Fique fora desse clube

Engessados, clubes de investimento caminham para a extinção e revelam baixo apelo ao pequeno investidor

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Fique fora desse clube

Caro leitor,

Pense num clube exclusivo, com acesso a apenas 50 membros, que podem ser seus amigos, sua família ou colegas de trabalho. A ideia desse clube é gerar riqueza para todos os membros a partir de conversas no bar, em casa, na piscina, e tomadas de decisão em conjunto. Vamos comprar essa ação ou vender aquele outro papel?

Por trás desse clube, há certa garantia de igualdade de decisões, porque ninguém pode ter mais de 40% das cotas. Nada daquele diretor mandachuva dando ordem em todo mundo; aqui são direitos (quase) iguais!

Parece interessante, né? Pensar num espaço para você se reunir com pessoas das quais gosta ou com quem têm alguma afinidade e finalmente poder testar seus conhecimentos do mercado financeiro em conjunto, sem aquela insegurança que acomete grande parte das pessoas físicas.

No mundo ideal, tudo parece funcionar. Mas, na prática, não é bem assim… E vou explicar por quê.

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Quem disse que é simples tomar decisões conjuntas? Pense nos tradicionais conflitos de almoço de família e projete isso para o mundo dos investimentos. E como eleger um representante do grupo, que nem sequer será remunerado para assumir a condução das decisões? E os custos, quem está disposto a pagar?

Bem-vindo ao universo dos clubes de investimento, um veículo que parece estar cada vez mais caminhando para a extinção.

Mesmo com um apelo decrescente, volta a meia algum leitor nos escreve perguntando do tema.

Olá Beatriz,

Sou assinante do Você Investidor, suas dicas estão me ajudando muito a criar uma “consciência de investidor”, parabéns pelo conteúdo.

Gostaria de sugerir uma pauta para que vocês abordem futuramente, o Clube de Investimentos, isto é, se é uma boa opção para o pequeno investidor, como criar um, como funciona a administração etc. Existem amigos que estão interessados e ainda não tenho muitos conhecimentos.

Marcos Antonio M.

 

Vocês sabem dizer se existe um clube ou uma cooperativa de investimentos segura? Qual? E onde?

Roberto E.

Marcos e Roberto, comecemos pelo início.

O que são os clubes?

Os clubes são um veículo de investimento coletivo com no mínimo 3 e no máximo 50 participantes, sempre pessoas físicas. Eles precisam aplicar pelo menos 67% dos recursos em ações, bônus de subscrição, debêntures conversíveis em ações de emissão de companhias abertas, recibos de subscrição, cotas de fundos de índices de ações negociados em mercado organizado (ETFs) e certificados de depósitos de ações.

Os clubes lembram fundos de investimento – mas têm atuação mais restrita. Seu patrimônio também é dividido em cotas, o que faz de você, investidor, um cotista. E o funcionamento é como o de um fundo aberto, ou seja, permite que você resgate suas cotas quando desejar, seguindo, é claro, as condições do estatuto do clube.

Quando os clubes surgiram, a ideia era fazer com que pessoas comuns, como eu e você, tivessem uma porta de entrada para a bolsa.

Para isso, foram desenvolvidas normas de constituição e funcionamento mais simples e flexíveis, como a dispensa de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A parte tributária também é vantajosa, porque o clube conta com tributação de 15% de IR sobre os rendimentos apenas no resgate das cotas, além da isenção de IOF.

Do ponto de vista operacional, um dos principais diferenciais diz respeito à gestão. Se você investir num fundo, ainda que de alguma maneira possa participar das decisões por meio das assembleias, você precisa confiar no trabalho do gestor para cuidar do patrimônio do fundo.

Já no clube, a história é outra. A gestão da carteira dos participantes pode ficar com os próprios investidores (um ou mais cotista), eleitos em assembleia geral. A corretora dá apenas um respaldo ao clube e é responsável por sua administração, não necessariamente pela escolha dos ativos. Ela só vai fazer esse papel se os membros do clube assim desejarem, o que de certa forma acaba com o foco inicial desse veículo.

A proposta é que você e seus amigos, sua família ou colegas de trabalho se reúnam para trocar informações e conhecimento sobre o mercado financeiro, assumindo a gestão de uma carteira para identificar as melhores oportunidades para investir.

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Nem tudo que reluz é ouro…

O funcionamento parece simples, o espaço se mostra democrático e você pode escolher com quem quer dividir o aumento (ou a redução) do patrimônio. Até agora, parece bem interessante esse tal de clube, né? Por que não começar por aí?

Muitas gestoras de fundos de ações começaram sua história num clube de investimento, e até mesmo gestores famosos usaram esses veículos, muitas vezes para gerir o dinheiro da própria família, aproveitando as exigências e os custos mais baixos. Mas há cinco anos a história começou a mudar e as regras restringiram o apelo dos clubes e limitaram seu uso indevido.

Ch-ch-ch-ch-Changes

O número máximo de participantes dos clubes caiu, em 2011, de 150 para 50, o que limitou bastante sua existência.

