Entrevista com Felipe Miranda

Contamos o que o analista recomenda aos seus clientes e qual sua opinião sobre o que vai acontecer com a economia

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Entrevista com Felipe Miranda

Caro leitor,

O Criando Riqueza resolveu bater um papo com o Felipe Miranda, sócio fundador da Empiricus, para saber sua opinião – como economista e também como investidor – acerca de finanças pessoais e do Brasil. Por isso estamos escrevendo para você hoje, uma quarta-feira, em caráter excepcional. Não queremos ser chatos ou incisivos, mas se você não dá a devida atenção ao seu dinheiro, essa carta é especialmente para você.

Felipe nos contou sobre quando começou seus investimentos, 17 anos atrás, por influência de seu pai. Entretanto, para muitas pessoas não é fácil começar a investir. Há sempre aquela desculpa sobre “ser leigo” para falar sobre dinheiro. Aqui, nosso entrevistado quebrou o primeiro mito: não é preciso ser um mestre em economia para ser um bom investidor.

Ele é responsável pela Carteira Empiricus, que é o relatório de investimentos mais completo da empresa, com recomendações de renda fixa, tesouro direto, câmbio, ações, opções, fundos imobiliários, entre outros. O intuito é guiar os leitores a montarem a melhor carteira de investimentos possível. Aproveitamos nossa conversa para perguntar um pouco mais sobre as aplicações que ele recomenda aos seus leitores.

Há cerca de um ano, Felipe lançou a tese O Fim do Brasil, na qual desenvolveu um estudo sobre o momento econômico do país. Neste ano, suas projeções e análises foram confirmadas pelo próprio mercado. Então também perguntamos qual a opinião atual dele sobre a economia brasileira. E o que ele espera para este semestre.

Em outro ponto chave da nossa conversa, Felipe nos contou o que sempre tem em mente quando o dinheiro dele está em jogo. “Você tem que cuidar de várias coisas na vida, como a saúde e a educação, por exemplo. Com o dinheiro não é diferente, é necessário assumir um compromisso”, disse.

Acompanhe na íntegra a entrevista com Felipe Miranda na íntegra:

Criando Riqueza: Muitas vezes as pessoas argumentam que economia é um assunto difícil e não sabem cuidar bem de seu dinheiro. Qual o seu segredo?

Felipe Miranda: Cuidar da sua vida financeira é como cuidar da saúde. O médico vai ser chato e vai mandar você fazer esportes, comer bem, fazer exames. Cuidar do dinheiro também é uma obrigação. Como será o seu futuro se você não tiver dinheiro?

Não estou dizendo isso em uma perspectiva de que o dinheiro é mais importante do que outras coisas. Não é. Mas é tão relevante quanto outras, como saúde, educação, divertimento. Ter medo de enfrentar sua vida financeira não vai aliviar a necessidade que você tem de cuidar disso. A necessidade não vai ser menor se você resolver não tratá-la. Não há como virar as coisas, pois esse assunto vai continuar a ser essencial.

Criando Riqueza: Quais são as melhores ações para quem está começando a investir? O que as pessoas interessadas neste mercado precisam saber?

Felipe Miranda: Eu acho que a melhor maneira de aprender a investir é começar fazendo. As finanças pertencem aos praticantes. Não adianta ir da teoria para a prática. Tem que adequar o modelo à realidade. Claro que você sempre pode perder. É preciso ter essa noção. No investimento em risco, como o de ações, não se trata de acertar sempre. Mas sim de começar aos poucos e acertar mais vezes do que errar. Como em qualquer coisa na vida.

É bom começar o investimento em ações por empresas que oferecem menos risco, como Itaú, Ambev, Natura, que são casos clássicos.

Além disso, eu acredito que em algumas situações o leigo pode ter um melhor desempenho do que o profissional das finanças, simplesmente pelo fato de ter noção de que não é um sabe-tudo das coisas.

Criando Riqueza: Saber demais pode atrapalhar, é isso que você quer dizer?

Felipe Miranda: Quando você estuda e é treinado por todo o arcabouço das ciências das finanças modernas, você passa a acreditar que consegue modelar bem o futuro e a fazer as projeções corretas. Então o profissional acha que sabe prever o futuro, acha que consegue ver a OGX produzindo seus milhares de barris de petróleo. Mas não consegue isso.

Saber demais é bom. E o investidor iniciante tem que procurar se informar. Mas, na minha opinião, o leigo pode ter vantagem. Você já ouviu dizerem que “No map is better than a wrong map” (não ter um mapa é melhor do que ter um mapa errado)?

Criando Riqueza: Quanto de seu dinheiro um investidor leigo deve colocar em ações? 

Felipe Miranda: Hoje ele deve ter algo em torno de 5%, o que considero um valor razoável.

