S02E06 – Spoilers Ahead

S02E06 – Spoilers Ahead

Trilha da semana
Pink Floyd – Pulse

 

O texto a seguir contém spoilers de Game of Thrones, Star Wars, Homem-Aranha, Super-Homem, Batman, Papa-Léguas, Turma da Mônica e até da vida real.

Leia por sua conta e risco.

Quando moleque, meu negócio eram as HQs de super-heróis – todo dia passava na banca do seu Zé, ao lado da saída do Marista, para saber se alguma coisa nova tinha chegado. Ia para casa, almoçava correndo (“Chuchu de novo, mãe?!”) e me jogava no sofá.

“Guerras Secretas”, “A Saga da Fênix”, “A Queda do Morcego”, “A Morte do Super-Homem”… Eu adorava aquilo ali, mas sempre me incomodou o fato de que, no fim, tudo acabava relativamente bem, quase ninguém morria (nem os vilões) e, mesmo quem morria, acabava voltando um tempo depois.

Por mais que fosse interessante saber qual era a grande ameaça da vez, havia um certo limite – os riscos nunca eram muito altos: se até Gwen Stacy e Jason Todd voltaram do “lado de lá”, qual a chance do Super-Homem morrer “pra sempre”?

Depois de um tempo, isso vai cansando – a repetição dos arcos e a falta de perigo real e imediato deixa tudo meio monótono – o plano infalível do Cebolinha e a mais nova artimanha do Coiote fatalmente vão falhar.

Talvez daí venha a explicação do enorme sucesso de Game of Thrones – aquela sensação de “perigo” que começou quando Ned Stark perdeu a cabeça no fim da primeira temporada e se tornou quase insuportável quando a zona de conforto foi totalmente demolida no Red Wedding.

 

Se o personagem novo e carismático que luta pela honra da família pode ter a cabeça esmagada pelo brutamontes que estuprou e matou sua irmã, então, ninguém está a salvo, e qualquer batalha pode levar seu personagem predileto pro saco.

E é assim que acontece no mundo real – aquela cirurgia arriscada pode não dar muito certo, uma bobeada na estrada pode custar muito caro e, por mais que você seja uma boa pessoa e trilhe o “caminho do bem”, não há muita justiça no mundo dos homens – tem até bandido confesso andando livre por Nova York “na caruda”.

Se, nos filmes, a Meg Ryan andando de bicicleta sozinha pela estrada é sinal de problema na certa, por aqui as encrencas costumam surgir sem aviso. Quando você vai bater aquela bola com os amigos, não rola uma câmera lenta antes daquela dividida “fatal”; nada de música dramática quando seu chefe te chama para ter “aquela” conversa.

“The real troubles in your life are apt to be things that
never crossed your worried mind;
the kind that blindside you at 4pm on some idle Tuesday.”

O sol nasceu igualzinho no dia 11 de setembro de 2001. Ninguém fez uma tomada aérea dramática ou alongou o plano-sequência na manhã de 19 de outubro de 1987, a Segunda-Feira Negra.

Particularmente, não me lembro de ter notado nada de diferente no começo de noite do último 17 de maio. Saí da academia, peguei o carro e fui para casa. Ao parar na garagem do prédio, peguei o celular e lá estava a mensagem do Felipe: “Urgente: Dono da JBS Gravou Temer”.

A verdade é que as coisas dão errado bem mais do que gostaríamos. Você aceita isso ao fazer o seguro do carro, ao contratar um bom plano de saúde e até quando faz um seguro de vida.

Mas você já parou para pensar de onde vem o seu sustento?

A vasta maioria das pessoas tem toda sua renda vindo de um único lugar. E se der algo errado com a empresa em que você trabalha? E se o chefe novo não for com a sua cara?

Você pode pensar o que for a respeito da Previdência, mas a verdade é que, ou as regras mudam, ou todo o sistema vai colapsar. A única certeza é que, daqui a alguns anos, os trabalhadores brasileiros não mais se aposentarão nas mesmas condições de hoje.

Até agora, foi relativamente fácil garantir a aposentadoria “por conta”, sem depender da previdência oficial. Bastava apertar um pouco o cinto, segurar os gastos e colocar, todo mês, um pouco da renda em títulos pós-fixados.

Mas a se concretizar essa tendência de juros menores por um longo período – eu desconfio um pouco já que estamos falando de Brasil – a farra da LFT vai acabar.

O brasileiro vai ter que perder o medo de diversificar sua carteira e, cá pra nós, não faz sentido esse medo todo de investir em ações – sempre achei incrível poder participar dos resultados de companhias como Coca-Cola, Amazon e Walmart.

Sério mesmo que você acha arriscado demais comprar um pouco de Itaú, Porto Seguro, Ambev ou Embraer, mas está absolutamente confortável em ter o seu futuro e o de sua família atrelados à empresa em que você trabalha?

Ou, ainda, com a situação fiscal do país, será que é prudente apostar todas as suas fichas em títulos públicos federais?

Tá todo mundo confortável em comprar papéis de um país emergente que, nos últimos 25 anos, teve dois presidentes impedidos, tem um ex-presidente condenado por corrupção e lavagem de dinheiro e cujo presidente em exercício é investigado por obstrução de justiça e corrupção passiva.

Mas, se recomendar a compra de uma ação de companhias que estão aí há décadas, gerando lucro, empregando milhares de pessoas e se reinventando a cada crise e plano econômico maluco que surge na cabeça de nossos ministros da Fazenda, só falta a pessoa a fazer o sinal da cruz e chamar um exorcista.

É claro que há riscos em investir em ações, mas, desde que se diversifique o suficiente e tenha uma visão de longo prazo, é um risco que vale muito a pena correr.

“Eu odeio ações”, me disse uma amiga que trabalha em um grande banco brasileiro e tem até MBA de escola boa. Curioso que ela nunca se atentou ao fato de que toda sua renda depende justamente de um banco cujas ações estão subindo e caindo, de acordo com as vontades do mercado.

Todo o seu futuro está investido em XPTO4, mas, se eu sugerir diversificar um pouco, quem sabe comprar XYZZ3 e AABB11, ela já logo fecha a cara e fala que não gosta de arriscar.

Quase impossível argumentar que, na verdade, ela estaria diversificando e reduzindo riscos, mas deixa pra lá!

Não dá para ganhar todas.

O fato é que de pouco adianta ter levado uma vida honesta e ter lutado a boa luta. Se você chegar aos 60 anos sem ter traçado um bom plano de aposentadoria, qualquer imprevisto pode acabar com suas ideias de (merecido) descanso.

Na hora “H” não vai surgir uma solução mágica.

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Na vida real, o Han Solo não aparece aos 45 do segundo tempo abrindo caminho para o Luke. Por aqui, se você bobear, talvez abra os olhos tarde demais. Vai notar que a vida passou e que você não tem direito a uma segunda chance.

Se a noite é escura e cheia de terrores, é melhor começar a se preparar para quando o inverno chegar.

“And you run and you run to catch up with the sun but it’s sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death”

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