Por que os bancos escondem linhas do BNDES?

Saiba defender-se de funcionários que dificultam o acesso a crédito mais barato do banco de fomento

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Por que os bancos escondem linhas do BNDES?

Caro leitor,

Hoje damos sequência à nossa Série Bancos. Como o foco do dia está no empreendedor brasileiro, convidei o editor André Zara para abordar um assunto sensível para qualquer empresário: a concessão de crédito.

A ideia hoje é discutir por que os bancos dificultam tanto o acesso às linhas de crédito do BNDES. Afinal, se o banco de fomento oferece taxas de juros mais baixas justamente para estimular o empreendedor, quais são as razões que levam os bancos a “esconder” as condições desse financiamento?

O André vai revelar o que está por trás dessa questão e apresentar orientações para que você consiga o melhor atendimento possível de seu gerente bancário.

Um abraço,

Beatriz

O ano era 2013. O auditório da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio), na capital paulista, estava lotado para receber o então presidente do BNDES, Luciano Coutinho, em evento para discutir políticas de crédito para pequenas empresas.

O presidente deu a palestra e citou, orgulhoso, vultosos valores concedidos para os negócios de pequeno porte. No entanto, quando o microfone foi aberto para as perguntas, Coutinho tornou-se alvo dos questionamentos dos empresários presentes. Eles estavam frustrados.

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Os bancos, responsáveis por intermediar o acesso ao dinheiro do BNDES, estariam dificultando a obtenção do crédito. Para lidar diretamente com o banco de desenvolvimento, seria preciso solicitar valores acima de R$ 20 milhões. Em alguns casos, os empreendedores alegaram que os bancos impunham barreiras em benefício dos próprios produtos. Coutinho ficou pasmo com a raiva dos empresários.

Eu estava assistindo à palestra e fiquei intrigado. Passados três anos, quando discutíamos na nossa reunião semanal quais temas abordaríamos na Série Bancos, lembrei da cena imediatamente, mas fiquei com uma dúvida: passados todos esses anos, a situação teria mudado?

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Minha primeira pista de que a situação persiste partiu da Magda Calegari, consultora do Sebrae/SP especialista em financiamento. “Nas palestras que fazemos sobre acesso a crédito, escutamos empreendedores reclamando que, às vezes, os funcionários dos bancos tentam privilegiar suas linhas de financiamento em relação às do BNDES. Isso acontece porque os empreendedores escutam falar das linhas de crédito e produtos, mas não sabem exatamente quais são, para que servem e quais são as regras para acessar. Esse desconhecimento dá espaço às ofertas próprias dos bancos”, diz.

Mas não é só uma questão de desconhecimento. Funcionários de bancos têm metas a cumprir e, portanto, se o seu interesse não casa com o das instituições, imagine quem sai perdendo?

O prejuízo pode ser traduzido em taxas mais altas de juros na comparação com as do BNDES, mas, para nossa tristeza, não existe um levantamento que exponha o quão maiores elas são. Segundo Magda, os bancos não fornecem dados, alegando que as taxas variam conforme a análise de crédito de cada cliente.

Um norte para analisar os juros

Mas nem tudo está perdido. Para analisar as condições ofertadas por seu banco para concessão de crédito, você pode se balizar nos dados disponíveis do Programa BNDES de Apoio ao Fortalecimento da Capacidade de Geração de Emprego e Renda (Progeren), que concede linhas para capital de giro. Nele, os juros para micro e pequenas empresas são de 11,67% ao ano.

Pelos critérios do BNDES, microempresas têm receita operacional bruta anual menor ou igual a R$ 2,4 milhões, e pequenas empresas, maior que R$ 2,4 milhões e menor ou igual a R$ 16 milhões.

Há um detalhe nessa história. Esses 11,67% ao ano não incluem a remuneração dos bancos, que é a taxa que reflete o risco de crédito assumido e que será determinada pela instituição financeira que irá repassar os recursos.

A taxa de juros final pode ser, então, expressa da seguinte maneira:

Taxa de juros = Custo financeiro + Remuneração básica do BNDES + Taxa de intermediação financeira + Remuneração da instituição financeira credenciada

Esse “pedágio” cobrado pelos bancos sai caro.

Não à toa, o presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos, defendeu, em fevereiro, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, que os juros finais (com todos os custos embutidos) de linhas de capital de giro às pequenas empresas não ultrapassem 18% ao ano.

“Os bancos, no entanto, relataram dificuldade em alcançar esse patamar, mas afirmaram que vão estudar medidas para reduzir custos e tentar viabilizar essa linha até o fim do mês”, informou a reportagem.

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O processo

A pista começava a esquentar, mas continuei cavando. Procurei, então, a Tiex, consultoria que ajuda empresas a captar recursos com o BNDES e outras instituições de fomento. Fábio Yamamoto, sócio da empresa, revelou mais uma peça do quebra-cabeça: a oferta de maior agilidade por parte dos bancos na concessão do crédito.