Criando Riqueza: Então a recomendação é de uma exposição baixa em bolsa, certo?

Felipe Miranda: Sim. A bolsa brasileira negocia hoje a múltiplos superiores à sua média histórica, mas não deveria, por três razões. Em primeiro lugar, porque só poderia negociar um valor acima dessa média se hoje o risco fosse menor do que o risco na época da média histórica.

A segunda razão é a seguinte: para estar acima da média histórica, seria preciso que a perspectiva de crescimento de lucros das empresa fossem melhor do que os crescimentos de lucros da época da média histórica.

Em terceiro lugar, poderia fazer sentido a bolsa estar um pouco mais cara – ou seja, pagando pouco – se as outras referências do mercado estivessem pagando pouco, mas hoje os juros estão pagando mais.

Entretanto, o fato de o mercado estar ruim não quer dizer que não há boas oportunidades na bolsa de valores.

Criando Riqueza: Já se passou um ano desde “O Fim do Brasil”. Vimos que o que você disse lá atras aconteceu. E agora, como você vê o país? 

Felipe Miranda: Estou sempre preocupado com o país. Embora muito daquilo que foi dito tenha se materializado, ainda estamos no meio do processo de piora da economia. O juro ainda vai subir, o dólar vai subir, a inflação ainda vai subir. Ou seja, a tese de “O Fim do Brasil” continua a mesma e ainda vamos ver novos acertos dessa mesma tese.

Eu acho que a situação econômica do país ainda vai piorar no terceiro trimestre. Quero dizer, o ritmo da queda vai se acentuar. A partir daí, vai parar de de cair tanto.

Eu estimo queda de 2% para o PIB brasileiro neste ano e estabilidade no ano que vem. Isso é grave. Mas, em 2017, o país cresce 1,5%. Isso significa que vamos entrar em 2018 com o mesmo PIB que tínhamos em 2013. Acontece que a população cresce em média 5% em cinco anos, o que quer dizer que a renda per capita está caindo no país. Teremos em 2018 uma renda per capita 5% menos do que a de 2013.

E para recuperar isso? Bem, vamos considerar então que de 2018 a 2023 a população vai crescer mais 5%. O PIB terá que crescer 2% ao ano para chegarmos em 2023 na mesma situação de 2013. Ou seja, a década está perdida.

Criando Riqueza: Na Carteira Empiricus, você sugere aplicar 5% do dinheiro em dólar. Por que?

Felipe Miranda: O racional do investimento em dólar tem dois componentes. Um deles é a compra de um ativo por um valor menor do que ele vale. O dólar deveria estar entre R$ 3,50 e R$ 3,70, que seria um patamar justo. Hoje está em R$ 3,13. Além disso, o dólar é como um “seguro” que se compra para se proteger de crises. De uma forma geral, pode-se dizer que as coisas não vão bem na economia. E vão ficar pior.

Oras, se pode acontecer de o dólar valer menos do que o valor justo, por que não poderia valer mais do que o valor justo em algum momento? Considerando R$ 3,60 um nível justo, por que o dólar não pode ir até R$ 4?

Se chegar aos R$ 3,60, o dólar terá subido mais do que o retorno do DI. Ou seja, hoje você tem toda a possibilidade de ter um ganho bom com dólar.

Criando Riqueza: Você também recomenda ouro. A razão é a mesma?

Felipe Miranda: O ouro é um seguro clássico. E a justificativa de investimento decorre da interpretação de que todas as outras moedas podem cair. O dólar é seguro no ponto de vista de que quando “o mundo está doente”, as pessoas correm para o dólar. E quando o dólar também fica doente? O ouro é um seguro contra o dólar e tem tangibilidade.

Vamos imaginar um cenário extremo em que a injeção de dólares na economia: temos visto os Estados Unidos com sua política monetária de estímulos, com seus três programas chamados de Quantitative easing (QE). Mas há na economia a lei dos “retornos marginais decrescentes”, que diz que uma mesma medida começa a perder eficiência com o passar do tempo. Se os EUA lançarem outro programa, a economia já não vai responder tão bem como já aconteceu das primeiras vezes. Mesmo que imprimam muitos dólares. Num cenário desses, é bom diversificar. Se você não tem nada de ouro em sua carteira de investimentos, você não entende nada de diversificação.

Criando Riqueza: Você também segue a Carteira Empiricus em seus investimentos pessoais?

Felipe Miranda: Como sou analista, eu sigo as regras do mercado financeiro, pois há restrições de investimentos para quem faz as recomendações. Mas, considerando essas limitações, sim, eu sigo exatamente o que acredito e escrevo.

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Espero que tenham gostado da entrevista!

Um abraço e até sexta-feira,
Camila Passucci e Olivia Alonso

 

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