Freud explica: por que você não ganha dinheiro?

Adiar decisões financeiras é uma das maiores armadilhas da criação de riqueza. Comece a lidar com isso!

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Freud explica: por que você não ganha dinheiro?

Hoje o meu dia foi tão cansativo, amanhã vou pra academia. Amanhã, assim que chegar em casa, troco de roupa e vou. Faço um pouco mais de exercícios. Faço em dobro, e o problema está resolvido. Hoje vou descansar.

Preciso cancelar essa porcariaPreciso ligar lá para cancelarPor que raios eu fui assinar esse plano se eu já sabia que depois dos três meses gratuitos eu não iria querer pagar? Pior ainda: eu sabia que ia ficar com preguiça de ligar para cancelar. Por quê? 

Inglês? Vou começar a estudar no ano que vem. Ninguém consegue um trabalho sem falar inglês. Até agora, não deu tempo, mas essa é minha primeira meta do ano que vem.”

Você se identifica com alguma dessas situações? No meu caso, sem vergonha nenhuma de dizer, já vivi as três.

Talvez isso aconteça porque a vida anda complexa demais. Pode ser também por conta de todas as coisas que precisamos nos preocupar diariamente.

Não faltam desculpas para justificar as inúmeras vezes que postergamos atitudes importantes. Mas há um motivo óbvio para tudo isso: o tempo é escasso. E quase todos os recursos que disponibilizamos hoje também são escassos.

Tudo isso que falamos até agora, ainda que para alguns pareça ser apenas conversa fiada, é objeto de estudos científicos.  O nome desse hábito de postergar atitudes importantes, por exemplo, é a crença infundada na nossa força de vontade futura. Isso mesmo: uma crença, sem fundamento algum, na ideia de que em algum dia do futuro teremos uma força de vontade que não temos hoje.

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Quem nos explicou isso foi a mais respeitada especialista em Psicologia Econômica do Brasil, a psicanalista Dra. Vera Rita de Mello Ferreira (veja o currículo no final), representante brasileira na Associação Internacional de Pesquisa e Psicologia Econômica. Ela diz: “Não existe força de vontade futura. Ou você tem força de vontade hoje, ou você não tem. O amanhã também será um hoje.”

O simples fato de saber que “postergar” é um objeto de estudo das ciências da mente faz com que a gente comece a racionalizar esse comportamento. Assim, fica mais fácil evitá-lo nas próximas vezes.

A Dra. Vera Rita nos falou sobre essa e outras armadilhas da mente. Eu e a Camila estivemos em seu consultório aqui em São Paulo para saber mais sobre comportamento econômico e contamos logo abaixo os melhores momentos da nossa conversa. Siga em frente, pois saber mais sobre isso será fundamental para ajudá-lo a construir riqueza.

Criando Riqueza: Doutora Vera, quais são as armadilhas da mente que mais nos atrapalham?

Dra Vera – Um dos primeiros inimigos das nossas boas escolhas – sejam elas financeiras ou não – é a crença infundada na nossa força de vontade futura, que é um tipo de inércia. A força de vontade e o auto controle são ações que precisam ser executadas no momento em que são pensadas. Só que pensamos assim “hoje eu estou morrendo de preguiça, mas amanha eu faço”. Qual o problema aí? Você não se dá conta de que amanhã você não vai fazer, porque da mesma forma que você não fez hoje, amanhã você também vai ter preguiça.

Criando Riqueza: Como isso pode prejudicar decisões ligadas ao nosso dinheiro?

Dra Vera – Dois exemplos bem simples: quando adiamos a decisão de montar uma planilha de controle dos gastos, ou quando postergamos aquela ligação para o banco, questionando uma cobrança indevida no nosso cartão de crédito. Estamos falando de ações simples, capazes de serem realizadas, mas que adiamos e adiamos…

Há ainda um terceiro caso: muitas pessoas vivem dilemas em relação à poupança. Ou adiam o início do hábito de poupar ou investem de forma pouco racional. Podem estar “carecas” de saber que a poupança rende pouco e que a inflação está comendo seu dinheiro, mas deixam a aplicação quieta e não fazem nada a respeito disso.

Outro inimigo a ser combatido é o otimismo excessivo, que leva as pessoas a não se prepararem para eventuais riscos. Para sustentar essa minha explicação, me apoio na Psicanálise. A emoção presente nessas situações é um tipo de funcionamento primitivo que divide as coisas em boas e más, mocinhos e vilões, perfeitas e horrorosas. Aquele otimismo desenfreado que o país vivia em 2013 com a economia agora dá lugar a um pessimismo furioso.

