O que os olhos não veem… explode no seu bolso

O mais inofensivo dos investimentos esconde riscos de crédito e pode ter volatilidade

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O que os olhos não veem… explode no seu bolso

Não me lembro de muita coisa da minha infância em Diamantina, mas nunca vou me esquecer do dia em que meu irmão chegou em casa todo estropiado. O Daniel nunca foi santo. Uma vez, veio com a notícia de que tinha comprado um cavalo com a mesada, e que ele estava no lote ao lado. Outra, intoxicou a mim e à minha irmã trancadas dentro do banheiro com uma lata de inseticida. Até aí, dentro do esperado.

Mas, naquele dia, fiquei realmente preocupada. Ele entrou lívido pela porta. Depois de um segundo de desespero, contou que os dois melhores amigos, com quem ele brincava na rua todos os dias, tinham preparado uma cilada.

A cena do crime foi o lote ao lado (o cavalo, sorte dele, já tinha sido revendido). Eles sugeriram que meu irmão fosse até um montinho de terra. Quando ele se aproximou, voou pedra para todo lado. Era um explosivo caseiro, nada mortal, obviamente, mas foi o suficiente para deixar o meu irmão coberto de pontinhos pretos, que depois ficaram vermelhos.

Se meu irmão tivesse feito o mesmo comigo, tudo bem. Minha mãe não, mas eu e minha irmã sabíamos que ele era uma peste. Acontece que a cilada veio dos melhores amigos, inseparáveis, companheiros de todas as horas. E o que doía mais no meu irmão, dava para ver no rosto dele, era a decepção.

Talvez, se eu pudesse ver a cena de novo, perceberia que ela estava longe de ser tão catastrófica quanto parecia aos meus olhos de criança. Eu devia ter uns seis anos. Mas acho que essa história me marcou tanto porque foi meu primeiro contato com a decepção, com o que “parece, parece, mas não é”, como costumava dizer minha mãe.

O falso amigo

A última coisa que eu quero é que você se sinta traído no mundo dos investimentos. Ainda que seja por uma microexplosão.

O fundo de renda fixa, com frequência, é um falso amigo. Você compra porque lhe parece o mais seguro dos redutos na Terra. Mas, em geral, não é. Um fundo com renda fixa no nome pode balançar mais do que renda variável, sabia?

Ou seu fundo de renda fixa pode funcionar feito reloginho até que não mais que de repente dá um belo prejuízo. E você recebe uma cartinha em casa com o nada tranquilizador título “provisão para crédito de liquidação duvidosa”.

Sendo assim, vamos a três lições sobre seu fundo de renda fixa.

Lição 1: Você sabia que seu Fundo DI tem crédito privado? 

O que você acha que recheia o fundo DI do seu banco? Somente títulos públicos pós-fixados, do tipo Tesouro Selic, certo? Você está emprestando dinheiro tão somente para o governo e correndo risco soberano.

Muito provavelmente, não. A quase totalidade dos fundos DI investe também em crédito privado. Ah, mas não tem no nome, diz você. Um gestor só é obrigado a colocar “crédito privado” no nome do fundo se a fatia do portfólio em crédito superar 50%. É a regra da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Abra o regulamento do fundo em que você investe e você vai perceber que estou certa.

Mas por que o banco compraria títulos de crédito se é bem mais simples encher-se de título público? Para poder fazer bonito com retorno mais próximo de 100% do CDI mesmo com uma taxa de administração extremamente elevada.

Veja bem. Crédito por si só não é um investimento ruim. Pelo contrário. Pode ser excelente, desde que você seja recompensado pelo risco que assume. Você deve cobrar mais caro quando empresta para uma empresa do que quando empresta para o governo, porque está aceitando uma possibilidade maior de perder seu dinheiro.

Selecionar crédito exige uma análise da empresa, das garantias, pede uma inteligência de gestão mais próxima à da renda variável. Há esse cuidado na hora de comprar esses ativos para o fundo DI? Em geral, não. Conheço excelentes gestores de crédito. Eles não estão nos bancos.

A Oi é um exemplo claro. Quando a telefônica pediu recuperação judicial, todo mundo correu para ver quais gestores tinham comprado a dívida da companhia. Adivinha? Banco do Brasil e Caixa, em grande parte em fundos de investidores pessoa física, sendo que alguns deles não tinham crédito no nome. Um de vocês me enviou a cartinha de crédito de liquidação duvidosa do banco bom para todos.