“Conseguir o crédito do BNDES é burocrático e é preciso atender a muitos critérios rigorosos (antes e depois da concessão do dinheiro). Isso permite aos funcionários do banco oferecerem seus produtos com aprovação mais rápida e fácil, apesar das taxas mais altas”, disse.

Como falei no começo da newsletter, se você quiser ter acesso aos recursos do BNDES (no valor de até R$ 20 milhões), terá de recorrer aos bancos credenciados (e nos quais você deverá ter uma conta aberta).

Seu crédito precisa ser analisado e aprovado pelo banco emissor, que assume o risco de crédito perante o BNDES, bem como todo o relacionamento com sua empresa, incluindo a cobrança de prestações e a aplicação de tarifas. Por isso, ele pode solicitar a garantia que julgar necessária para liberar os recursos.

Reclamações

A pedido do Criando Riqueza, a equipe do site Reclame Aqui fez um levantamento sobre as queixas dos consumidores e colocou-me em contato com os casos que achei mais impressionantes.

Segundo o site, foram registradas 56 reclamações relacionadas ao BNDES no período de um ano (de maio de 2015 a maio de 2016). As queixas são, na verdade, contra os bancos credenciados e variam entre cobranças indevidas, tarifas abusivas, atrasos na análise de crédito do banco emissor, cancelamentos indevidos, problemas de atendimento e recredenciamento, entre outras.

No levantamento, detectei três casos em que os funcionários dos bancos pareceram agir de má-fé para dificultar o acesso às linhas e aos produtos do BNDES, como o cartão BNDES, com limite pré-aprovado de até R$ 1 milhão para compra de insumos e serviços e com taxa de juros de 1,21% ao mês.

O que mais me impressionou foi o de Denison Pereira Bachega, que trabalha na oficina mecânica da família, fundada em 1997 em Maringá (PR), cuidando da parte financeira da operação (atualmente com nove funcionários). Ele tentou buscar o financiamento do BNDES no começo deste ano, para comprar um elevador de carros.

Denison procurou a Caixa Econômica Federal, na qual a oficina tem conta jurídica, para solicitar o cartão do BNDES. Levantou todos os dados solicitados para a análise de crédito e entregou à Caixa. Mas eles não foram suficientes para a aprovação de um gerente encarregado de contas de pessoas jurídicas.

“O gerente sabia que eu estava terminando de pagar um empréstimo de capital de giro e disse que estava na hora de eu contratar novos produtos. Ele falou que a superintendência da Caixa solicitava que eu tivesse mais produtos contratados para liberar o Cartão BNDES. Mas o banco não me fez nenhum favor, eu paguei juros pelo empréstimo, e eu disse que não queria”, conta.

Denison reclamou no SAC da Caixa sobre a tentativa de venda casada. Para sua surpresa, sua reclamação foi encaminhada diretamente para o gerente, que ligou para o empreendedor e tentou conversar, mas Denison não quis saber de papo.

Ele procurou, então, o SAC do BNDES, mas soube que deveria resolver o problema com a Caixa, pois era a instituição a responsável pela análise e pela aprovação do crédito. Restou a ele consultar um advogado, que recomendou fazer outra reclamação na Caixa. Se não houvesse resultado, poderia entrar com ação no juizado de pequenas causas. Denison também fez seu protesto no Reclame Aqui, mas descobriu que a Caixa não atende os pedidos pela plataforma – até hoje, o banco ignorou mais de 20 mil reclamações.

E o esforço todo deu certo. Uma nova gerente do banco entrou em contato e ajudou Denison a conseguir o cartão. “Minha sorte foi que eu já tinha um relacionamento com a profissional, que teve a boa vontade para me ajudar”, completa.

Queixas no Banco Central

O BNDES figura entre as instituições com reclamações no Banco Central. Um levantamento sobre as reclamações formais contendo o termo “BNDES” indicou 240 queixas, entre janeiro e 21 de junho deste ano. Veja abaixo:

Fonte: Banco Central / Período: 01/01/2016 a 21/06/2016

“Não significa, ressalte-se, que seja uma reclamação contra o BNDES, porque o cidadão não está se relacionando diretamente com o BNDES, e, sim, contra a instituição financeira com a qual mantém relacionamento cotidiano. No quadro acima, os itens ‘Recusa de produtos e serviços’ e ‘Venda casada’ são os com maior probabilidade de abrigar registros como o do caso específico relatado por você”, informou o Banco Central, por meio de sua assessoria de imprensa.

Mão na massa!

gora que você já sabe que não é tarefa fácil receber financiamento do BNDES, pode chegar mais bem preparado para o atendimento de seu gerente. E saiba que você pode reclamar. O Banco Central recomenda seguir estes passos, caso se sinta prejudicado:

– Reclame ao SAC do banco;
– Se não der certo, procure a ouvidoria do banco;
– Não resolveu? Então você deve queixar-se ao Banco Central via internet, telefone, carta ou presencialmente. Veja como em http://www.bcb.gov.br/?RECLAMAAUTO.

Já passou por algo assim? Mande sua história para mim!

Ao trabalho!

Um abraço,

André Zara

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