A dinâmica do mercado de ações brasileiro também não contribuiu nos últimos tempos. Embora a bolsa acumule alta em 2016, nos últimos três anos ela só amargou tristeza, quando olhamos para seu principal referencial, o Ibovespa. Se tem sido tarefa difícil para profissionais do mercado garimpar oportunidades, imagine para leigos.

E há o fato de os clubes terem escopo de atuação limitada, sem permissão para fazer operações de hedge ou para comprar cotas de fundos imobiliários, multimercados ou de ações.

Não à toa, o número de clubes vem caindo. Em 2012, eles somavam cerca de 2.800 e, no fim do ano passado, estavam na faixa dos 1.400. Da mesma forma, o patrimônio caiu pela metade, de R$ 8,1 bilhões para R$ 4 bilhões.

Corretoras: bem me quer, mal me quer

Entrei em contato com as corretoras mais populares aqui na Empiricus para saber como funciona a abertura de clubes.

Na Ativa Investimentos, por exemplo, é exigido um patrimônio líquido mínimo de R$ 200 mil e é cobrada uma taxa de administração anual de 2% sobre o patrimônio líquido que pode variar – quanto maior o patrimônio, menor a taxa.

Na Rico, a taxa cobrada é a mesma, mas o patrimônio mínimo sobe para R$ 700 mil. Os custos seguem a tabela Bovespa.

A XP tem a mesma taxa de 2% a.a., com um mínimo mensal de R$ 600,00. A corretora recomenda aos seus agentes autônomos dar ao menos 50% de desconto para o clube na corretagem. O custo estimado pela XP para a abertura de um clube é de R$ 500,00, com um prazo de cerca de 30 dias após a liberação dos documentos pela bolsa.

A Easynvest não trabalha com clubes de investimento.

Por que não virar sócio desse clube?

O propósito inicial dos clubes parece ter se perdido há algum tempo. Quem tem tempo para se reunir com conhecidos periodicamente para discutir o mercado? Na prática, as pessoas mal dão conta de gerir seus investimentos. E num mercado que anda difícil até para os tubarões, por que se arriscar com outros peixinhos?

A falta de tempo para reuniões periódicas, a possibilidade de interesses e necessidades divergentes entre os membros e o engessamento dos clubes são entraves naturais desse veículo.

E há ainda um desinteresse de grande parte das corretoras em atendê-los, já que as receitas geradas são consideradas pequenas e os custos, elevados. Como não têm operações frequentes, pois o posicionamento é mais de longo prazo, os clubes não geram muita corretagem às corretoras. “O cotista demanda muito atendimento sem gerar receita”, me contou um ex-funcionário de corretora.

Outro ponto que gera descontentamento das corretoras em relação aos clubes diz respeito às reclamações — e ao consequente desgaste em respondê-las — na BSM, o braço de autorregulação da bolsa responsável por fiscalizar e supervisionar os participantes do mercado.

O que muita gente não sabe é que problemas entre cotistas e gestor e/ou administrador de clubes não se aplicam ao MRP. Nesses casos, as reclamações devem ser direcionadas à CVM. Vale ler minha newsletter do dia 14 de junho.

Se é para delegar a gestão para um profissional, prefiro saber que ele é especializado no mercado, ou seja, selecionar um gestor de ações com um bom histórico que vai lutar para me entregar bons retornos no fundo. Mesmo que os custos sejam maiores e que haja o tão malvisto come-cotas.

E se for para ter uma atuação ativa, assumindo decisões de investimento, prefiro investir de maneira independente e autônoma na bolsa, fazendo meus acertos e cometendo meus erros, sem ter desgastes com outros cotistas. As decisões também tendem a ser mais rápidas.

A proposta de um clube de investimento é muito interessante na teoria, mas, na prática, prefiro arregaçar as mangas e investir sozinha. Confio mais na minha atuação que na boa vontade, na integração e no alinhamento de interesses de outros 49 cotistas.

E você, o que acha do tema? Se quiser dividir sua opinião, mande um e-mail  para beatriz.cutait@criandoriqueza.com.br

 

Clubes de investimento esmiuçados

Para quem são destinados? Investidores pessoas físicas.

Quantos cotistas podem estar em um fundo? De 3 a 50.

Quem gere? Um ou mais cotistas (que não podem ser remunerados pelo serviço e precisam ser eleitos em assembleia geral); o administrador (como a corretora, desde que autorizada a exercer a atividade de administradora de carteira e eleita pela assembleia geral), que costuma seguir a carteira de sua área de análise; ou por um profissional credenciado na CVM como administrador de carteira.

Atuação? 67% do patrimônio precisa estar alocado em ações, bônus de subscrição, debêntures conversíveis em ações de emissão de companhias abertas, recibos de subscrição, cotas de fundos de índices de ações negociados em mercado organizado (ETFs) e certificados de depósitos de ações. É vedado a um clube comprar cotas de fundos imobiliários, multimercados ou de ações.

Limite de concentração? Um cotista não pode deter mais de 40% do total das cotas do clube.

 

Um abraço,

Beatriz

 

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