaba. Também não compramos Oi na mínima, nem sugerimos bitcoins ou ether. Deixo ainda o alerta: não participaremos de muitas outras multiplicações que virão.”

Querer participar da festa é sempre uma tentação muito grande. Ainda assim, é melhor recorrer ao ansiolítico e controlar a ansiedade do que chegar à festa no momento em que a polícia está fazendo o bafômetro. Antes, ao menos podíamos registrar as festas com máquinas Polaroid.

Uma das eventuais multiplicações que vamos potencialmente perder é das mineradoras. Elas são destaque nas bolsas internacionais hoje, após disparada do minério de ferro no porto de Qingdao (+7,2 por cento). Commodity reage ao PMI da indústria siderúrgica chinesa, que subiu a 54,9 pontos, seu nível mais alto desde abril de 2016. Cobre caminha para seu melhor mês desde janeiro.

Sem visibilidade e sem encontrar uma assimetria muito convidativa, é bem possível que incorramos no erro tipo II. Ok, prefiro assim.

Agenda traz atividade na região de Chicago e vendas de casas pendentes nos EUA. Taxa de desemprego na Zona do Euro caiu a 9,1 por cento em junho, na parte inferior das estimativas. Inflação ao consumidor na região marcou 1,3 por cento em julho, em linha com o mês anterior.

Por aqui, relatório Focus trouxe revisão para baixo nas estimativas para taxa Selic neste ano, agora em 7,75 por cento na mediana. Esfera corporativa ganha destaque com estreia das ações de IRB e Ômega. Safra de resultados traz Itaú à noite, enquanto taxa de câmbio pode ter um pouco mais de volatilidade por disputa sobre PTAX que servirá de referência para liquidação de contratos futuros.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,7 por cento, acompanhando otimismo no exterior. Dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros apresentam instabilidade.

Encerro hoje com um convite muito especial para o 1º Empiricus Day, outra imitação que fizemos da Amazon. Em comemoração ao atingimento da marca de 200 mil clientes por todas as bandeiras do grupo econômico, fizemos hoje promoções realmente sem precedentes. É válido, porém, somente até às 23h59 desta segunda-feira.

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