Moral da história: o explosivo está lá, embaixo do montinho de terra construído pelo amigo banco. Não aceite retorno de renda fixa soberana para risco de crédito privado. 

Lição 2: Você sabia que fundo de renda fixa pode balançar? E muito?

Lá no começo de 2013, meu amigo Dudu veio dizer que o gerente tinha dado uma ideia muito melhor do que a minha para a reserva de emergência dele. Fundo DI que nada. O gerente apresentou ao Dudu o fantástico fundo de renda fixa.

O meu fundo DI tinha rendido 8,5% em 2012, quase empatado com o CDI. Já o fundo renda fixa que o gerente recomendou, 11,3%. Mesma coisa, mais retorno. O Dudu seguiu a ideia do gerente em vez da minha.

Um ano depois, meu fundo tinha rendido 8%, em linha com o CDI. E o do Dudu? 5%. No meio do caminho, ele viu dezenas de dias de prejuízo no fundo e me ligou em todos eles para xingar o gerente.

Qual era o explosivo embaixo do montinho de terra? O fundo de renda fixa pode carregar títulos prefixados. Você já conhece esse papel, né? O gestor encheu-se do título ao fim do ciclo de queda da Selic em 2012, com prêmio bem magrinho. Em 2013, o juro voltou a subir.

O que aconteceu com os papéis de taxa magra? Perderam valor. E a regra do jogo é que o gestor é obrigado a marcar isso na cota do fundo, a registrar o prejuízo, mesmo que não venda.

Conclusão: todas as vezes em que as expectativas para os juros se ajustavam para cima, o Dudu ligava para mim arrasado. Lá estava a reserva de emergência dele apanhando.

Há uma armadilha semântica aqui. Todo fundo DI é um fundo de renda fixa. Mas nem todo fundo de renda fixa é um DI. Ou seja, existe um tipo específico de fundo de renda fixa que se chama fundo de renda fixa (estúpido, né? Eu sei) e que é muito diferente do fundo DI. 

Lição 3: Você sabia que a inflação pode estar alta e seu fundo de inflação, perder dinheiro? 

Existe outra pegadinha no nome aqui, e os gestores têm culpa. É o fundo renda fixa índices, ou IMA-B, ou, na pior versão do nome, fundo de inflação. O fundo de inflação investe em títulos indexados à inflação, as antigas NTN-Bs. Em um processo semelhante ao contado acima, elas perdem valor quando a expectativa para os juros é ajustada para cima.

Imagine um momento de inflação alta em que há um sinal de ajuste nos juros americanos e isso afeta as expectativas dos juros para cima aqui. O que acontece com seu fundo de inflação? Cota negativa.

O efeito dos juros é, na realidade, infinitamente maior do que o de ajustes na inflação sobre a rentabilidade desse fundo.

E o que é mais traiçoeiro? Depois de um longo ciclo de corte na taxa, esses fundos mostram um retorno lindo de ver. Aí o investidor entra, bem no momento em que não há mais espaço para ganhos e em que é muito mais provável o movimento exatamente contrário – o que faz com que ele perca dinheiro.

Aqui não há uma explosão única, como no crédito, mas uma montanha-russa de emoções. Em alguns momentos, o sonoro fundo de inflação, que tem no nome a tão sonhada proteção dos brasileiros, oscila mais do que renda variável.

Tenho recebido algumas dúvidas sobre se não seria a hora de entrar nesse tipo de fundo, já que o nosso cenário é de queda de juro à frente. É sua reserva de emergência? Então não. É mais uma diversificação? Então pode ser, desde que você saiba a hora de sair.

Eu particularmente prefiro o fundo multimercado, em que o gestor tem a mesma posição, mas desmonta para mim. Se é para carregar prefixado ou indexado à inflação, melhor comprar sozinho no Tesouro Direto.

Em resumo

Muito bem-intencionada, a Anbima até mudou a classificação dos fundos recentemente, mas ficou mais difícil ainda. Agora tem renda fixa baixa, média e longa duração, soberano, grau de investimento… uns nomes gigantes, socorro.

Os fundos, em geral, não mudaram de nome. Então, segue uma tabela nada técnica, tudo prático, para ajudá-lo a navegar neste mundo.