Criando Riqueza – Como o otimismo excessivo prejudica nossas decisões financeiras?

Dra Vera – A pessoa pensa: “Vou usar meu cartão de crédito”. Mas não tem dinheiro. Então, divide uma compra em 12 vezes. Oi? O dinheiro não vai aparecer porque você dividiu sua compra em 12 vezes. O uso do crédito é um exemplo dessa ação, quando a pessoa não tem meios suficientes para pagar pelo objeto de consumo.

Ao lado do otimismo excessivo, temos também a confiança exagerada. Vocêe sua turma tomaram uns drinks a mais. E agora, quem vai dirigir? Há sempre um confiante demais que bebeu 4 uísques e acha que nada pode acontecer com ele.

Criando Riqueza – No fundo, muitas vezes sabemos que estamos errados, não é mesmo? Então o que acontece com a nossa mente quando passamos por situações como essas?

Dra Vera – Tudo isso está ligado ao nosso comportamento psíquico, que funciona num piloto automático, que chamamos de “Sistema 1”.

Quando queremos encontrar soluções para resolver um problema, adotamos um método chamado heurística – esse método resume-se em encontrar soluções viáveis para a situação, mesmo que imperfeitas.

As heurísticas são usadas por nós o tempo todo, porque nosso modo de funcionar é primitivo e programado a olhar apenas o curto prazo. Esse modo primitivo está ligado ao Sistema 1. Os nossos ancestrais não precisavam se preocupar com aposentadoria, com o investimento no Tesouro Direto para daqui 5 anos, ou mesmo com o almoço de amanhã – precisavam apenas sobreviver ao dia de hoje.

Esses ancestrais viviam 20, 25 anos e suas preocupações eram imediatas – se durante a noite fria iriam conseguir se esquentar, se um tigre feroz iria atacá-los naquele momento ou qual seria a caça que iria prover o jantar. Eram tomadas de decisões rápidas, primitivas e que traziam resultados imediatos.

Criando Riqueza –  Mas nós não evoluímos?

Dra. Vera – Estudos sobre Psicologia e Psicanálise Econômica comprovam que nossa mente não evoluiu tão rápido quanto evoluímos tecnologicamente. Somos sustentados por dois sistemas. O 1, que já citamos, é nosso modo primitivo de pensar. Estamos falando de ações automáticas, como uma soma 2 + 2, ou o mudar de marchas do  nosso carro. Nesse sistema estão concentradas nossas decisões sem fundamentos. É o exemplo de quando compramos algo que não precisamos ou não temos dinheiro suficiente para comprar, mas mesmo assim passamos o cartão de crédito.

Já o Sistema 2 é aquele que planeja, que analisa.

Quando encontramos algo que desejamos, voltamos ao nosso Sistema 1. Écomo um sistema de internet, que às vezes “cai”. Voltamos a pensar no curto prazo, na satisfação momentânea que aquela ação irá causar.  É como se tivéssemos um lado Homer Simpson no painel de controle de uma usina nuclear.

Criando Riqueza – Quais são as principais ciladas do investidor?

Dra. Vera – Uma das ciladas mais comuns é a aversão à perda. Estudos comprovam que ficamos 2 vezes mais tristes quando perdemos algo do que ficamos felizes quando ganhamos. É isso que faz o cara não vender as ações da Petrobras, por exemplo.Ele não quer perder, mas o que ele está fazendo? Correndo um baita risco de perder muito mais.  Ele não se dá conta disso. É a falácia do apostador.

Outro exemplo é o da pessoa que vai no cassino, perde tudo o que tem, mas mesmo assim ainda sobe para o quarto (ou então passa no caixa automático) para pegar ainda mais dinheiro. Aí você encontra com ela e diz: “Nossa mas você quer perder mais dinheiro?”. E ele: “Vou agora recuperar”- e aqui voltamos para o otimismo excessivo.

Para saber como adestrar o seu Sistema 1 e como tomar decisões mais racionais no dia a dia, seja um assinante do Criando Riqueza e tenha acesso aos textos abaixo. Você passará a receber outros conteúdos para a construção de seu patrimônio.

*Sobre a nossa entrevistada: Dra. Vera Rita de Mello Ferreira: Doutora em Psicologia Social, com tese sobre Psicologia Econômica; consultora independente; palestrante; professora; representante no Brasil da IAREP-International Association for Research in Economic Psychology; membro do NEC-Núcleo de Estudos Comportamentais, na CVM, e do Research Committee da INFE-International Network for Financial Education/OECD-Organisation for Economic Cooperation and Development

Até semana que vem.

Um abraço

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